segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O TOQUE DO GUERREIRO




Guerreiros indomados, corações apaixonados!
Connor MacEgan é um guerreiro. Está em seu sangue. Quando suas mãos são feridas em um ato brutal, ele descobre que talvez jamais possa empunhar uma espada novamente... ou tocar uma mulher... Ele passa a contar com a ajuda de Aileen O’Duinne, uma mulher incapaz de ignorar o sofrimento alheio da mesma forma que é impossível para Connor fugir de uma batalha, Mas sobre ela paira um mistério; um segredo de paixão e subterfúgio, que pode partir seus corações mesmo depois que as mãos dele estiverem curadas...

Ela o escutou entrar, fechando a aba de couro atrás de si, até que estivessem cercados pela escuridão. As peles macias lhe atormentavam a pele nua, sensuais e convidativas.
Aileen não podia acreditar que havia concordado com esta mentira. Mas agora era tarde demais para voltar atrás. Escutou o leve ruído das roupas de Connor caindo ao chão. Depois, sentiu seu peso quando ele se sentou sobre o catre.
— Sabe o que esperam de nós — ele disse.
Sua voz, um som grave e ressonante, parecia acariciá-la.
— Sei.
A mão dele se moveu até alcançar a coroa. Ele a retirou, passando os dedos pelos cabelos dela. Aileen estremeceu, e as mãos dele seguiram para os ombros desnudos.
— Você é linda — ele disse, e, por um instante, ela acreditou nele. Ela estendeu a mão e juntou sua palma à dele.
Isso é errado, pensou. Mas, esta noite, não terei arrependimentos. Se Lianna não queria fazer o papel da deusa, Aileen o faria. Por ora, por esta noite de Bealtaine, ele lhe pertencia. E ela pretendia aproveitar cada instante...


a chroí — meu coração

a dalta — termo carinhoso para um filho de criação, literalmente meu

aluno a ghrá — meu amor
a iníon — minha filha

a stór — meu tesouro, meu (minha) querido(a)
aenach — feira / mercado local
aite — pai de criação

bean-sidhe (banshee) — fada do gênero feminino

brat — xale rústico de lã usado nos ombros por homens e mulheres

brehons — juízes de casos levados à corte

cailín — menina

corp-dire — "preço de corpo", normalmente multa paga ao ofendido por crime de lesão corporal
craibechan — prato de sabor forte, tira-gosto ou sobremesa de carne com legumes

dia dhúit — olá, literalmente que Deus esteja com você
ech — cavalo de batalha

eraic — multa de indenização, literalmente dinheiro de sangue
flaiths — nobres

léine — túnica longa para mulheres ou camisa longa para homens

méirge — estandarte colorido

níl — não

rath — fortaleza

sibh — fadas

sibh dubh — fadas das trevas
tá — sim

tuatha — cidade ou vila pertencente a um clã, literalmente o povo






Capítulo Um


Irlanda, 1175
— Aileen! Tem um homem morto nos campos!
Lorcan entrou correndo na choupana de pedra, nervoso, jogando o peso do corpo de uma das pernas para a outra.
Um homem morto? Aileen O’Duinne deixou cair os bulbos de alho que havia colhido naquela manhã e ficou de pé.
— Tem certeza de que ele está morto?
A expectativa lhe percorreu o corpo, movida pela tênue esperança de que o homem ainda pudesse estar vivo. Lorcan deu de ombros.
— Ele não estava se mexendo. E havia sangue espalhado por tudo quanto era lugar.
Provavelmente o menino tinha razão. Aileen esforçou-se para não alimentar esperanças. No entanto, se ele não estivesse morto, talvez ela pudesse salvá-lo.
— Onde o encontrou?
— Eu mostro. — Lorcan pensou por um instante, seus olhos castanhos demonstrando crescente preocupação. — Será que me meterei em confusão por lhe contar? Ele já está morto.
Aileen sacudiu a cabeça.
— Não se preocupe. Fez a coisa certa ao me procurar.
É proibido, sua mente a alertou. Se o chefe da aldeia, Seamus O’Duinne, descobrisse, ele a puniria. Ela não tinha permissão para curar nenhum dos membros da tribo.
Mas agora não havia tempo para se preocupar com isso.
Belisama, permita que ele ainda esteja vivo.
Lorcan a seguiu choupana adentro enquanto Aileen enchia sua cesta com bandagens de linho limpas, confrei e milefólio. Virando-se, observou Lorcan.
— Leve-me a ele.
O menino seguiu na direção do pasto norte. Aileen correu atrás dele, passando por várias das choupanas de pedra de seus vizinhos. Um dos homens interrompeu seu trabalho nos campos, fitando-a com desgosto. Aileen forçou-se a desviar o olhar.
Não dê importância ao que ele pensa, disse para si mesma. Você não fez nada de errado. Ainda assim, seu rosto ardeu de humilhação. Os aldeões não haviam se esquecido do azar que a perseguia.
O orvalho matinal umedecia a barra de seu vestido, enquanto ela seguia Lorcan. O menino seguia correndo na frente, apontando na direção do lado leste da colina.
A grama de verão balançava ao vento. Uma pequena extensão estava amassada sob o corpo do homem deitado de barriga para baixo. A posição incomum dos membros sugeria uma queda do cavalo. Seu sangue manchava a grama, e as mãos de Aileen tremeram quando ela as estendeu para tocá-lo.
Um gemido baixinho veio do corpo. Por todos os santos. Ele estava vivo.
Graças aos deuses. Eles haviam lhe concedido uma segunda chance, e ela pretendia aproveitá-la ao máximo.
— Vá buscar Riordan — Aileen pediu a Lorcan. — Vou precisar de ajuda para mover o homem. Diga-lhe para trazer um dos cavalos.
Ela não permitiria que este homem morresse. Independente do que os outros pensavam de seus talentos, ela o curaria.
Depois de Lorcan ter ido embora, ela virou o homem de barriga para cima. O rosto inchado que viu quase parou seu coração. Apesar de seus ferimentos, ela o reconheceria em qualquer lugar. Connor MacEgan. Aileen pensava que jamais o veria novamente.
Medo e desejo impensado entraram em choque dentro de Aileen, destroçando-lhe a compostura. De todos os homens que o destino poderia ter deixado em suas mãos, por que tinha de ser ele?
Seu rosto, o rosto de um dos anjos de Deus, havia assombrado seus sonhos desde que era uma mocinha. Com lábios firmes, um nariz reto e queixo forte, os traços de sua ascendência viking por parte do avô eram evidentes. O sangue empapava o cabelo dourado-escuro e escorria de um corte em sua têmpora.
Outrora, ela o havia amado. A lembrança veio acompanhada de dor, mas Aileen se esforçou para ignorá-la. Suas mãos tremiam ao desfazer os laços da túnica. Com seu punhal, cortou o tecido de algodão pardo para revelar o peito rijo do guerreiro. Ele havia sido repetidamente golpeado por um objeto pontiagudo, mas os cortes não eram profundos. Como se houvesse sido torturado...
Tentou tirar da cabeça o terrível pensamento. Por quanto tempo ele estaria ali? Devido á palidez acinzentada, ela se perguntou quanto sangue ele havia perdido. Talvez fosse tarde demais para curá-lo.
Não pense nisso. Ela lhe esfregou o peito, depois voltou sua atenção para a cabeça. Fez pressão sobre a têmpora para estancar o sangue. Foi então que notou os inchaços escuros nas mãos e nos pulsos. Seria necessário alinhar os ossos quebrados com talas.
Ele não deve morrer. Ela precisava levá-lo de volta para a choupana para lhe tratar as mãos e dar alguns pontos nos ferimentos mais profundos, mas não poderia fazê-lo sem ajuda. Onde estava Riordan?
O horizonte se estendia vazio diante dela, sem nenhum sinal de Lorcan ou Riordan. Não poderia contar com mais ninguém para auxiliá-la. A maioria dos aldeões acreditava que ela era amaldiçoada.
Ela retirou vários dentes de alho de sua cesta, pressionando-os gentilmente de encontro ao peito de Connor. Enfaixou bem apertado os ferimentos e rezou para que o alho espantasse os demônios da febre.
Por fim, escutou o som de cavalos se aproximando e respirou aliviada. Acenou para Riordan e ele desmontou. Um homem forte, acostumado a trabalhar nos campos, Riordan era um palmo mais alto do que a maioria dos homens. Seu rosto era vermelho e ele era facilmente reconhecido pela vibrante cabeleira rubra.
Pela expressão de prazer evidente no rosto, ele estava satisfeito por ela o ter chamado. Vivia encontrando desculpas para ficar perto dela agora que enviuvara. E era o único homem em quem podia confiar para ajudá-la.
— O homem está vivo? — gritou ele.
— Por muito pouco. Precisarei de sua ajuda para levá-lo à cabana das enfermidades.
Ela apoiou o corpo de Connor, erguendo-o até que estivesse sentado. Apesar dos movimentos bruscos, ele não deu nenhum sinal de vida.
Quando Riordan viu o rosto de Connor, sua solidariedade se transformou em raiva e ciúme.
— Connor MacEgan! — Sua voz estava recheada de amargura.
— Deveria deixar esse canalha aí mesmo.
— Sou curandeira — protestou Aileen. — Se o próprio diabo precisasse de ajuda, eu a concederia.
Connor podia muito bem ser o diabo, pensou. Com ele, ela era incapaz de se desligar para o mundo de calma onde nada além da cura existia. A mera presença dele a enervava.
Riordan resmungou, mas a ajudou a erguer Connor até o cavalo. Seu corpo ficou imóvel, dependurado no pescoço do animal. Ao guiarem o cavalo de volta para a propriedade dela, Aileen se viu querendo chegar logo lá.
— O que será que o trouxe de volta para cá? — perguntou Riordan.
— Pensei que houvesse retomado à própria família.
— Caso ele sobreviva, pode lhe perguntar diretamente. Uma expressão sombria passou pelo rosto dele.
— Só o estou ajudando por sua causa, Aileen. Nada tenho a falar com ele.
Ele escondeu a própria irritação ao puxar com maior insistência o cavalo.
— Devemos nos apressar. Ele precisa viver.
— Por quê? Porque ainda sente alguma coisa por ele?
— Porque se ele morrer, apenas provará que sou amaldiçoada. Não posso perder outra pessoa. Se ele viver, talvez Seamus me deixe curar novamente.
— Ninguém sabe que você o encontrou — argumentou Riordan.
— Lorcan foi o primeiro a encontrá-lo. Até o cair da noite, todo mundo estará sabendo. — Ela não tinha nenhuma dúvida quanto a isso. — Você o mandou voltar para casa?
— Mandei.
— Ótimo.
O medo despertou em seu intimo, paralisando-a com o receio de que Connor jamais acordaria, Ele não se mexera uma única vez durante todo o percurso de volta à propriedade dela.
— Ainda não estou gostando disso. Deveríamos levá-lo para Seamus.
Aileen não estava disposta a abrir mão desta oportunidade, não por causa dos ciúmes de um homem. Ela pousou a mão sobre o ombro dele.
— Fique tranqüilo, Riordan. Assim que estiver curado, ele vai embora.
Seu toque provocou um brilho de interesse nos olhos dele, e Aileen se arrependeu do gesto impulsivo.
Ele apertou-lhe a mão, e a ternura voltou a se espalhar por seu rosto. Aileen mais uma vez pensou que um marido estável e bom como Riordan era uma escolha sensata. Ela há muito abandonara os sonhos de belos guerreiros. Homens como Connor MacEgan simplesmente não a notavam.
Em poucos instantes, alcançaram o pequeno pedaço de terra que ela chamava de seu. Ao passar pelos canteiros de plantas, Aileen considerou raízes de íris ou flores de tagetes, para o caso dos ferimentos de Connor piorarem. Em silêncio, fez uma prece de cura ao Deus dos cristãos e aos deuses de seus antepassados.
— Traga-o para o interior da cabana das enfermidades — ordenou. A construção de pedra, erguida a poucos metros de sua própria choupana, havia sido projetada para tratar os feridos e doentes de sua tribo.
Nas últimas duas luas, sequer uma única pessoa havia confiado o suficiente nela para utilizá-la. Aileen a mantivera meticulosamente limpa, esperando que um dia os aldeões pudessem precisar dela. No seu íntimo, receava que o chefe da aldeia pudesse forçá-la a se mudar quando outra curandeira lhe tomasse o lugar. Seamus não a havia perdoado.
Sentiu-se tomada de amargura. Homens haviam morrido por terem sido orgulhosos demais, supersticiosos demais para buscarem sua ajuda.
Ela abriu a porta e se abaixou para passar sob o feixe de lã tingida que estava pendurado para espantar os espíritos malignos. No interior da choupana, a temperatura era agradável e ela cheirava a terra molhada. Riordan colocou o corpo flácido de Connor sobre um dos catres cobertos de palha macia. Embora o estado apático sugerisse ferimentos piores, ela se apegava às esperanças.
— Precisa que acenda o fogo? — ofereceu Riordan.
Aileen hesitou. Embora soubesse que ele queria ajudar, preferia trabalhar sozinha.
— Eu o acenderei.
— Não é trabalho algum.
Ele começou a reunir lenha para trazer para dentro da cabana, mas Aileen se colocou no seu caminho. Não queria que o cheiro nauseante da fumaça interferisse com o processo de cura.
— Obrigada, Riordan. Eu ficarei bem sozinha.
— Não quero que fique sozinha com ele. Ele não é de confiança. Ela reprimiu um suspiro.
— Ele está inconsciente, Riordan. Duvido que o homem consiga levantar a cabeça, mesmo que queira.
Sua lógica pareceu tranqüilizá-lo, e ele baixou o feixe de lenha.
— Devo retomar esta noite?
A esperança brilhou em seus olhos.
— Talvez uma outra hora. Os ombros dele caíram.
— Devíamos mandar um mensageiro para a família de MacEgan. Ficarei feliz em me encarregar disso.
Ela o fitou com desconfiança.
— Está tão ansioso assim para ajudá-lo?
Com um olhar na direção da cabana das enfermidades, Riordan cruzou os braços.
— Qualquer coisa que o mande para longe daqui me dará prazer.
— Nada tem a temer dele.
— Voltarei amanhã de manhã, para o caso de precisar de minha ajuda de novo.
Ela esforçou-se para sorrir. — Ficarei bem, obrigada.
Quando ele foi embora, respirou aliviada. Embora apenas quisesse oferecer sua ajuda, a presença de Riordan interferia com a sua concentração.
Ela trabalhou rapidamente, despejando o feixe de lenha na lareira externa. Em poucos instantes, acendeu o fogo e moveu pesadas pedras do rio em direção às chamas, para aquecê-las. Ela colocou uma panela de água para ferver sobre o fogo.
Depois, entrou na cabana das enfermidades e sentou-se ao lado de Connor. Por um breve instante, os olhos dele se entreabriram. Aileen ficou paralisada, sem saber o que ele iria pensar de seu entorno, mas, na luz fraca, ele não deu nenhum sinal de reconhecimento. Era como se não pudesse enxergá-la.
Aileen reprimiu a sensação de desapontamento quando os olhos do homem se fecharam mais uma vez. Ela ajeitou a posição dele para deixá-lo mais confortável. As mãos haviam inchado até quase o dobro de seu tamanho original, a pele toda esticada devido ao sangue. Se estivessem no inverno, ela poderia usar a neve para diminuir o inchaço. Em vez disso, encheu duas tigelas de madeira de água fria e colocou as duas mãos de molho dentro delas.
Correndo lá para fora, voltou à própria choupana em busca de talas. Juntou pedaços limpos de tecido e madeira, mas, na pressa, deixou tudo cair no chão. Foi então que notou os dedos trêmulos. Precisava acalmar o coração em disparada e se concentrar nos remédios.
Pare de se portar como uma jovem tola, alertou o coração. Ele provavelmente não se lembra de você.
Ela colocou os tecidos e as talas em uma dobra do brat de lã, usando o xale para carregá-los.
Detendo-se na lareira, encheu uma vasilha com a água quente da panela. As pedras do rio. Quase se esquecera. Deixou os tecidos e as talas na entrada da choupana e pousou a vasilha de água quente perto de suas ervas. Por fim, retomou até a lareira e usou uma haste de ferro para rolar as pedras aquecidas para aquecer o interior da cabana das enfermidades.
Connor não havia recuperado a consciência. Aileen inspirou profundamente e recuperou a compostura. Ajoelhou-se ao lado dele e, com a faca, retirou o que restava da túnica empapada de sangue do guerreiro. Ele sequer se moveu. Vozes de dúvida começaram a minar sua autoconfiança. E se ele já houvesse ultrapassado a barreira sem volta entre a vida e a morte?
Pare de se preocupar com o que não pode fazer e preocupe-se com o que pode.
Ela buscou na memória os conselhos que a curandeira idosa Kyna lhe dera. Raízes de lírio ou folhas de malva para o caso do inchaço piorar. Seriam o suficiente? Connor era o filho do chefe de sua tribo, amado pela família. Se o salvasse, talvez ajudasse a superar a animosidade.
Aileen retirou a bandagem de linho e os dentes de alho. Depois, limpou o sangue do rosto de Connor, mergulhando o pano na água fria. Pronunciou em voz alta o cântico de cura com o intuito de tranqüilizar as emoções em turbilhão.
Ela voltou a lavar os ferimentos no peito, observando quais cortes necessitariam de pontos. Quando seus dedos passaram sobre o tronco, lembranças indesejáveis se manifestaram.
O gosto proibido do beijo dele outrora lhe preenchera os sonhos; O corpo poderoso de Connor a abraçara em uma noite iluminada pela lua, músculos fortes pressionando sua carne disposta. Um arrepio percorreu seu corpo e Aileen reprimiu a esquecida sensação de desejo. Ela ficou de pé, forçando a concentração a voltar para os ferimentos do guerreiro.
Ao afastar-se de Connor, ela passou por feixes de ervas que secavam dependuradas do teto. A fragrância forte ajudou a clarear seus pensamentos. Ela se deteve diante de uma pequena mesa onde guardava seus medicamentos, selecionando confrei para os ferimentos dele. Usando um cálice e um pilão, amassou a raiz até transformá-la em uma pasta úmida. Depois, despejou água quente.
Ela sentou-se ao lado de Connor, deixando o cálice ao seu alcance. Passando linha por uma agulha de osso, começou a dar os pontos na têmpora dele. Pelo tom de cera da pele e pelo modo como ele não reagia às perfurações, ela começou a achar que talvez fosse mesmo morrer.
Uma pontada de arrependimento atingiu seu coração. Havia tentado odiá-lo, tentado eliminar os sentimentos que já tivera. Contudo, por mais que quisesse esquecer o passado, parte dele sempre permaneceria.
Enquanto dava os pontos para fechar as feridas. Aileen juntava a pele perfurada de seu peito. Embora já houvesse dado pontos em inúmeras feridas, curando até talhos muito piores, era como se a agulha estivesse lhe perfurando a própria pele.
Por que não conseguia se desligar emocionalmente desta tarefa? Por que vê-lo lutando para sobreviver a enchia de medo? Pensava há muito já ter deixado tais pensamentos para trás.
Ela despejou a raiz de confrei aquecida sobre o peito dele e o enfaixou novamente. Agora, era chegada a hora de voltar sua atenção para outra coisa: os ossos quebrados. O ângulo irregular do osso e os hematomas roxos sobre a mão direita revelavam um pulso quebrado. A mão esquerda tinha os dedos Inchados com as articulações em carne viva.
Estranho, estes ferimentos não eram de batalha. Alguém deliberadamente havia tentado lhe esmagar os ossos. Voltou a pensar em tortura. Seu estômago se contorceu e dúvidas lhe invadiram a mente.
Será que tinha o talento para curar ferimentos tão complicados? Ou pior, será que tinha a coragem para amputar-lhe as mãos, caso isso fosse necessário para salvar sua vida? Caso a pele dele ficasse verde ou enegrecesse, não teria alternativa. Seu coração titubeou e sentiu-se nauseada só de pensar em causar este tipo de sofrimento. Ela fez outra oração contra os demônios da doença.
— Mamãe, está tudo bem?
Sua filha Rhiannon entrou, e Aileen se interrompeu diante da presença dela. Com tudo que havia acontecido, não se lembrara dela. Sua filha, embora estudando fora, constantemente a visitava para aprender a arte da cura.
Aileen olhou na direção de Connor e viu que ele não havia recobrado a consciência. Colocando o braço ao redor de Rhiannon, conduziu a filha para fora da choupana.
— Tudo bem.
A confusão se estampou no rosto de Rhiannon.
— Quer minha ajuda? Aquele homem...
— Hoje não. — Aileen esforçou-se para manter a voz calma. — Mas pode rezar por ele.
— Será que orações o curarão?
Com uma expressão preocupada, Rhiannon torcia a sua trança de cabelos castanho-escuros.
— Mal não fará.
— Deixe-me ajudá-la — implorou a filha.
— Não. — A palavra foi dita com maior rispidez do que ela pretendia. Aileen forçou-se a sorrir. — Ele ficará bom muito em breve. Não é tão ruim quanto parece.
A mentira só fez aumentar a sensação de culpa.
— Você é uma boa curandeira, mamãe. Independente do que possam dizer — afirmou Rhiannon. Com os olhos brilhando, ela acrescentou: — Quero ser como você.
A pele de Aileen incendiou-se de constrangimento.
— Espero que se tome melhor curandeira do que eu.
Sentia-se grata por ter tal vínculo com a filha. A maioria das crianças tomava-se mais próxima dos pais de criação do que do próprio sangue. As visitas constantes de Rhiannon simbolizavam tal vínculo, e a cada ano que passava Aileen amava ainda mais a filha.
— Estão trazendo uma nova curandeira — afirmou Rhiannon, franzindo a testa. — Escutei Tomás falando disso.
— Quando ela chega?
— Em uma semana. — Rhiannon segurou a mão da mãe. — Mas ela não pode ser tão boa quanto você. O que aconteceu não foi culpa sua. Eles...
— Não importa — interrompeu Aileen. — Seus pais de criação devem estar esperando você. Deve ir agora.
— Eu a verei amanhã de manhã?
— Não até que este homem tenha ido embora.
— Mas por quê? Já ajudei com ferimentos de batalha antes.
— Não discuta. Quando ele houver retomado ao seu povo, você poderá voltar. — Aileen abraçou a filha. Acariciou o cabelo castanho-escuro de Rhiannon, murmurando: — Eu a verei depois disso.
Rhiannon a abraçou forte.
— Virei vê-la muito em breve, mamãe.
— Amo você, a iníon. Seja boazinha. Ela encostou o nariz no de Rhiannon.
— Eu serei.
Aileen aguardou até que a filha houvesse alcançado o topo da colina antes de voltar para Connor, Graças aos deuses, Rhiannon não fizera mais perguntas.
No interior da cabana, Connor estava imóvel. Ela lhe segurou a mão direita e ele se retraiu. Foi a primeira reação física que pudera notar nele. Ótimo. Quem sabe, no final das contas, ele não pudesse, de fato, sobreviver? Parecia que alguém havia esmagado seus dedos com um malho. O mesmo tratamento havia sido utilizado no pulso direito.
Que ferimentos incomuns. Se o inimigo o queria morto, uma simples flecha ou punha! através do coração teria sido o suficiente. Isso parecia castigo. Connor não trazia nenhuma arma, o que sugeria que havia sido feito prisioneiro. Eles o haviam abandonado em meio a uma campina e, não fosse a intervenção de Lorcan, Connor ainda poderia estar lá.
Ela precisava reduzir corretamente os ossos. Ao examinar seu suprimento de talas de madeira, em busca de uma do tamanho e formato corretos, seus pensamentos se voltaram para Rhiannon. Foi tomada de amor diante da imagem mental da doce filha. Não poderia imaginar sua vida sem ela.
Ninguém poderia tirar Rhiannon dela. Especialmente Connor MacEgan, o homem que era o pai dela.
As mãos dele estavam em chamas. Dor como jamais sentira tomava conta de seu corpo. Connor se sobressaltou, seus músculos se rebelando diante da agonia selvagem.
— Fique quieto. Tenho de reduzir os ossos. Connor era tão incapaz de deter seus movimentos quanto de conter o rugido que escapou de seus lábios. A mulher moveu outro de seus ossos, e ele rezou para que a escuridão voltasse a tragá-lo.
Os cuidados dela tomavam isso impossível. Em vez disso, focalizou a mente no que havia ocorrido, com imagens passageiras dos homens de Flynn O’Bannion segurando-o. Ele lutou contra eles quando as facas lhe cortaram a carne. A dor sequer se comparava ao que viria em seguida. Seus antigos amigos o seguraram no chão enquanto o chefe erguia um malho de pedra.
Dor excruciante percorreu sua mão e seu pulso com. o impacto esmagador. Um grito escapou de sua garganta quando atingiram a outra mão. Graças aos céus, perdeu a consciência em seguida.
Mas o tormento da curandeira superava em muito o de seu inimigo. Não se recordava de como havia escapado, mas as palavras de despedida de O´Bannion estavam gravadas em sua mente: "Agora, jamais tocará novamente em outra mulher."
A curandeira colocou outro osso no lugar e ele gemeu de dor.
— Ai, cuidado.
— Estou quase acabando.
— Graças a Deus.
— Depois, começarei a trabalhar na outra mão.
A outra mão? Bom Jesus, a mulher havia sido enviada pelos sibh dubh para atormentá-lo. Espíritos das trevas tinham mais misericórdia do que ela. Jamais conhecera tamanha tortura como a agonia excruciante nas mãos. Ele manteve os olhos fechados, tentando bloquear a dor.
— Onde estou? — perguntou, respirando bem devagar para evitar a dor lancinante nas costelas.
— Não se lembra? Você estudou aqui em Banslieve. Com a tribo O’Duinne.
Ele não havia visitado as terras da família de criação desde que era um jovem de 17 anos de idade. Tinha boas lembranças de Banslieve.
Connor observou a mulher que cuidava de seus ferimentos. Seu cabelo trançado lembrava o castanho-escuro de madeira lustrada, seu olhos eram de um cinza-esverdeado suave.
— Seu nome é Aileen? — perguntou.
Quando ela assentiu, ele se perguntou se seria a mesma jovem que raramente falava e que se escondia nas sombras.
— Eu me lembro de você.
Ela o fitou e, por um instante, ele pensou ter visto acusação no olhar dela. O brilho de raiva desapareceu e a calma voltou a assumir.
— Foi há muito tempo.
— Onde está Kyna?
Ao mencionar a antiga curandeira, ele notou a expressão de tristeza no olhar de Aileen.
— Ela morreu no inverno passado. Agora, eu sou a curandeira.
— Tem outra curandeira na aldeia?
Não confiava em Aileen. Ela era jovem demais para conhecer as técnicas de cura de Kyna.
— Não. — Com os lábios, fez um biquinho de orgulho e de raiva. — Sou a única.
Ele não se importava se a havia ofendido. Se ossos não fossem corretamente reduzidos, podia acabar perdendo o uso das mãos. Sua vida era ser um guerreiro. Ele fechou os olhos diante da dor lancinante que latejava em suas mãos.
Flynn O’Bannion havia escolhido a punição de Connor, acreditando em falsas testemunhas. E tudo por um crime que não havia cometido. A fúria se incendiou no seu interior, acompanhada da dor da traição. Flynn outrora havia sido seu amigo, assim como um tutor no manejo da espada.
— É muito ruim?
— O que é muito ruim?
— Minhas mãos. Vou recuperar o uso delas?
Precisava saber se perderia as mãos. Subitamente, um arrepio de medo percorreu seu corpo.
— Não sei.
Ele ficou imóvel. Durante toda a vida havia sido um guerreiro. Havia lutado em batalhas com os normandos, contra tribos inimigas, até a espada haver se tomado uma extensão natural de seu próprio ser.
— E quanto a minha espada? Poderei lutar novamente?
Ele tentou se sentar no catre, mas a mão gentil de Aileen o empurrou de volta para o leito.
— Mais uma vez, não sei. Mas tem a sua vida, e deveria se sentir grato por isso.
Diante da resposta, sentiu o toque congelante da mão do destino. A única vida que podia imaginar era aquela de um soldado.
— Agora durma — sussurrou Aileen, levando uma poção aos lábios dele.
Ele bebeu o líquido amargo, sentindo-se como se fosse feito de pedra. Pois, se não fosse mais capaz de manejar uma espada, podia se considerar morto.




Capítulo Dois



O Festival de Bealtaine. Sete anos antes, 1168
Aileen O’Duinne escovou o comprido cabelo castanho, trançando-o com as fitas azuis que seu pai lhe dera. Estava usando o seu melhor vestido, uma alegre vestimenta da cor do céu, com uma léine cor de creme por baixo. Sentia-se muito mais velha do que era aos 16 anos de idade. Esta era a noite do Festival de Bealtaine, um antigo ritual celebrando a vida, necessário para se preservar a própria boa sorte. Ela sorriu de modo sonhador, os pensamentos focalizados nas possibilidades de encontrar o amor.
A mão de alguém puxou sua trança e ela gritou. Seu irmão mais velho, Cillian sorriu. Com cabelo castanho-escuro e olhos verdes sorridentes, Cillian era, ao mesmo tempo, seu irmão favorito e a praga de sua existência.
— Está planejando encontrar um homem hoje à noite, não está?
— É claro que não — mentiu ela, sentindo o rosto corar. — De qualquer forma, eles mal me notam.
O irmão sacudiu a cabeça, maliciosamente.
— Eles a notam mais do que pensa, Aileen.
— Deve estar me confundindo com outra irmã.
— Você é minha única irmã — ele contra-argumentou. — E, se eles não puderem enxergar o tesouro que você é, terei de lhes dar uma boa surra.


O elogio arrancou-lhe um sorriso.
— Lavei o meu rosto no orvalho três vezes esta manhã — disse ela. — Acho que ainda não está funcionando.
Diziam que beleza viria para aqueles que lavassem o rosto no orvalho na manhã de Bealtaine. Ela ainda tinha esperanças de que os efeitos pudessem acontecer mais tarde naquela noite.
Bealtaine era a noite em que muitas damas encontravam o amor nos braços de belos pretendentes. Na última noite do solstício de verão recebera seu primeiro beijo. Não fora à altura de suas expectativas, tendo sido um emaranhado de línguas e lábios úmidos. Ela estremeceu diante da lembrança, mas não culpava o rapaz. Ele também não havia tido muita experiência.
— Sei o que está pensando, Aileen O’Duinne. Está esperando que Connor MacEgan prometa se casar com você.
Cillian começou a beijar o ar e Aileen lhe deu um tapa.
— Pare de me provocar — avisou ela. — Não deveria estar juntando lenha para as fogueiras de Bel?
Ela sabia que o pai e o outro irmão, Braden, estavam ocupados reunindo o gado. Depois que passassem com a manada pelas fogueiras de Bel, sua boa sorte estaria garantida.
— Isso foi há muitas horas — respondeu Cillian com um sorriso malicioso. — E vou encontrar uma bela cailín para arrancar as farpas para mim.
— Vai precisar de muita sorte para que isso aconteça.
— Você também — respondeu ele. — Tenho notícias tristes para lhe dar. — Ele fingiu soluçar, como se seu coração estivesse se partindo. — Connor foi escolhido para o papei de Belenus. Parece que ele não será o seu amante no final das contas. Lianna será Danu.
Não era difícil imaginar Connor como o deus do sol. Mas Aileen perdeu um pouco do bom humor. Isso significava que Connor seria o consorte de Lianna naquela noite. Eles consagrariam o Casamento Sagrado e se tomariam amantes.
Ela estremeceu só de pensar nisso. Por que ela não podia ter sido escolhida? Pôs de lado o pensamento no instante em que ele apareceu cm sua cabeça. Seu rosto comum e a massa de rebeldes cabelos castanhos a tomavam menos do que um pardal diante da beleza de cisne de Lianna. Mais de uma vez, jovens haviam ignorado Aileen, suas atenções totalmente voltadas para Lianna.
— Anime-se, irmã — disse Cillian. — Eu poderia segurar Connor para você, de modo que pudesse lhe roubar um beijo. Não acho que ele resistiria muito.
Ela levou os punhos à cintura.
— Se disser uma palavra que seja para ele, eu...
Ele riu e deixou a cabana. Aileen teve vontade de gemer. Cillian sabia que ela secretamente sonhava com Connor. Mas, se dava valor à própria vida, ele não contaria isso a ninguém.
Ela ergueu a brat, enrolando a manta de lã ao redor dos ombros. No vão da porta, uma brisa suave soprava pelas colinas, aliviando os sentimentos feridos. Hoje à noite, queria se desfazer de sua juventude, dar as mãos e se prometer a um dos homens da tribo.
Nesta noite, amantes se retiravam juntos, celebrando as fogueiras do seu próprio jeito. Qualquer coisa podia acontecer, em especial magia. E seria necessária muita magia para fazer com que Connor MacEgan a notasse.
A boca de Aileen ficou seca só de pensar nele. Embora apenas um ano mais velho do que ela, ele havia treinado para ser um guerreiro durante a maior parte de sua vida. Movia-se com confiança e poder, um homem prestes a se tomar uma lenda.
Seu cabelo era da cor de ouro polido, e era tão alto que ela tinha de se inclinar para trás para fitá-lo. Seus olhos acinzentados podiam encarar os de qualquer mulher e fazê-la se sentir linda. Nos campos, ela o vira cavalgar, suas coxas poderosas segurando-se ao cavalo com total controle. Ficou arrepiada só de se lembrar dele.
Será que era tão errado assim desejar poder se deitar nos braços de Connor naquela noite, aprendendo as peculiaridades dos homens e das mulheres?
Mas, por outro lado, tais pensamentos eram tolices. Era melhor colocá-los de lado e torcer para que pudesse encontrar alguém que visse nela uma noiva adequada.
— Aileen! Venha me ajudar — chamou a mãe. — Preciso preparar todas as cestas para o festival.
Aileen enrolou pedaços de pão com linho, separando um pedaço para colocar sobre o vão da porta, para as fadas. Haviam tomado o cuidado de não usar facas de aço quando preparando a comida, pois o aço era letal para as criaturas místicas. Esta noite o véu que separava o nosso mundo e o mundo místico seria levantado. As oferendas garantiriam sorte.
— Está pronta? — perguntou a mãe.
Aileen assentiu, mais uma vez pegando sua cesta. Lá fora, uma pequena montanha de madeira repousava sobre cada uma das duas colinas, em preparação para as fogueiras ao ar livre. Todas as lareiras haviam sido apagadas no dia anterior, pois seriam reacendidas com o fogo das fogueiras de Bel.
A luz do final da tarde começou a desaparecer, o sol se pondo em um oceano de cores escarlates e roxas. Logo, acenderiam a madeira sagrada.
Seu pai e seus irmãos estavam entre o restante da tribo com sua manada, aguardando para passar com ela por entre as fogueiras.
Aileen se misturou à multidão na companhia da mãe. Ao passarem pelas cabanas, viu ramos floridos de espinheiros pendurados em algumas das casas. Sentiu um aperto no coração, pois nenhum pretendente havia lhe trazido nenhuma flor.
— Agora, lembre-se — alertou a mãe. — Se algum jovem tentar forçá-la...
Seus olhos verdes se encheram de preocupação e rugas sulcaram os cantos da boca. Ela parecia dividida por uma decisão invisível.  Aileen abraçou carinhosamente a mãe. — Eu lhe direi não.
 Entendia os receios da mãe, embora não houvesse motivo para eles.
— A escolha é sua se quer arrumar um amante e honrar a deusa Danu esta noite, minha filha. Mas se não quiser, não precisa. Ainda é muito jovem.
Embora a mãe honrasse os deuses de seus antepassados, ela não parecia nada disposta a ver a filha se tornar uma mulher no mais verdadeiro sentido da palavra.
— Ficarei bem, mãe.
E ficaria mesmo. Ela se empertigou e sorriu alegremente.
Ao redor dela, o som do gado se misturava às vozes da multidão. O ar estava perfumado pelas flores e, mais adiante, avistou Lianna e Connor. Ambos estavam vestidos de verde e uma coroa de espinheiro e prímula adornava os cabelos de Lianna. Connor usava uma grinalda feita das mesmas flores.
Aileen aproximou-se, desejando do fundo do coração poder tomar o lugar de Lianna. Ela virou-se para se juntar ao circulo das jovens e esbarrou em um homem. Eachan a segurou antes que pudesse cair, ajudando-a a recuperar o equilíbrio.
— Pronto. Não é todo dia que uma bela cailín cai aos meus pés. Seus lábios se repuxaram em um sorriso, as rugas ao redor dos olhos demonstrando humor. Quase da idade do pai dela, Eachan sempre havia sido gentil.
— Eu sinto muito.
O rosto de Aileen ficou vermelho, e ela tentou passar despercebida.
— Não precisa. E posso dizer que você está mais adorável do que a Rainha de Maio esta noite?
Aileen reconheceu a intenção nos olhos dele e decidiu deixar Eachan saber o que ela pensava.
— Está mentindo ao dizer isso.
— Eu não minto. Todo mundo pode ver que Lianna possui lã no lugar do cérebro. Você é muito mais bonita do que ela.
Aileen decidiu que Eachan havia bebido demais.
— Preciso ir.
Ela pediu licença e encontrou um lugar de onde podia ficar observando Connor e Lianna. Lianna riu quando o cotovelo de Connor lhe roçou o seio.
Aileen ficou paralisada, como se Connor houvesse lhe tocado em vez de na outra jovem. Sua pele reagiu ficando toda arrepiada, o mamilo se enrijecendo sob a lã do vestido.
— Maldito MacEgan — resmungou uma voz masculina ao lado dela. Aileen podia escutar o ciúme na voz de Tomás. Uma cabeça mais
baixo do que Connor, ele se ressentia por não ter sido escolhido como o consorte de Lianna.
— Ele não deveria estar aqui. Seu lugar é com a própria tribo.
Aileen achou melhor não argumentar que Connor vinha sendo criado pelos O’Duinnes desde bebê. Tomás queria que Lianna fosse sua noiva, c não fazia segredo disso.
— Se ele tocar nela, eu o matarei — Tomás ameaçou, baixinho.
— E trará má sorte para todos nós se fizer tamanha tolice — censurou Aileen. — Ele foi escolhido. Não há nada que possa fazer a respeito.
— Não permitirei que ele a tenha.
O tom sombrio da voz dele começou a deixá-la nervosa.
— Tá, permitirá. E, se parar de se portar como um menino mimado, ela virá procurá-lo mais tarde.
— O que pode saber a respeito disso, Aileen? Nenhum homem aqui quer como noiva uma moça tão sem atrativos como você.
Suas palavras machucaram, mas ela ergueu o queixo.
— Sei o suficiente para saber quando é um menino falando besteira e não um homem.
Ele a empurrou e Aileen piscou com força. Aparentemente, o orvalho de Bealtaine ainda não havia feito a sua magia no rosto dela.
Ela se juntou à dança, tentando não se sentir magoada quando os jovens sorriam ansiosamente para as outras moças. Ela daria uma excelente mulher para qualquer um deles. Afinal, a curandeira da aldeia, Kyna, não havia lhe ensinado a cuidar dos enfermos?
Foi então que se viu face a face com Connor. A mão dele se juntou à dela durante a dança, e ela se surpreendeu por uma descarga elétrica não ter resultado do toque. Tensão nervosa se acumulou dentro dela.
— Olá, Connor — guinchou ela.
  Abençoada Danu, o que havia acontecido com sua voz?
— Olá. — Sorrindo calorosamente, ele a girou. — Estava querendo lhe agradecer por ter cuidado de meu cão. Ulric parece estar pronto para outra.
— Fico feliz que ele esteja bem.
Tudo que ela fizera fora preparar uma mistura de menta para o cão depois que o animal havia exagerado em sua ingestão de sobras. Connor pegou sua mão direita e a apertou.
— Muito obrigado.
Naquele instante, Aileen decidiu que jamais lavaria novamente a mão direita. Eles trocaram de parceiros novamente, e ela foi poupada da oportunidade de se humilhar quando Eachan se juntou a ela.
— Gosta dele, não gosta?
— Não... Ele só... Eachan riu e segurou-lhe a mão.
— Um velho como eu não é páreo para o jovem Connor. Ainda assim, você é uma jovem sensata que vale a pena conhecer. Devo contar para ele e lhe dizer algumas palavras a seu favor?
 — Não!
Ela estava horrorizada com a ideia de Eachan recomendá-la para Connor como uma égua premiada.
Uma risada provocante ressoou da garganta dele quando a passou para o próximo parceiro.
— Pense bem nisso, jovem Aileen.
Ela corou. Embora poucos homens chegassem de visita das tribos vizinhas, nenhum lhe dava atenção. Ela ficou observando homens e mulheres formando pares, juntando as mãos, preparando-se para a fogueira.
Ficou sozinha, mais uma vez sentindo-se uma intrusa. Mesmo Eachan, apesar de todas as brincadeiras, a havia abandonado. Ela esfregou os braços, forçando um sorriso que não sentia.
Quando as fogueiras foram acesas, a multidão se reuniu para assistir, enquanto os homens passavam com o gado por dentro das duas enormes chamas. Contra o céu negro, as labaredas laranjas emitiam uma brilho enfeitiçante. Connor e Lianna circularam uma das fogueiras três vezes, depois correram e saltaram sobre a fogueira de Bel.
O coração de Aileen bateu mais rápido, como se fosse ela a saltar sobre as chamas ardentes. Connor tomou Lianna nos braços, inclinando-se para beijá-la. Aileen desviou o olhar, fingindo que não havia visto.
O vinho era livremente distribuído e, à medida que a celebração continuava, casais começavam a desaparecer na mata. Aileen ouviu os sons de amor sendo feito e, diante dos gritos abafados de satisfação, algo despertou em seu interior. Ela seguiu para a orla da clareira, postando-se próxima ao bosque. A escuridão tomava conta das árvores, sombras mantendo os amantes em segredo.
No estrado, Connor segurava a mão de Lianna, sussurrando para ela. Era chegada a hora de Lianna honrar a deusa, e se juntar a Connor na choupana reservada para esse propósito. Lianna sorriu, embora seu olhar repousasse sobre Tomás. O rosto do homem estava duro de ódio. Subitamente, Aileen receou que ele fosse fazer algo impensado.
Ao longe, Aileen observou Connor levar a palma da mão de Lianna aos lábios. Instantes mais tarde, a amiga seguiu para a choupana para se preparar. Enquanto Connor aturava as brincadeiras e provocações dos outros homens. Tomás seguia na direção da cabana.
Aileen não duvidava que ele fosse capaz de arruinar o ritual, independente das conseqüências. Em desespero, olhou ao redor até encontrar o irmão mais velho de Lianna, Riordan.
— Estou preocupada com sua irmã — disse. — Tomás está com ciúmes de Connor.
O profundo relaxamento no olhar de Riordan revelava o quanto ele havia bebido.
— Lianna pode cuidar de si mesma — respondeu ele. Seu olhar ficou ainda mais perdido. Ele estendeu a mão e deu um tapinha na cabeça dela. — Agora, pode ir.
Cambaleando, ele seguiu na direção de um grupo de mulheres.
Constrangida, Aileen afastou-se dele. Ela fugiu, forçando a passagem através de homens e mulheres. Sons familiares a cercaram. Crianças chorando no colo das mães, e os sons de sedução vindo do bosque pouco adiante. Antes que se desse conta do que estava acontecendo, se viu diante da choupana do ritual.
A expectativa fluiu por suas veias, arrepiando a pele sensibilizada. O que Lianna estaria sentindo naquele momento? Se estivesse no lugar da amiga, não conseguiria respirar, O simples pensamento de fazer amor com Connor MacEgan, sentir a potência de seu corpo rijo contra o dela, a deixava toda arrepiada.
As chamas tremulantes das fogueiras de Bel a atraíram para dentro da cabana, embora Aileen não soubesse dizer por quê.
— O que está fazendo aqui? — sussurrou Lianna. — Ele logo estará aqui.
— Eu sei. Eu... queria lhe desejar boa sorte.
— Não há nenhuma boa sorte. Tomás pode tentar matar Connor. Não sei o que fazer. Ele me avisou para não me deitar com ele.
— Tomás não pode interferir com o ritual. Ele não ousaria.
— Eu lhe jurei o meu amor — admitiu Lianna. — Ele acha que nenhum homem tem o direito de me tocar. Além do mais... — Seu rosto ficou vermelho. — Não sou mais virgem.
Os olhos de Aileen se arregalaram.
— Mas... o que você vai fazer?
Se Lianna não era mais virgem, não havia significado no ato.
— É bobagem pagã — zombou Lianna. — Apenas uma desculpa para um homem se deitar com uma mulher. Connor não notará e nem ligará.
— Como pode dizer isso? Nós não fomos abençoados com uma colheita farta na última estação?
Lianna deu um sorriso perturbado.
— Você acredita em tudo isso, não acredita?
— É claro que acredito. E você também deveria acreditar. Aileen encontrava-se profundamente abalada diante do receio de que a falsidade de Lianna lhes traria má sorte.
— Espere. — Os olhos de Lianna brilharam. — Você é virgem, não é?
— Sou.
Aileen começou a ficar com medo do súbito interesse da amiga.
— Ótimo.
Com um movimento rápido, Lianna apagou a tocha que iluminava o interior da cabana. Na escuridão, Aileen nada conseguia enxergar.
— Tome o meu lugar — implorou Lianna. — Desse modo, você garantirá uma boa colheita. Connor não notará a diferença, e posso apaziguar Tomás.
Antes que Aileen pudesse responder, Lianna a coroou com o espinheiro e as flores. Ela tirou as fitas, destrançando os cabelos de Aileen até que estes lhe caíssem por sobre o ombro.
— Não devíamos fazer isso — argumentou Aileen.
Ela jamais conseguiria enganar Connor de tal modo. E era errado. Ela não era a Rainha de Maio. Se alguém descobrisse, ela seria punida.
— Você o quer, não o quer?
— Isso não importa. Ele saberá, Lianna, e me culpará por isso. Insensivelmente, Lianna tirou as roupas de Aileen e despiu sua própria léine.
— Vou usar o seu vestido. Trocaremos mais tarde, antes que alguém note.
Aileen não protestou porque, no fundo, receava as conseqüências de violar o ritual. A mulher posando como a deusa precisava ser virgem. E ela sabia que realizar uma cerimônia pura era muito mais importante do que quem havia sido nomeada a Rainha de Maio.
Mas, ao escutar o som de vozes se aproximando, ela entrou em pânico.
— Lianna, não posso fazer isso!

A amiga já havia deixado a cabana. Nua, Aileen movia-se sob a colcha, seu coração batendo selvagemente. Connor descobriria a farsa e a envergonharia perante os outros. Medo e pânico a consumiam.
— Lianna? — gritou Connor para dentro da cabana. — Está aí? Agora era o momento para admitir a verdade, para ela se revelar.
 Uma mulher virtuosa jamais deveria recorrer a certos artifícios. Mas, de todos os homens em Bealtaine, ela desejava apenas um: Connor MacEgan. Sabia que nada aconteceria, não se ele soubesse a identidade dela. Mas o destino lhe concedera uma única chance,
Lianna já havia dado sua virgindade a Tomás. Ao tomar o lugar de Lianna, Aileen podia garantir uma colheita farta. Será que era algo tão errado assim desejar que seu povo tivesse sorte? Antes que pudesse perder a coragem, sussurrou:
— Estou aqui.
Ela o ouviu entrar, fechando a aba de couro atrás de si até que estivessem cercados pela escuridão. As peies macias lhe atormentavam a pele nua, sensuais e convidativas.
Aileen não podia acreditar em ter concordado com esta mentira. Mas agora era tarde demais para voltar atrás. Ouviu o leve ruído das roupas de Connor caindo ao chão, depois, sentiu seu peso quando ele se sentou sobre o catre.
— Sabe o que esperam de nós — disse ele.
Sua voz, um som grave e ressonante, parecia acariciá-la.
— Sei.
A mão dele se moveu até alcançar a coroa. Ele a retirou, passando os dedos pelos cabelos dela. Aileen estremeceu, e as mãos dele seguiram para os ombros desnudos.
— Você é linda — disse e, por um instante, ela acreditou nele. Ela estendeu a mão e juntou a palma desta com a dele.
Isso é errado, pensou. Mas esta noite não terei arrependimentos.
Se Lianna não queria fazer o papel da deusa, Aileen o faria.
Connor inclinou-se à frente, passando as mãos pelo cabelo de Aileen. Sua boca roçou a dela. Sua língua lhe provou os lábios, e o toque suave c gentil a incendiou. Os seios se intumesceram quando a boca do jovem cobriu a sua, provocando infinitas sensações de prazer.
Com as palmas das mãos, tocou os músculos firmes, a quente pele masculina. Seus beijos tinham o gosto de vinho e dos sonhos de uma menina. Ele afastou as peles, segurando-lhe os seios nas palmas das mãos.
Sentindo-se mais ousada, Aileen retribuiu o beijo, permitindo que a boca se movimentasse de encontro à dele. A língua de Connor invadiu-lhe a boca e ela gemeu, do mesmo modo que faria quando ele a invadisse, mais tarde. Um calor latejante começou a se acumular entre as suas pernas.
Todo o seu corpo se deleitava com o toque dele, e ela descartou a sensação de culpa. Haveria tempo para isso na manhã seguinte.
Por ora, por esta noite de Bealtaine, Connor MacEgan lhe pertencia. E ela pretendia aproveitar cada instante.
Enquanto dormia, Connor estendeu a mão na direção de Lianna, mas não a encontrou. Restava apenas um tênue calor sobre o catre de peles como evidência de sua presença. Ele levantou e se espreguiçou, fitando o lugar onde se unira a ela.
O ritual havia se tomado um sacramento, embora não acreditasse de todo na superstição. Deitar nos braços de Lianna havia realizado todos os sonhos adolescentes que já havia tido. Na sua mente, aquilo havia sido uma preliminar da noite de núpcias dos dois, Queria Lianna como sua esposa.
Já havia oferecido um dote respeitável por ela, mas o pai da moça recusara. Sentiu o orgulho ferido diante da lembrança. Com nada além de algumas cabeças de gado e ovelhas em seu nome, suas chances não pareciam boas.
Ainda pensando nela, Connor levantou-se e vestiu-se. Se Lianna concordasse em prometer se casar com ele, talvez pudessem superar as objeções do pai. Precisava encontrá-la e lhe perguntar.
Por um instante, fitou as peles vazias, desejando que ela não houvesse ido embora. Queria acordar com aquela pele macia de encontro à sua, cheirando a flagrância suave de ervas nos seus cabelos. O pensamento o fez desejar tê-la mais uma vez sob si.
Do lado de fora, sujando suas calças axadrezadas de lama enquanto caminhava, ele não se importava. Uma leveza parecia tomar conta de seu espírito, apesar da tempestade.
Um gemido feminino chamou sua atenção, o som vindo do bosque. Seus passos tomaram-se hesitantes, mas escutou o som de uma risada familiar. Depois a viu, nua da cintura para cima, abraçada a Tomás.
O punho negro do ciúme lhe atingiu a boca do estomago ao vê-los juntos. Há apenas algumas horas, Lianna havia se entregado a ele. E agora a Tomas.
Sentindo o sangue gelar nas veias, Connor deu um passo atrás. Como ela podia tê-lo traído daquela maneira? Sentia-se nauseado só de pensar em como ela havia desaparecido de sua cama para se atirar nos braços de outro homem. Será que ela realmente havia sido virgem? Ou será que isso também fora mentira? Pensara que ela era, mas talvez fosse inexperiente demais para poder notar.
Sem conseguir pensar claramente, seguiu adiante pela trilha lamacenta, preferindo não confrontá-los. Endireitando-se, começou a correr. Sem olhar, passava pelas pequenas propriedades com suas choupanas em forma de colméias.
— Connor! — ouviu uma voz feminina chamando-o. Ele virou-se e viu Aileen.
Usando um léine verde, seu cabelo estava solto, os cachos escuros indo até a cintura. Suas faces estavam ruborizadas quando estendeu a mão para cumprimentá-lo.
— Preciso lhe falar.
— Agora não, Aileen.
Mas ela se recusou a lhe dar ouvidos, seguindo-o. Connor apressou o passo, em uma tentativa de escapar.
— É importante. — Ela estendeu a mão, tocando-a no ombro dele. — Preciso lhe contar...
Ele não queria nenhuma mulher rondando-o, ainda mais depois que Lianna o havia enganado, fazendo-o acreditar que ela o desejava.
— Deixe-me em paz. O que quer que seja, pode esperar.
A mágoa estampou-se no rosto dela, mas ele não deu atenção.
— Por favor — sussurrou, seu olhar suplicante.
— Eu disse para me deixar em paz!
Ele se soltou bruscamente, e ela perdeu o equilíbrio, caindo na lama. Connor não tivera a intenção de ser tão bruto, mas seu orgulho ferido havia sofrido um sério golpe,
As mãos dela se afundaram na lama, seu vestido encharcado de lama c chuva. No mesmo instante, ele se arrependeu do que havia feito.
— Sinto muito.
Ela nada disse, mas ele estendeu a mão para ajudá-la a se levantar. Aileen a ignorou, e ficou de pé sozinha.
— O que queria me dizer?
A decepção no rosto da jovem havia se transformado em uma dura carapaça de mágoa.
— Nada.
Ela virou-se, e Connor desejou não ter sido tão brusco. Teria sido necessário apenas um instante para ouvir o que ela tinha a dizer. Sabia que Aileen gostava dele, mas não nutria a mesma afeição por ela. Se lhe dispensasse atenção, ela poderia acreditar ser mais do que realmente era.
Connor a observou voltar para casa, com os ombros caídos. Ele a fizera chorar, e isso o incomodava. Estava acostumado a fazer as mulheres sorrirem quando flertava com elas. Contudo, não tinha como apagar sua transgressão.
Continuou caminhando na direção oposta até alcançar a floresta densa. Altas aveleiras e sorveiras-bravas se entrelaçavam em certos lugares, uma crescendo tão perto da outra que ele tinha de se virar de lado para atravessar as barreiras naturais. A chuva forte ficava mais fraca devido às folhas, e ele buscou abrigo sob um carvalho.
Com o rosto nas mãos, seu coração doía, devido às fortes tiras de raiva que o envolviam. Havia sido um tolo ao acreditar em Lianna quando ela se deitara com ele. Um tolo em acreditar em seus sussurros baixinhos de que sempre havia sonhado estar com ele.
Este era o seu último verão com a família de criação. A tribo O’Duinne significava tanto para ele quanto o seu próprio sangue. Embora houvesse planejado aguardar até novembro, talvez fosse melhor partir agora. Não tinha nenhuma vontade de ver Lianna com Tomás e nem ver os olhares de pena nos rostos dos amigos.
Juntaria suas coisas e voltaria para casa. E não olharia para trás, para o passado.
Duas luas haviam chegado e passado desde a partida de Connor Aileen nada falara com os pais sobre a noite de Bealtaine. Embora lágrimas molhassem seu catre todas as noites, além do fardo da humilhação que carregava consigo, tinha outro motivo para chorar. Sua menstruação não viera. Não podia mais negar o fato de que carregava o filho de Connor dentro de si. Em vez de tal descoberta lhe trazer alegria, ela a fazia chorar ainda mais forte.
Jamais deveria ter tomado o lugar de Lianna. A amiga já se casara com Tomás e Aileen permanecia sozinha.
Naquela manhã, o dia nasceu claro e brilhante sobre o horizonte esmeralda. Ela caminhava pela floresta, chegando à clareira, com a mão sobre o abdômen. Uma parte de Connor crescia dentro dela, no entanto, não conseguia se esquecer da maneira como isso acontecera.
Ele acreditava ter se deitado com Lianna. E ela não havia contado a verdade. Não poderia suportar o desgosto no rosto dele, caso ele se desse conta de que havia sido ela.
O som de um cavalo trotando atrás de si chamou a atenção de Aileen. Ela viu Eachan desmontar e amarrar a égua a um arbusto próximo.
— Posso caminhar com você, Aileen? — perguntou ele.
Ela inclinou a cabeça, sem entender por que ele desejava a sua companhia.
— Pareço um velho para você? — perguntou ele, com um sorriso amigável. A pergunta a pegou de surpresa, mas a forçou a lhe fitar o rosto.
Embora a superfície enrugada de suas faces lhe anunciasse a idade, o cabelo de Eachan ainda não havia ficado grisalho. Ele sempre se portara com gentileza, e ela não podia se queixar da insistência com que ele lhe fazia a corte.
— Não — retrucou. — Não é tão velho assim.
Ele acompanhou o seu passo, e, juntos, caminharam entre os botões de flor de laranjeira que cobriam a colina.
— Sei que está sofrendo — disse ele, roçando a mão na sua. — Deveria ter contado a ele.
Aileen ficou imóvel.
— O que quer dizer? Contado para quem?
Eachan não podia saber a verdade sobre o que ela havia feito.
— Contado a Connor que está grávida do filho dele.
Suas mãos ergueram-se até as faces vermelhas. Será que era tão evidente assim? Será que todo mundo sabia seu segredo?
— Por que... O que o faz p-pensar...
— Eu a vi naquela noite. E fez a coisa certa se oferecendo para proteger a colheita. — Ele apontou na direção dos campos repletos de talos de trigo e milho verde. — Os deuses nos abençoaram por isso.
Ele tomou a mão dela.
— Não a culpo. Sei que gosta dele, e que não gosta de mim.
A gentileza do homem mais velho lhe tocou o coração, e lágrimas indesejadas brotaram de seus olhos.
— Não é bem assim. Você sempre foi bom para mim.
— Eu tomaria conta de você — ofereceu ele, apertando-lhe a mão. — De você e do bebê. Ninguém precisaria saber que não é meu.
As lágrimas começaram a ficar mais abundantes.
— Eachan, você não merece uma esposa como eu. Ele lhe ergueu a mão até os lábios.
— Gostaria de acreditar que poderemos ser amigos. E você precisa de um pai para o seu filho.
Ela sabia que havia ervas capazes de extinguir a vida de um bebê ainda na barriga, mas jamais consideraria tomá-las. A oferta de Eachan fez com que uma lágrima lhe descesse pela face. Ele a enxugou com o dedo.
— Será que me aceitaria como marido? Será que me deixaria tomar conta de você?
Ela sequer pensou em recusar. A gentileza de Eachan a envolvia como um xale de lã quente. Ela pousou a mão sobre a dele, mesmo sabendo que isso significava abandonar seus sonhos de se casar com um guerreiro como Connor.
Depois que o verão passou e a safra atingiu o ponto da colheita, Aileen tomou Eachan como seu marido. Mas, mesmo quando ela proferiu os votos que os uniriam, ele soube que seu coração pertencia a outro.
A medida que a criança crescia dentro dela e Eachan continuava a cortejá-la, Aileen fez o seu próprio voto. Silenciosamente jurou ser uma boa esposa para Eachan. Tiraria Connor de sua cabeça e aprenderia a amar o marido.



Capítulo Três



Banslieve, Irlanda 1175
Seus dias e noites passavam como uma tapeçaria desbotada de dor, impotência e raiva. Connor havia aprendido a desprezar o aroma forte do alho que Aileen colocava em suas feridas para evitar a febre. Mas mais do que isso, odiava sua inabilidade de controlar o próprio processo de cura.
Os cortes e hematomas se juntaram a uma legião de outras cicatrizes. A primitiva forma de justiça dos O’Bannion lhe despertava a fúria e a amargura. Seus amigos haviam se voltado contra ele, homens aos quais ele havia confiado a própria vida. Haviam obedecido cegamente aos comandos do chefe tribal, e era a traição deles que mais o incomodava. Que assim seja. Quando recuperasse as forças, eles se arrependeriam de sua decisão.
Caso recuperasse as forças, pensou melancolicamente.
As mãos haviam inchado até atingir três vezes o tamanho normal, a dor só aliviava quando Aileen lhe dava uma poção para dormir. — Os homens de O’Bannion — perguntou à moça certa noite, quando ela lhe estendeu uma caneca de madeira do líquido amargo.
— Viu alguém da tribo deles? — Não. Foram eles que fizeram isso com você? Ela inclinou a caneca na direção da boca de Connor, não lhe oferecendo nenhuma alternativa senão beber a poção. Ele sentia-se como um neonato, incapaz até de segurar uma caneca.
— Foram. Estava me perguntando se não teriam voltado à minha procura.
—- Se voltaram, eu não soube de nada. — Aileen afastou a caneca.
— Por que eles o atacaram?
— Fui castigado por um crime que não cometi.
— O que aconteceu?
Connor permaneceu em silêncio. Não queria reviver aqueles instantes, e nem compartilhar sua vergonha com uma mulher que mal conhecia.
— Não quero falar nisso. Mas, quando os encontrar, eles se arrependerão de seus atos.
— Deveria deixar que as cortes dos Brehons resolvessem a disputa
— sugeriu Aileen.
— As cortes exigiriam uma multa, nada mais. O chefe O’Bannion merece sofrer como eu sofri.
Connor esforçou-se para erguer-se do catre, mas Aileen o forçou a se deitar novamente.
— E ter sua vingança o tomará um homem melhor do que ele? As palavras calmas só fizeram alimentar a fúria. Aileen não fazia idéia do que ele tivera de suportar. Estendeu as mãos feridas.
— "Olho por olho, dente por dente", é toda a justiça de que preciso. Não estou interessado em ser o melhor homem.
— O que fará se não puder lutar novamente?
— Se reduziu corretamente os ossos, eu poderei.
Ela o fitou com os olhos cinza-esverdeados cheios de pena. Seu cabelo castanho-escuro, preso em uma trança, permitia que alguns fios permanecessem soltos. No rosto dela ele podia ler a dúvida, o que o destroçou por dentro, esmagando suas esperanças.
— Fiz tudo que podia por você. O resto é com Deus.
— Quanto tempo, Aileen?
Connor queria segurá-la pelos ombros, exigir as respostas que buscava. Mas as mãos inúteis nada podiam fazer. Seus músculos começavam a ficar pesados, à medida que a poção para dormir ia lhe enfraquecendo os sentidos.
— No mínimo, outro ciclo lunar. Talvez dois.
A fúria impotente diante da incapacidade de controlar o processo de cura do corpo fez com que tivesse vontade de descontar em algo.
Era um soldado, um homem acostumado a comandar outros. Ser vitima não fazia parte de sua natureza,
Ele conseguiu juntar toda a sua raiva e a colocar novamente sob controle.
— Preciso recuperar todas as minhas forças. Cuide para que isso aconteça.
— Não sou uma feiticeira. — Ela o fitou intensamente. — Posso apenas dar o máximo de mim.
— E se o seu máximo não for o suficiente? Ela ficou pálida, seus olhos o amaldiçoavam.
— Neste caso, sua própria curandeira pode ajudá-lo. Ela pode retirar as bandagens e lançar o feitiço que quiser.
Ele tocara no ponto fraco dela. Sob o tom cortês, Connor pode detectar a mágoa.
Inspirando fundo, disse:
— Não foi bem isso que eu quis dizer. Você fez muito por mim, e lhe sou muito grato.
Ela nada disse, mas pegou uma vassoura e começou a varrer o interior da cabana. Com movimentos precisos, varria a poeira para fora da casa. O ar fresco da noite invadiu a cabana.
Ele lutava contra o sono que ameaçava dominá-lo. Quando retornasse para casa, os irmãos compartilhariam de seu desejo de vingança. Mas não queria que os irmãos mais velhos tomassem para si o fardo de uma luta que era dele. Não estava interessado em uma guerra. Apenas em justiça.
Ferimentos como aqueles raramente saravam direito. E seus irmãos poderiam compartilhar da desagradável desconfiança de que ele não era mais o mesmo guerreiro de antes. Connor não queria ver arrependimento nos olhos dos irmãos.
Desde a época em que teve idade o suficiente para erguer uma espada de madeira, sabia que ia ser um guerreiro. Era o único caminho para ele. Como um dos filhos mais novos, sabia que não tinha direito a virtualmente nenhuma propriedade de família. Sua única chance de conseguir algo para si mesmo era lutar por isso.
Era o modo dos irlandeses, homens competindo para se tomarem um chefe tribal ou um rei escolhido pelo povo. Como não estava disposto a depor o próprio irmão, seu único caminho era ser um líder forte o bastante para comandar outra tribo.
Não queria que ninguém, em especial os irmãos, o visse em tal estado de impotência. Seu orgulho feria-se diante da idéia. Mas, para evitar tal situação, teria de ficar ali com a curandeira que insultara.
Com esforço, reabriu os olhos. Não sabia como se retratar das palavras rudes que proferira, mas tinha de fazer algo.
— Eu me lembro de você — disse por fim. — De quando éramos crianças.
— Nós nunca nos falamos — ela disse, amarrando feixes de ervas e pendurando-os para secar. — Não poderia se lembrar de mim.
Uma onda de dor se espalhou por suas mãos, mas ele a escondeu.
— Você costumava ter cachos castanhos rebeldes lhe cobrindo o rosto. — Com um sorriso forçado, acrescentou: — Costumava me observar quando achava que eu não estava olhando.
Ele pensou ter notado um ligeiro rubor nas faces dela, mas era difícil ter certeza.
— Eu nunca o observei.
Aileen reuniu vários talos de ervas secas, amassando-as em um pilão de pedra até que as plantas indefesas houvessem se transformado em pó.
Antes que outras plantas pudessem se tomar vitimas de sua ira, ele perguntou:
— O que houve com o seu marido? Soube que havia se casado. Ela acrescentou gordura derretida às ervas, misturando tudo até obter uma pasta espessa. Suas mãos se moviam em um gesto rítmico, antes que, por fim respondesse:
— Eachan morreu muitas luas atrás.
Connor não havia conhecido bem Eachan, mas ninguém jamais havia dito uma palavra contra o homem. O pesar estampou-se no rosto de Aileen, e ele se arrependeu das palavras de antes.
— Lamento saber disso.
Quando ela nada disse, ele acrescentou:
— Imagino que tenha filhos para confortá-la, não?
Ele fez o comentário em tom de indagação, pois não sabia com certeza.
— Tenho uma filha — disse ela. Após um instante de hesitação, acrescentou: — Ela está sendo criada com outra família.
Connor se forçou a se concentrar na conversa. Sua visão estava ficando turva e ele se esforçava para permanecer acordado.
— Tem algum filho?
— Perdi vários bebês — disse ela, o que o fez desejar não ter tocado no assunto.
Aileen ocupou-se guardando os bálsamos de ervas, e, depois, colocou uma panela sobre o fogo para ferver água.
— Quando meu marido, Eachan, estava vivo, muitas crianças ficaram sob nossa tutela — comentou. — Lorcan foi uma delas. — A decepção estampou-se em seu rosto. — Não me foi permitido ficar com ele, depois que Eachan morreu. — Ela salpicou algumas ervas em uma caneca de madeira, e a encheu com a água fervente para fazer chá. — É uma pena. Ele em muito me confortava.
Connor sabia como era isso. Seu irmão mais novo, Ewan, havia voltado para casa seis anos atrás, após o pai de criação ter sido morto em combate.
— Meus irmãos sabem que estou aqui? — perguntou Connor.
— Mandamos avisá-los. Mas a mensagem levará dias para chegar até eles, e levarão outros tantos para chegar até aqui.
Connor não queria desfilar pela região sobre uma maca.
— E se eu quisesse ficar?
— Pensei que não confiava na minha capacidade de curá-lo.
Ele hesitou, pois isso era verdade. No entanto, não via alternativa.
— Prefiro permanecer em Banslieve até ter recuperado as forças. Aileen virou-lhe as costas mais uma vez, ocupando-se com suas ervas. Ela gostaria de curá-lo, para provar ao seu povo que podia salvar a vida de Connor. Mas seria isso o suficiente? Eles apenas enxergariam o terrível estrago feito em suas mãos.
Ela sacudiu a cabeça, dissipando os pensamentos errantes. Salvar a vida dele não seria o suficiente. Para provar que era boa, teria de lhe restaurar toda a força anterior.
Dúvidas lhe minaram a confiança. Já havia tratado ossos quebrados antes, mas nada como isso. Seu coração a alertou de que, com quase toda certeza, falharia. Como poderia um homem como os ossos esmagados segurar novamente uma espada, quanto mais manejá-la?
— Aileen — murmurou ele. — Não quero que os outros me vejam deste jeito.
Os olhos de Connor estavam vidrados de exaustão. Ele ergueu as mãos suportadas por talas.
— Não terá escolha. Seamus exigirá que fique na casa dele.
Se não fosse por uma incursão inimiga, o chefe tribal já teria vindo vê-lo. A tribo dos Faelian havia roubado quase uma dúzia de cabeças de gado, e Seamus liderara seus homens para roubá-las de volta.
— E eu recusarei — disse ele, com firmeza. — Prefiro que meu pai de criação se lembre de mim como eu era.
— Fala como se estivesse morto. Seu rosto ficou sombrio.
— Talvez esteja mesmo.
Ele fechou os olhos, sem conseguir resistir mais à poção para dormir. Quando a respiração dele ficou mais tranquila, ela se aproximou. Ergueu a colcha que cobria o peito nu. As ataduras permaneciam secas; nenhum sangue vazava dos ferimentos.
Sua pele era quente e firme, um corpo treinado para enfrentar o inimigo. Ele precisava de suas habilidades. Ela podia compreender a necessidade de Connor de permanecer e reconstruir o que havia sido perdido.
Baixinho, murmurou um boa-noite e ficou de pé. Do lado de fora da pequena cabana, apoiou-se no batente de vime. Levou as mãos às faces, enchendo o pulmão com o ar fresco da noite.
O que havia de errado com ela? Era uma curandeira e ele era seu paciente. Era plenamente capaz de resguardar seus sentimentos. Ele jamais descobriria seu segredo.
Mas, naquele rosto bonito, ela viu o sorriso da filha.
— Você tem visitas — anunciou Aileen.
Ela desconfiava de que não seria capaz de impedir a entrada das mulheres sem o uso uma lança e um escudo. Nada frustraria as damas solteiras de ver Connor.
— Visitas?
— As filhas de Seamus.
Aileen fez uma careta. Embora as mulheres fossem suas amigas, ela sabia muito bem por que estavam ali — para convencer Connor a ir para a casa do chefe da tribo. Isso era coisa de Riona. Ela não pôde deixar de se perguntar por que a mãe de criação de Connor não viera pessoalmente. Pensando bem, Riona não fazia segredo de seu ódio por ela.
— O que elas querem?
— Vieram venerá-lo, suponho. Seus braços estão carregados de bolos, flores e presentes.
— É mesmo?
Um brilho de interesse apareceu nos olhos dele, e Connor subitamente a olhou com uma expressão que fez as pernas de Aileen bambearem. Ele lhe notou a reação, e a sua voz ficou mais grave.
— E também sou o objeto de sua veneração?
— Não — respondeu ela com veemência. — Sem dúvida alguma, não é.
O humor apareceu nos olhos dele. — É, suponho que não seja mesmo. Poderia sujar o vestido caso se ajoelhasse para me venerar. — Connor recostou-se no catre, acrescentando, maliciosamente; — Agora, se tirasse o vestido, isso não seria problema, seria?
— A única coisa que vou tirar é a sua cabeça, se continuar falando essas besteiras.
Escutaram violentas batidas na porta, seguidas por cumprimentos gritados por vozes femininas. Connor sentou-se no catre, enquanto Aileen foi atender.
No instante em que a porta da cabana das enfermidades se abriu, duas mulheres avançaram na direção dele com o par de abutres.
— Ah, Connor, já faz anos que não o vemos!
— O que houve com suas mãos? Elas estão doendo? Ambas eram bonitas, cheirando a flores primaveris frescas. Ele se encolheu, subitamente se dando conta de que as filhas de Seamus haviam embarcado em sua própria cruzada. Ele havia se tomado o alvo delas, um marido em potencial.
Connor fingiu gostar da atenção dispensada pelas jovens, mas na Verdade ficou observando Aileen ao fundo. Ela não era tão bonita quanto as outras, mas seu rosto lhe despertava o interesse.
Uma das mulheres lhe ofereceu uma empada de carne. Qual era mesmo o nome dela? Não conseguia se lembrar, visto que havia sido criada fora. A mulher de cabelos claros deslizou a ponta dos dedos pelos lábios dele quando lhe deu a comida na boca. O suculento pedaço de carneiro era muito mais saboroso do que o mingau que Aileen havia lhe servido naquela manhã.
Ele beijou-lhe a ponta dos dedos e ela riu. Aileen revirou os olhos em sinal de irritação. Interessante.
Ela se portava como uma esposa enciumada. Por que haveria de se importar? No entanto, Aileen parecia mais disposta a espantar as mulheres do recinto com uma clava do que permitir a visita.
Subitamente, o dia havia ficado mais interessante. Connor não dava a mínima para os flertes das mulheres; não que teria se aproveitado do interesse delas, mesmo que estivesse em condições de atuar na cama. Mas, a reação de Aileen o intrigava.
As mulheres estavam usando alegres vestidos vermelhos e verdes, enquanto o vestido e o léine de Aileen eram de um marrom prático. Ele já havia notado que ela raramente usava um vestido que chamasse atenção. Vestígios fracos de recordações o fizeram se lembrar da timidez de Aileen quando criança, esperando que alguém a notasse. Usava apenas marrom, cinza e as cores da classe agrária. Como curandeira, tinha o direito de usar cores mais alegres.
Nos cabelos, as mulheres usavam enfeites dourados. Braceletes adornavam seus braços, enquanto brincos compridos pendiam das orelhas. Com exceção de um anel simples no dedo, Aillen não usava nenhuma jóia que ele pudesse notar.
A única característica que a fazia sobressair era a sua linda pele clara. Nenhuma mancha ou ruga marcava a sua delicada tez pálida, que lhe realçava os olhos. Connor não podia dizer com precisão a cor deles. Às vezes cinza, às vezes verde, dependendo da incidência da luz. A trança complexa e austera mantinha os cabelos castanho-escuros presos. Ele imaginou a cabeleira espessa e comprida circundando os quadris.
Um sorriso surpreso apareceu em seus lábios ao imaginar Aileen compartilhando a cama com ele. A terra se transformaria em cinzas antes que algo assim acontecesse.
Uma das mulheres interpretou erroneamente o sorriso como um convite.
— Você já se casou, Connor? — perguntou.
Ele achava que o nome dela era Grainne, ou Glenna, mas não se lembrava ao certo.
— Ainda não, Glenna.
— Grania — corrigiu ela, com um largo sorriso. — Não encontrou nenhuma mulher de quem gostasse?
— Encontrei muitas — retrucou ele. — Não podia tomar todas minha esposa.
As mulheres riram, mas ele pôde notar o desgosto no rosto de Aileen.
Grania suspirou.
— Ah, Aileen, eu já ia me esquecendo. — Seu rosto tomou-se uma máscara de inocência. — Meu pai já está a caminho. Deve levar Connor para a nossa casa hoje à noite.
— Ele ainda não está bem o suficiente para andar — ela argumentou.
Connor franziu a testa, pois não havia nada de errado com suas pernas. Seu peito e a cabeça ainda doíam, mas já estavam melhorando.
— Avisem a Seamus que ainda não quero vê-lo. Visitarei a rath quando estiver curado, não antes.
Grania franziu a testa.
— Darei o recado. Mas ele quer falar com Aileen.
— Agora? — perguntou Aileen.
A ansiedade estava estampada em seu rosto e Connor não pôde deixar de se perguntar a razão. Seamus era um bom chefe tribal, um líder respeitado. Que motivo Aileen teria para temê-lo?
— É, agora — respondeu Grania com um ar de arrogância. Baixando os olhos, Aileen apressou-se cm deixar a choupana, para ir ao encontro do chefe tribal. A porta se fechou e Connor ficou se perguntando o que ela não havia lhe contado. Sem sucesso, tentou voltar sua atenção novamente para as filhas de Seamus. Queria saber o que Aileen havia feito.
— Por que Seamus quer falar com Aileen? — perguntou Connor.
— Ela está proibida de curar. — A fúria tomou conta do rosto de Grania. — Depois do que fez, ninguém mais quer que ela seja curandeira. Está amaldiçoada. É melhor ir embora daqui e permitir que a nova curandeira trate de você.
— Uma nova curandeira?
Connor ficou imóvel. Aileen nada dissera a respeito de uma nova curandeira. Uma desconfiança sombria se abateu sobre ele. Havia pensado que Aileen era a única curandeira em Banslieve. Mas ela havia mentido.
— Pode vir ficar conosco — ofereceu Sinead, levando um pouco de me! à boca de Connor. — Teríamos o maior prazer em cuidar de você.
Ele ignorou o convite.
— Por que Aileen está proibida de curar? — perguntou. Grania e Sinead se entreolharam.
— Nosso pai lhe contará tudo.
Um instante depois, ela mudou de assunto. O falatório incessante das mulheres fez com que a cabeça dele doesse e, embora tentasse manter o bom humor, Connor queria que elas fossem embora.
— As suas mãos doem muito? — perguntou Grania. Doíam, mas ele se recusava a admiti-lo.
— Estão ótimas.
Tinha tantas perguntas girando em sua cabeça, que mal conseguia se concentrar.
— Acho que gostaria de descansar novamente.
Elas murmuraram votos de solidariedade, e ele ficou feliz quando as mulheres foram embora. Após terem saído, Connor olhou as mãos envoltas em ataduras. O inchaço não havia diminuído, e a dor parecia ainda maior.
O pior era o crescente receio de que Aileen não havia consertado direito as mãos dele.
— Sabe que não deveria tratar de nenhum membro de minha tribo.
O tom de voz de Seamus era baixo, mas continha o poder de um chefe tribal. Um guerreiro alto e musculoso com longos cabelos grisalhos que lhe caiam sobre os ombros, ninguém ousava sugerir que Seamus estava velho demais para manejar uma espada. Ele não se trocara, vindo direto da incursão, e o suor escorria pelos flancos de sua montaria.
— Connor precisava de ajuda — argumentou Aileen. — Ele teria sangrado até a morte se eu não o houvesse ajudado.
— Deveria ter mandado buscar um de nós.
A severidade estampada no rosto de Seamus deixava bem clara a sua opinião sobre as habilidades de cura de Aileen. Ela apertou uma das mãos na outra.
— Seus ferimentos teriam infeccionado.
Ela não poderia ter ficado de lado, observando-o sofrer. Ele necessitava de ajuda imediata. Suas feridas precisavam de pontos e as fraturas das mãos tinham de ser reduzidas. Homens o suficiente já haviam morrido nas últimas luas por falta de cuidados.
Seamus não respondeu ao comentário, mas virou o cavalo na direção da cabana das enfermidades.
— Vou levá-lo de volta para a nossa rath. A nova curandeira tratará dele.
— E quem é ela?
Aileen estremeceu diante da menção de sua substituta.
— Seu nome é Illona. Ela é a curandeira da tribo dos O’Bannion, e, como nossas terras são tão próximas, se ofereceu para compartilhar conosco suas habilidades.
— Será que não sabe que foram os homens de O’Bannion que fizeram isso com ele? — explodiu Aileen. — Como pode sequer pensar em deixar aquela mulher chegar perto dele?
A surpresa tomou conta do rosto de Seamus.
— Connor disse isso?
— Disse. E acho que deveria pensar muito antes de deixar a curandeira deles chegar perto dos membros de sua tribo.
— Não ouse dizer o que eu deveria ou não fazer, Aileen. Ele deixará a cabana das enfermidades hoje mesmo.
— Ele não quer vê-lo. Não até que esteja curado.
— Neste caso, escutarei isso dos lábios dele, não dos seus. — O tom de voz do chefe tribal tomou-se ameaçador. — Tenha muito cuidado, Aileen. Não levei o seu caso aos brehons para julgamento, embora pudesse tê-lo feito. Ninguém esqueceu o que fez.
Lágrimas quentes começaram a brotar, mas ela as conteve. Ele não conseguia perdoá-la, embora, por Danu, houvesse feito tudo que podia. Ela havia lhe salvado o filho único, dois anos atrás, mas nem mesmo isso podia aliviar a dor de Seamus. Ele estava cego para tudo que não fosse a sua perda.
— Falarei com ele agora.
Sem aguardar uma resposta, Seamus esporeou o cavalo, fazendo-o avançar.
Aileen sentiu um frio no estômago e ficou ali de pé sobre a colina, olhando para a cabana das enfermidades. Seus membros pareciam feitos de madeira, seus eram passos cansados.
— Aileen, espere! — uma voz jovem vinda de trás dela a chamou. Ela virou-se e viu Lorcan, seu cabelo escuro balançando ao correr na direção dela.
— O que foi, Lorcan?
Ao se deter diante dela, o menino trazia arrependimento estampado no rosto.
— Sinto muito. Não deveria ter falado sobre o homem morto. — Baixando os olhos, ele jogou o peso do corpo de uma perna para a outra. — Bem, suponho que ele não esteja de fato morto.
— Ele estaria, se você não houvesse me levado até ele naquele dia. — Ela estendeu a mão e a passou pelo cabelo dele. — Está tudo bem.
— Eu não quis deixá-lo zangado.
Ele abraçou a cintura dela, buscando o seu perdão.
— Sei que não. — Ela o soltou. — Agora, vá. Não quero que tenha problemas por falar comigo.
Lorcan saiu correndo, e ela sentiu o coração se aquecer só de olhar para ele. Sempre o consideraria seu filho de criação. Era mais fácil encarar a caminhada de volta para casa após aquele abraço impulsivo.
O sol chegava ao horizonte, banhando a região com uma luz dourada. Ela caminhou lentamente na direção da propriedade, tentando não pensar na ordem de Seamus. Sua chance de se redimir como curandeira lhe escapara.
O rosto de Connor ardia de febre, e suas mãos latejavam de dor. Quando a porta da cabana das enfermidades abriu-se novamente, escutou uma voz conhecida murmurar:
— O que ela fez com você, jovem Connor?
Ele ergueu a cabeça e viu o rosto do pai de criação, Seamus. Forçando um sorriso, disse:
— Sua curandeira, Aileen, me amarrou à cama. Não tenho forças para escapar.
Seamus gargalhou em resposta à brincadeira.
— Neste caso, permita que eu o resgate, filho. Nossa curandeira pode dar uma olhada em você. — Seu rosto enrugado ficou sério com preocupação. — Como foi que isso aconteceu?
— Fui falsamente acusado de seduzir a filha de O’Bannion. Seus homens esmagaram minhas mãos.
Seamus praguejou baixinho.
— Pode ficar tranqüilo que levarei o caso aos brehons. Connor nada respondeu.
— Talvez, mais tarde. — Ele cerrou os dentes diante da dor. — Soube que tem uma nova curandeira.
— É verdade. — Ele aproximou-se e sentou ao lado do catre. — Seu nome é Illona O’Bannion.
Connor não demonstrou nenhuma reação diante do nome O’Bannion. Parecia um truque cruel dos deuses, enviar o inimigo na forma de uma curandeira.
— Não quero que ela me atenda.
— Posso entender sua raiva, mas proibi Aileen de tratar as pessoas. Ela é jovem demais e não possui o conhecimento necessário.
Connor olhou para as mãos enfaixadas, mas afastou da cabeça qualquer dúvida. Também não confiava totalmente nas habilidades de Aileen, mas nem considerava a possibilidade de deixar que a curandeira dos O’Bannion tocasse em suas mãos.
— Prefiro que ela entale minhas mãos a qualquer outra de nome O’Bannion.
Seamus suspirou.
— Vim levá-lo para casa comigo.
Embora soubesse que as intenções de Seamus eram nobres, ele preferia se arriscar com Aileen.
— Obrigado pela oferta, mas acho que vou ficar aqui.
— Não posso permitir isso.
— Pode e vai. Sabe muito bem por que não posso confiar na curandeira dos O’Bannion. E aqui posso ficar isolado enquanto me recupero. Não quero ser alvo da pena de ninguém.
Não gosto disso, rapaz. Por causa dela... A voz dele falhou.
Havia dor na voz do homem. Connor nada perguntou, pois sabia que o que quer que houvesse acontecido apenas despertaria lembranças desagradáveis. Em vez disso, inspirou profundamente, ignorando a própria dor.
— Tomo minhas próprias decisões. E ficarei aqui até ter recuperado minhas forças.
Quando Aillen alcançou a porta da cabana das enfermidades, encontrou Connor deitado sobre o catre com o rosto pálido. O suor lhe cobria a testa, mas seus olhos se abriram quando ela se aproximou.
— Por que não me contou? — ele quis saber. — Não contei o quê?
— Que não é mais a curandeira. Minhas mãos... Sua voz falhou e ele fechou os olhos de dor. Alimentando o fogo, Aileen colocou uma panela de água para ferver.
— Estão doendo. Eu sei. É o inchaço.
Ele esforçou-se para ficar de pé, mas oscilou.
— Sente-se. Está cora febre — disse Aileen, ajudando-o a voltar para o catre.
Ela misturou algumas ervas que eram boas para a febre, incluindo casca de salgueiro. Servindo a água quente em uma caneca de madeira, ela acrescentou a mistura e deixou que esta esfriasse.
Quando estava pronta, Aileen a levou aos lábios dele para que bebesse. Sem jamais tirar os olhos dela, Connor estremeceu diante do gosto amargo. Havia cansaço e dor no seu olhar.
— Kyna me ensinou tudo que sabia — disse Aileen. — Não há nada de errado com minhas habilidades.
— Não há?
Ela notou a acusação na voz dele, mas recusou-se e se deixar intimidar.
— Quer mesmo que Illona O’Bannion cuide de seus ferimentos? A frustração e a fúria no olhar dele eram condenatórias. Aileen se ocupou cora a panela, subitamente se dando conta de que nada havia preparado para a refeição da noite. Nas últimas duas luas preocupara-se apenas consigo mesma. Freqüentemente se satisfez com apenas um pouco de pão e algumas verduras de sua horta.
— Quer algo para comer? — perguntou, quando ele acabou com o chá.
— Não, não quero nada.
Ele desviou o olhar. Já a tirara da cabeça, e Aileen sabia que não devia forçá-lo a comer.
— Gostou da visita de Sinead e Grania? — perguntou ela, tentando romper o silêncio constrangedor.
— Não quero que me tratem como criança, me dando comida na boca e nem afofando o meu travesseiro.
— Não me recordo de ter afofado o seu travesseiro — retrucou ela.
O rosto dele relaxou um pouco e ela procurou indícios de que a dor estivesse melhorando.
— Suponho que não tenha escolha senão ficar aqui e deixar que cuide de mim — ele disse, erguendo as mãos enfaixadas e fitando-a nos olhos. — O que está feito, está feito. Você já reduziu os ossos e isso não pode ser retificado sem causar danos ainda maiores.
— Se voltar para casa, sua própria curandeira pode tratá-los. Aileen falava como se não fizesse diferença para ela. Mas doía saber que ele não tinha confiança na sua habilidade. Aileen havia feito o possível para salvar as mãos de Connor.
— Como já disse, não vou voltar para casa. Perderei o respeito de meus homens se eles me virem assim. Jamais acreditarão que poderei voltar a manejar uma espada.
Aileen preferiu não dizer que essa era uma possibilidade bem real. O tom de voz dele ficou jocoso.
— E, com você, não preciso me preocupar em ser seduzido. Sei que não daria a mínima se eu estivesse totalmente nu em cima deste catre — disse.
Aileen sentiu a garganta se fechar e tentou não imaginar o corpo elegante e liso, com músculos entalhados e abdômen trabalhado. Pior, jamais havia se esquecido da sensação de estar em seus braços, de ser amada por ele.
— Tem razão — mentiu. — Não tenho nenhum interesse no seu corpo.
Ela abriu a porta, precisando afastar-se dele. Connor poderia ver a verdade no rosto dela.
— Ótimo. Neste caso, está combinado. Ficarei até estar curado, e depois retomarei a Laochre.
Ela nada respondeu, mas, com as faces ardendo, voltou para a própria choupana. Como agüentaria ter Connor tão perto durante todos os dias até que seus ferimentos sarassem? Seria como ter um marido novamente. Ao passo que Eachan lhe trouxera conforto e amizade, Connor a intimidava. Sua presença forte a obscurecia, fazendo-a desejar o que não podia ter.
Ela tivera a filha dele, um segredo que queria manter. Rhiannon era um precioso momento roubado. Se ele viesse a saber da filha, a desprezaria pelo que ela havia feito. Aileen não suportaria ver a revolta no rosto dele. Tudo que lhe restava era o seu orgulho.
Mesmo agora, ele duvidava de seus talentos de cura. Ele queria ficar, mas só para se esconder do resto do mundo. O pensamento de compartilhar de momentos tão cheios de intimidade, morando com ele durante a próxima lua, trouxe de volta as fantasias de infância. Ele era tudo que ela queria, e tudo que era errado para ela.
Será que teria forças para resistir a ele? Já fazia tantos anos; com certeza não faria diferença se ele ficasse.
Mas, lá no fundo, ela sabia a verdade. Seu coração não duraria um dia sequer.



Capítulo Quatro



Ondas de calor o envolveram, sufocando Connor em uma teia de sofrimento. Visões e alucinações o tentavam a abrir mão de tudo, a se afundar nos braços sedosos do esquecimento. Ele sentiu o gosto de ervas amargas e suas mãos ficaram entorpecidas.
Nos sonhos, exigia vingança contra seu inimigo. Não havia encostado um dedo sequer em Deirdre, independente do que o furioso Flynn O’Bannion havia alegado. Não merecera o castigo, e queria ver a justiça ser feita.
Mas, ao ver Aileen misturar as poções e substituir suas ataduras, afastou de sua mente a fúria crescente. Por ora, tinha de se concentrar cm recuperar as forças. E precisaria da ajuda de Aileen, mesmo após as ataduras terem sido removidas.
Connor lembrava-se de um soldado que havia sido quase enterrado vivo quando uma parede desabou sobre ele. O homem havia sobrevivido, mas, após o acidente, não podia mais cuidar de si mesmo. O soldado havia se tomado um fardo para a família, dependendo desta para alimentá-lo e vesti-lo.
Não podia permitir que isso acontecesse.
Connor não sabia o que pensar a respeito das habilidades de Aileen.
As poções amargas e cataplasmas realmente aliviavam a dor. Mas estava cada vez mais preocupado com as mãos. Por que ela estava proibida de curar? O que será que ela havia feito? Deveria ter perguntado a Seamus quando teve a chance.
Embora Aileen escondesse os sentimentos sob um véu de calma, havia certo desespero nos seus esforços de cura. Ela ficava ao seu lado na cabana das enfermidades durante muitas horas, trocando as ataduras, limpando os cortes. Era como se estivesse tentando se redimir de um erro gravíssimo.
Alguns fios escaparam de sua trança castanho-escura, envolvendo-lhe o rosto como um delicado halo.
— Connor, olhe para mim — ordenou. Através da névoa da febre, ele a fitou de volta. — Você precisa tomar esta sopa.
— Não estou com fome.
— Você mal comeu nos últimos dois dias — ela contra-argumentou. — E não vou deixar que morra de fome.
A sopa de peixe tinha um gosto horrível, e tomou a morte convidativa. Embora seus chás de ervas e suas poções fossem boas, a culinária de Aileen deixava muito a desejar.
— Prefiro morrer de fome a comer isso — resmungou.
— Vai lhe devolver as forças.
— Como? Fazendo-me vomitar? Acho que não. — Ele fez uma careta. — Talvez seja esse o seu plano. Servir as piores refeições que pode preparar para se livrar de mim.
— Posso preparar refeições muito piores do que esta.
Será que havia detectado um brilho de humor nos olhos dela? Connor estava surpreso. Ela raramente demonstrava os seus sentimentos, c nunca lhe dera motivos para sorrir.
— Imagino que seu marido devia se orgulhar muito de tal talento.
— Ele gostava da minha comida.
Ele pôde enxergar a dor no olhar dela.
Aileen levou uma colher cheia do líquido à boca do homem. Ele provou a sopa de peixe misturada com ervas amargas e estremeceu.
— Receio ter que discordar de Eachan. Sua comida é a pior que já provei, Aileen.
— São os medicamentos — garantiu ela, segurando a vasilha diante do queixo dele. — Agora, beba. Vai ajudá-lo a sarar mais rápido.
Quase engasgando, ele obedeceu. De certo modo, gostava de poder falar para Aileen o que lhe passava pela cabeça. Com ela, não precisava sorrir e nem brincar, fingindo uma força que não possuía.
Sob o brilho amarelado da luz do fogo, não conseguia enxergar as mãos quebradas. As juntas inchadas tomavam impossível movê-las. Após terminar a sopa, ele a fitou nos olhos. — Não perderei as mãos, mesmo isto que signifique minha morte. Esperava que ela fosse discordar dele, mas, em vez disso, a moça disse apenas:
— Se é o que quer. — Ela inclinou-se à frente, um brilho desafiador no olhar. — Mas quero que saiba que sou uma curandeira boa demais para permitir isso.
Queria acreditar nela, mas, entre a perda da posição de curandeira de Aileen e o inchaço de seus dedos, as dúvidas de Connor persistiam.
— Além do mais — acrescentou ela —, é mais fácil tirá-lo de minha choupana se estiver andando com os próprios pés. Não tenho a força necessária para arrastá-lo até a sua casa.
Connor se viu incapaz de responder, pois ela levou uma caneca de vinho aos seus lábios. A bebida lavou o terrível gosto das ervas.
— Aileen, posso lhe pedir um favor?
— O quê? — Ela havia virado de costas, soltando a comprida brat que usava sobre os ombros, restando apenas a fina léine. Ele se viu distraído pela silhueta do volume de seus seios desenhada pela luz do fogo. — E então? — insistiu.
Quando seus dedos trabalharam para desfazer a trança, o cabelo castanho espalhou-se sobre os ombros e desceu até a altura dos quadris.
— As mulheres — ele começou. — Sei que elas querem me visitar...
— Deve querer dizer que elas querem se oferecer a você em uma bandeja.
Um sorriso contorceu o canto da boca de Connor, mas ele não respondeu à zombaria.
— Será que pode mantê-las longe, peio menos até meus ferimentos terem sarado?
— Não quer que elas lhe dêem petiscos na boquinha? Ou que lhe massageiem os ombros?
Ele não estava gostando do escárnio.
— Não preciso de nada disso. Mas, caso queira fazê-lo, não me oporei.
Aileen bufou e virou-se para ir embora. — Isso jamais acontecerá, MacEgan.
Ele disfarçou o sorriso quando a porta se fechou atrás dela. Não era nenhum segredo que gostava das mulheres. Apreciava a companhia delas, sua maciez. Seus irmãos costumavam brincar que uma mulher poderia matá-lo e ele ainda a agradeceria. Connor havia sido abençoado com a capacidade de seduzir a maioria das mulheres a fazer a sua vontade.
Não via mal algum nisso, visto que a maioria queria flertar. Às vezes aproveitava uma noite nos braços de uma desejosa cailín, mas normalmente costumava dormir sozinho. Tendo poucas posses, casamento com ele não era interessante para as mulheres de origem nobre de sua tribo. Elas queriam ousados guerreiros irlandeses em suas camas, mas não nos seus lares.
Ele se recusava a permitir que uma mulher o usasse de tal modo.
Na sua mente, imaginava a sua própria fortaleza, uma rath de pedra no topo de uma colina em uma terra rica e fértil. Um filho arrastando uma espada de madeira pelo campo de treino, esforçando-se para seguir os passos do pai. Uma esposa que o receberia de bom grado em sua cama ao cair da noite.
Apesar das mãos feridas, não permitiria que os O’Bannion o destruíssem.
Na manhã seguinte, Connor acordou sentindo menos dor. Ele sentou-se na cama e depois ficou de pé. Embora as pernas se movessem com dificuldade, pôde caminhar sem dor. Com passos lentos, seguiu na direção da luz do sol. Ele apertou os olhos diante da luz forte e avistou uma pequena choupana de telhado de palha. A casa de Aileen, supôs.
Postando-se diante da porta revestida de couro cru, ele bateu de leve nela com o pé. Silêncio. Quando entrou na cabana escura, viu que não havia ninguém lá dentro. Por um instante, deteve-se no vão da porta, estudando o interior.
Embora pudesse cruzar toda a extensão da choupana com quatro passadas, Aileen tinha tudo muito bem organizado. Suas ervas estavam dependuradas para secar em um dos cantos da casa, no qual também estavam frascos contendo poções e outros bálsamos de cura. Um pequeno baú guardava seus pertences pessoais e, durante o dia, seu catre ficava guardado em outra parte do aposento.
Sobre a lareira, ele avistou um caldeirão no qual um mingau de aveia fervia. Ele estremeceu, desejando qualquer outra coisa que não fosse o alimento pastoso. Talvez a comida de Aileen fosse a penitência de Connor por pecados passados.
A porta abriu-se ligeiramente, interrompendo os seus pensamentos. Ele viu Riordan, e vagamente se recordou de Aileen ter mencionado que o homem havia ajudado a trazê-lo até a cabana das enfermidades.
— MacEgan — disse Riordan, a título de cumprimento. Embora as palavras representassem um gesto de cortesia, Connor sabia que Riordan não nutria nenhuma amizade por ele. Quando estavam crescendo, Riordan sempre havia sido superprotetor com a irmã caçula, Lianna. Jamais havia aprovado Connor, e nunca fizera segredo de sua animosidade. — Onde está Aileen?
— Ela não está aqui — disse Connor, sem querer prolongar a visita.
Fitando Riordan nos olhos, ele manteve as mãos enfaixadas escondidas atrás do próprio corpo.
— Vim vê-lo. Seus irmãos foram avistados e devem estar aqui em menos de uma hora.
A julgar pelo ligeiro sorriso no rosto do homem, tal fato era do agrado de Riordan.
Connor não demonstrou nenhuma reação à notícia. Em vez disso, deu um passo à frente, desafiando Riordan abertamente.
— Não pretendo voltar com eles — disse. — Vou ficar aqui até que minhas mãos estejam curadas.
— Aileen não o quer aqui.
— Temos um acordo que não lhe diz respeito.
As mãos de Riordan cerraram-se, e Connor manteve os olhos fixos no homem, jamais demonstrando medo. Não confiava nele. As linhas invisíveis do conflito foram traçadas.
— Sempre foi arrogante, Connor. Eu já a pedi em casamento. Como futuro marido e provedor de Aileen, exijo que vá embora.
— Então, ela já aceitou o pedido?
— Ainda é cedo demais.
Connor disfarçou a satisfação. Aileen merecia alguém muito melhor do que um sujeito esquentado como Riordan.
— É o que você diz.
O ciúme do homem foi se intensificando.
— Fique longe de Aileen.
Ferido ou não, Connor não tinha nenhuma intenção de permitir que o homem o intimidasse. Com firmeza, enfrentou a ameaça declarada do homem com uma expressão impassível. O autocontrole de Riordan estava por um fio.
A porta abriu-se e Aileen entrou, carregando a sua cesta que continha punhados de trevos e alfazema frescos.
Ela voltou sua atenção para Riordan.
— O que foi?
— Nada — respondeu Riordan. — Vim avisar Connor de que seus irmãos logo estarão aqui.
Ele parecia cheio de si.
Connor não ficou tão satisfeito com a notícia. Seria difícil convencer os irmãos a deixá-lo para trás. Observou Aileen. Os olhos dela pareceram evitar os dele.
Os irmãos teriam muito a dizer a respeito de seus ferimentos, e Connor duvidava que fossem entender suas razões para querer ficar.
— Preciso começar os preparativos para a nossa refeição da tarde — disse Aileen. — Obrigada por me avisar a respeito dos MacEgans, Riordan.
Ele tomou-lhe a mão, apertando-a gentilmente.
— É sempre um prazer vê-la, Aileen.
Connor não pôde deixar de notar o modo como os olhos de Riordan cobiçavam Aileen. Ele olhava para ela como um homem avaliando um bem. Sentiu uma ligeira pontada de alarme quando o homem foi embora.
Depois que ele saiu, Aileen desfez o embrulho contendo carne de carneiro, que Connor fitou com desconfiança.
— Tem certeza de que sabe preparar isso? Os olhos dela se estreitaram.
— É claro que sei.
Pouco convencido, ele deu de ombros. Nas últimas duas semanas em que havia estado ali, ela não havia lhe preparado uma única refeição decente. Ficaria muito feliz se jamais visse outra tigela de mingau.
— Não vejo a hora de provar — disse, baixinho.
 O olhar de Aileen se encontrou com o dele, e ela corou na mesma hora. A cor vermelha das faces sugeria que estava pensando em provar alguma outra coisa. Embora não houvesse sido esse o sentido de suas palavras, Connor fixou sua atenção na boca da jovem. Ela era doce e ligeiramente rosada.
Ele afastou da cabeça tais pensamentos. Por que estaria pensando em beijar Aileen?
— Por que está aqui? — perguntou ela. Parecia constrangida por tê-lo em sua casa. — Pensei que ia ficar na cabana das enfermidades. Eu ia lhe levar uma tigela de mingau.
— Estava cansado de ficar deitado. — Ele gesticulou na direção das ervas penduradas e plantas medicinais bem organizadas. — É aqui que você mora?
— É. Meu marido, Eachan, a construiu quando me tomei a curandeira da tribo. Queria ficar bem perto da cabana das enfermidades.
Ela serviu um pouco de mingau em uma tigela e a passou para ele. Seu rosto ruborizou-se, quando se deu conta de que ele não poderia segurá-lo.
— Sente-se que eu o ajudo.
Ele preferia comer lama a ingerir outra tigela de mingau.
— Não estou com fome.
Ela colocou a tigela sobre a mesa.
— Será que seus irmãos vão querer passar a noite? — perguntou. Sem esperar uma resposta, prosseguiu: — Quantos eles são? Devo arrumar mais alguns catres?
Com a faca, começou a fatiar a carne de carneiro. Seus olhos brilharam diante da perspectiva de ter visitas.
— Vou perguntar para eles e descobrir.
Precisava falar com os irmãos antes que chegassem. Abriu a porta e saiu da cabana. — Não vá ao encontro deles — protestou Aileen. — Não pode caminhar essa distância toda. Seja paciente e aguarde-os aqui.
— São minhas mãos que estão feridas, Aileen, não minhas pernas.
— Está fraco. Perdeu sangue demais com os ferimentos.
— Vou ficar bem.
As paredes da choupana começavam a sufocá-lo. Precisava de ar puro e um instante para esticar as pernas.
Lá fora, passou ao lado do jardim de Aileen. A grama do verão balançava ao vento, os férteis campos verdes estendendo-se pelo horizonte. Enquanto aguardava os irmãos, sentou-se. Inalando o aroma da safra madura, ele aproveitou a sensação do sol sobre a pele.
Ao longe, viu dois cavaleiros surgindo. Protegendo os olhos, reconheceu os irmãos, Ewan e Trahern.
Como o mais novo, Ewan, tinha de aturar sua dose de provocações. Embora jamais fosse ser habilidoso o suficiente com a espada para ser um guerreiro, Ewan demonstrava uma coragem discreta que dava indício do tipo de homem que iria se tomar.
O irmão mais velho, Trahern, era justamente o contrário. Gigantesco e capaz de derrotar a maioria dos homens em batalha, Trahern não precisava de ninguém lhe cobrindo a retaguarda. Seu verdadeiro talento era contar histórias, e Connor sabia que ele relataria muitas para Aileen esta noite, em troca de sua hospitalidade.
Os mais velhos dos irmãos, Patrick e Bevan, não tinham vindo, mas Connor não estava esperando que viessem. Ambos tinham mulher e filhos e muitas outras responsabilidades.
Vinham puxando um terceiro cavalo, um capão que haviam trazido para ele. Connor levantou-se e caminhou na direção deles, erguendo a mão em um gesto de boas-vindas.
Trahern desmontou, com olhar preocupado examinou Connor de alto a baixo. Um instante depois, deu um tapa nas costas de Connor que quase o jogou ao chão.
— Vejo que, no final das contas, os O’Bannion não conseguiram matá-lo.
Ewan havia crescido vários centímetros desde a última vez em que Connor o vira. Alto e magro nos seus 18 anos de idade, o irmão estava naquele estágio estranho entre a adolescência e a idade adulta.
A atenção de Ewan focalizou-se nas mãos do irmão.
— O que eles fizeram com você?
Connor ergueu as mãos enfaixadas, tentando fazer pouco caso de seus ferimentos.
— Estão quebradas, mas, o restante de mim está bem. Alguns cortes com uma faca, uma pancada na cabeça. Só isso.
— Eles lhe quebraram as mãos ou as esmagaram? — indagou Trahern baixinho.
Connor pôde notar o nervosismo na voz do irmão.
— Quebrada ou esmagada, que diferença faz? — perguntou, mantendo o tom esperançoso.
Mas retribuiu o olhar sério do irmão mais velho, admitindo a possibilidade. Era melhor não discutirem isso na frente de Ewan.
— Durante quanto tempo ainda vai ter que usar as bandagens? — perguntou Ewan.
— Durante mais uma lua, talvez duas.
Ewan descerrou as próprias mãos, deixando à mostra as cicatrizes brancas. Quatro anos atrás o rapaz havia enfrentado um cavaleiro normando inimigo que o torturara em busca de informações, fincando sua adaga nas palmas das mãos de Ewan. Apenas um milagre havia lhe salvado as mãos, pois, embora os cortes houvessem sido profundos, não haviam atingido nenhum tendão.
Uma pena não haver um milagre semelhante para ele mesmo, pensou Connor.
— Elas estão sarando — disse, sorrindo amigavelmente para Ewan.
— Mas prefiro saber de suas viagens para a Inglaterra — continuou.
— Estudou o manejo com o pai de Genevieve, não foi? — Estudei. Diante da menção de suas viagens, Ewan deu início ao relato de a história sobre o seu treinamento. A cunhada, Genevieve, havia oferecido a Ewan a oportunidade de estudar com um mestre no manejo da espada. Ewan havia ansiosamente aceitado a oferta, mas Connor tinha suas dúvidas quanto ao progresso do rapaz. As habilidades de combate do irmão jamais haviam sido o seu forte. Agora, Connor se via diante da possibilidade de enfrentar o mesmo escárnio.
Enquanto Ewan tagarelava, Trahern capturou a atenção do olhar de Connor. Em um tom de voz baixinho, perguntou:
— O que vai fazer?
A pergunta já era esperada. Trahern não estava perguntando sobre seus planos imediatos, mas a respeito do que Connor faria se um dia pudesse lutar novamente.
— Não sei.
— Há outros modos de se lutar — sugeriu Trahern. — Modos onde um homem não precisa segurar uma espada.
— Pode ser. — Mas ele passara anos treinando para aperfeiçoar suas habilidades. Recusava-se a pensar em desistir, não quando ainda havia a mais ínfima possibilidade de recuperação. — Mas não precisavam ter vindo. Voltarei para Laochre quando houver sarado.
As conhecidas torres da fortaleza do irmão haviam sido o seu lar até o dia em que partira para servir o chefe tribal dos O’Bannion.
— Há algum outro motivo pelo qual deseja ficar?
Connor sorriu, achando melhor deixar o irmão acreditar no que ele bem quisesse.
— Talvez. Mas terei de convencê-la. Ewan ficou de queixo caído.
— Você? Existe uma mulher em Éireann que o tenha rejeitado? Ele começou a rir e Connor desejou estar em condições de dar um tapa na orelha do rapaz. Em vez disso, rosnou:
— Isso mesmo.
— Deveria voltar para Laochre, irmão, onde é o seu lugar — aconselhou Trahern.
Quem dera pudesse atendê-lo. Havia passado um ano inteiro longe da família, e estava ansioso para rever a rath conhecida. No entanto, não queria retomar como um homem destruído.
— Talvez mais tarde. Mas, por enquanto, ficarei aqui.
Antes de alcançarem a choupana de Aileen, Connor ficou sério.
— Os O’Bannion tomaram minha espada. Vou precisar de outra.
Sem hesitar, Trahern retirou sua espada e afivelou a bainha ao redor da cintura de Connor. Depois, lhe ofereceu uma bolsa de moedas de prata.
— Talvez também venha a precisar disso. Eu a colocarei junto com suas coisas no interior da cabana.
— Eu cuido dos cavalos — Ewan se ofereceu.
— O capão ficará com você até que esteja pronto para retomar — avisou Trahern.
Ninguém poderia negar a absoluta generosidade do irmão mais velho. Sempre que havia uma necessidade, Trahern a supria sem questionar. Seu irmão era São Trahern. Mas Connor não se ressentia dele. Trahern era um bom homem e merecia o respeito de todos.
Ewan abriu a porta e Connor convidou os irmãos a entrarem. O delicioso aroma de ensopado de carneiro pairava no ar. Aileen os recebeu com um sorriso caloroso. Seu rosto brilhava devido ao fogo, e o cabelo mais uma vez escapava da trança. O vestido de burel e a léine cor de creme que estava usando lhe acentuavam o corpo esbelto e o volume dos seios. Ao vê-la, Connor se deu conta de que achava Aileen atraente, embora sua língua fosse mais afiada do que ele gostaria.
— Sejam bem-vindos. Sou Aileen O’Duinne. Connor apresentou Trahern e Ewan. O irmão caçula corou e sorriu agradecidamente quando Aileen lhes ofereceu um pouco de vinho.
— Por favor, sentem-se e descansem.
Eles retiraram os sapatos, e Aileen lhe ofereceu bacias de água para banharem os pés. Depois, sentaram-se no chão, ao redor de uma mesinha baixa.
Aileen ofereceu a cada homem um pedaço de pão redondo, com o interior escavado e cheio de ensopado de carneiro. O aroma apetitoso fez a boca de Connor se encher de água, mas ele logo se lembrou de que não podia comer por conta própria.
Aileen portou-se com a maior naturalidade ao levar a colher aos lábios dele, como se não houvesse nada de errado.
Connor provou o ensopado saboroso, condimentado com amoras de sorveira e, não querendo passar por fraco na frente dos irmãos, brincou com ela:
— Não é todo dia que um homem tem uma adorável cailín lhe dando comida na boca.
Aileen sorriu e lhe enfiou outro quentíssimo pedaço de ensopado na boca, sem esperar que ele esfriasse. Sua mensagem silenciosa era bem clara.
Na próxima vez em que levou a colher aos lábios dele, Connor virou o rosto, juntando-se à conversa dos irmãos. Ewan se entregou à comida, murmurando poucas palavras.
— Ewan e eu agradecemos muito a sua hospitalidade disse Trahern, sorrindo amigavelmente para Aileen. — Mas gostaria de ouvir suas histórias a respeito de meu irmão. Sei que ele estudou aqui, e estou certo de que deve conhecer uma ou duas histórias capazes de humilhá-lo perante os irmãos.
— E conheço — respondeu Aileen, retribuindo o sorriso de Trahern.
Connor surpreendeu-se ao ver a timidez da moça desaparecer. Ela havia se transformado, chegando a dar a impressão de ser sedutora.
— Duvido muito — disse. — Nunca passei de um rapaz extremamente inocente.
Ewan se engasgou cora o vinho. Trahern riu, e pôs-se a bater nas costas do irmão.
Aileen ofereceu a Connor um gole de vinho, e ele bebeu lentamente, fitando-a nos olhos. A bebida tinha um gosto adocicado, mas não havia nada de doce na expressão de Aileen.
— Foi há muitos verões — começou. — Acho que Connor tinha 15 anos de idade. Estava apaixonado por Lianna, uma jovem da aldeia, mas ela não queria nada com ele.
— Uma mulher desprezando a afeição de nosso irmão? — brincou Trahern. — Não posso acreditar. Estou surpreso em saber disso.
— Não é algo tão difícil assim de imaginar — comentou Aileen, lançando um olhar rápido na direção de Connor.
Ele fingiu um sorriso, mas este desapareceu quando ela começou a contar a história de quando as jovens da aldeia haviam lhe roubado as roupas enquanto banhava-se no rio. Ele fora forçado a voltar para casa sem sequer uma tanga. A lembrança ainda fazia suas faces arderem. Embora soubesse que ela queria apenas entreter seus irmãos, Connor não estava gostando.
Trahern começou a contar uma divertida história sobre um homem que havia ido dormir e acordara sem as roupas na cabana de uma dama. Ewan e Aileen riram, e Connor ficou ainda mais calado. Suas mãos estavam doendo, e ele queria atenuar a dor com um pouco de vinho.
Sem jeito, curvou-se para baixo e tentou agarrar o cálice com os antebraços. Não podia inclinar o recipiente de vinho sem derramar tudo sobre o peito. Aileen pegou o cálice e o levou à boca. Connor aceitou a ajuda, mas não conseguiu fitá-la.
Trahern ficou de pé e se esticou.
— Obrigado por uma refeição excepcional, Aileen.
Ela assentiu, aceitando o elogio. Depois, perguntou:
— Já decidiu se vai voltar para Laochre, Connor?
— Ficarei aqui até que minhas forças tenham retomado. Os olhos dela pareciam preocupados.
— Até que eu remova as ataduras — corrigiu Aileen. Por um instante, tudo pareceu ficar imóvel, e Connor notou a relutância dela. Por quê? Aillen não tinha permissão para curar ninguém mais. Não era como se tivesse outros pacientes a tratar.
A hesitação dela deve ter sido evidente para Trahern, pois ele disse:
— Será que quer dar uma volta comigo? Depois de uma refeição dessas, eu adoraria uma caminhada sob o sol da tarde.
Aileen olhou para Connor.
— Não sei...
— Vá com ele.
Connor ergueu a mão em um gesto de concordância.
Ela não queria ir, ainda mais quando notou as rugas de dor no rosto dele. No íntimo, censurou-se por não ter acrescentado uma poção para dormir fraquinha ao vinho dele. Ela estendeu a mão na direção dos seus medicamentos, escolhendo as ervas de que precisava. Camomila e menta, talvez acrescidas de um pouquinho de casca de salgueiro para aliviar o desconforto.
— Vá e aproveite sua caminhada — sugeriu para Trahern, enquanto acrescentava água quente à mistura de ervas.
— Ele quer lhe falar em particular — interrompeu Ewan. Trahern fitou o irmão.
— Será que não podia ter sido um pouquinho mais sutil, rapaz? Ewan deu de ombros e apontou na direção da porta. Aileen não queria ir, mas por fim cedeu. Ela pousou o chá diante de Connor, dando-se conta, tarde demais, de que ele não poderia bebê-lo sozinho.
Mas, por outro lado, fosse o que fosse que Trahern queria lhe dizer não deveria demorar. Do lado de fora da choupana, ela o seguiu, caminhando ao longo dos limites de sua propriedade. No céu, o sol brilhava forte.
— Conhece Connor há muitos anos, não conhece? — Trahern começou a falar.
— Conheço.
— E ele lhe parece ser um homem que gosta de se aproveitar dos outros?
— Não, claro que não.
— Ele alguma vez lhe fez mal? Aileen fitou seriamente Trahern.
— O que você quer?
Os olhos verdes de Trahern encheram-se de gentileza. — Acho que ele ficaria bom e recuperaria as forças se permanecesse sob seus cuidados. Você parece ser mais habilidosa do que Connor pensa.
O elogio não teve o efeito desejado. Aileen se arrepiou, desejando que todos a deixassem em paz. Era verdade, ele poderia sarar e ajudá-la a provar sua habilidade para a tribo. Mas e se ele não sarasse? E se ele tinha razão e ela não possuísse a habilidade para lhe restaurar as forças?
Estar perto de Connor trazia de volta todas aquelas sensações de inaptidão. Ela sentia-se voltando a ser aquela sombra de menina que um dia havia sido, a jovem que se sentia indigna de estar perto dele.
— Se Connor deseja ficar em Banslieve com a tribo O’Duinne, assim será — afirmou Trahern. — É um homem adulto, capaz de pensar por conta própria. Um homem que não deseja enfrentar sua própria tribo até estar recuperado.
— Até que suas mãos estejam recuperadas, você quer dizer.
— Cinnite. Será que não entende por que ele prefere ficar aqui a encarar os próprios homens? Ele não retornará até estar curado.
— E se ele não ficar curado? O rosto de Trehern ficou sério.
— Neste caso, ele talvez jamais volte para casa.
— Paia como se ele pretendesse morrer.
— Um guerreiro incapaz de usar as mãos pode se considerar morto. Todos nós sabemos disso. — Trahern deu meia-volta, retomando na direção da choupana de Aileen. — A questão é, você vai ajudá-lo?
— Já fiz tudo o que podia.
— Não. — Trahern deteve-se e a fitou. Sua barba comprida roçava-lhe o peito e os cabelos escuros cobriam-lhe os ombros. Aileen teve de inclinar a cabeça para fitá-lo. — Pode fazer mais pelo meu irmão. É isso que estou pedindo a você. Em troca, lhe concederei qualquer coisa que eu puder.
— O que mais posso fazer?
— Ajude-o a se tomar o guerreiro que era. Aileen baixou o olhar, sacudindo a cabeça.
— Está pedindo demais de mim. Não posso mudar os ferimentos de Connor. E nada sei a respeito do treinamento de um soldado.
A expressão do rosto de Trahern ficou mais suave.
— Como ele, você já perdeu muito. — Ele estendeu a mão e segurou a dela. — Pense nas minhas palavras.
Ela sabia. A teimosia de Connor igualava-se à dela. Porém, quanto mais tempo ele ficasse ali, mais difícil seria manter o segredo de Rhiannon. Havia escondido a verdade durante tanto tempo, que não queria destruir as lembranças de Rhiannon revelando que outro homem era o seu pai. Magoaria a filha, e Aileen jamais suportaria isso.
Pior, Connor poderia insistir em tomar decisões sobre o futuro de Rhiannon. Ele tinha todo o direito, ainda mais levando em consideração que ela havia escondido a filha dele durante tantos anos.
— Você conheceu o homem que ele já foi, Aileen — disse Trahern, baixinho. — Se tem um pingo que seja de amizade por ele, rogo para que o ajude.
Ela fechou os olhos. Outrora, ele havia sido muito mais do que apenas um amigo para ela. Havia sido o homem que ela amava. Trahern notou a hesitação dela e deu o golpe de misericórdia.
— Até o final do verão, Aileen. Só até que as mãos dele tenham sarado. Será que não pode lhe conceder ao menos isso?
Lágrimas fecharam-lhe a garganta, mas ela conseguiu assentir. Como penitência por esconder Rhiannon, permitiria que ele ficasse. E, com a graça de Deus, ele jamais descobriria o que ela havia feito.



Capítulo Cinco



Na manhã seguinte, os irmãos dele voltaram para Laochre. Connor ficou mais tranqüilo depois que eles se foram. Aileen mal dissera uma palavra desde que concordara em deixá-lo ficar.
— Pretendo recompensá-la por todo o trabalho que está tendo para cuidar de minhas mãos — disse ele. — Há algo que deseje?
Preparando tigelas de mingau quente, Aileen não respondeu. Só de pensar em comer outra tigela da papa quente, Connor já sentia seu estômago se contorcendo. Se dependesse dele, jamais veria mingau na sua frente novamente.
— Aileen? — repetiu.
Ela afastou um cacho de cabelo da face.
— Não, não há nada. Cuidarei de suas mãos, e depois você irá embora.
Sua voz parecia cansada, quando ela fez um gesto para que ele se sentasse. Com uma colher de madeira, pegou um pouco do horrível mingau e o estendeu na direção dele.
— Preciso mesmo comer isso? — perguntou ele, com seu tom de voz mais encantador. — Pensei que, outro dia, você havia feito bolinhos de mel.
Um brilho apareceu no olhar de Aileen.
— Parece até a minha filha falando, quando era pequenininha. Sem piedade, ela enfiou a papa quente na boca do homem.
Ele se forçou a engolir o que estava na boca. Quando Aileen estendeu outra colherada, ele a fitou com desgosto. Ela manejava a colher como uma arma, pronta para atacá-lo. Mas Connor tinha o treinamento de defesa de um guerreiro. Quando ela avançou com outra colherada, ele rapidamente virou a cabeça. O mingau lhe atingiu a face, em vez da boca, caindo no chão.
A boca da moça contraiu-se.
— Você fez isso de propósito.
— É claro que fiz.
O olhar de Connor estreitou-se, observando-a, atento ao próximo movimento dela. Aileen ia tentar novamente, e ele pretendia estar pronto. Ela preparou outra colherada.
— Não pode fugir de mim.
Connor moveu-se para o lado, mas o mingau aterrissou no seu pescoço, quando ele se esquivou da colher.
Aileen explodiu em uma gargalhada. Com o próprio corpo, tentou imobilizá-lo. Fingindo fraqueza, ele foi incapaz de conter a própria risada.
— Eu me rendo.
Ela relaxou por um instante, um sorriso sincero lhe transformando o rosto. Exatamente o que ele queria.
Connor se aproveitou da oportunidade. Com o mingau lhe cobrindo o rosto, ergueu a cabeça e esfregou a face na dela. A papa úmida espalhou-se pelo rosto da moça, e ela emitiu um som de nojo.
— Pensei que havia se rendido.
— Uma estratégia de batalha. E funcionou.
— Isso foi jogo sujo.
— Eu não luto limpo, a stór.
— Neste caso, prepare-se para minha vingança.
Com a mão cheia, ela espalhou o mingau no rosto dele, mas Connor lhe mordiscou os dedos e Aileen estremeceu.
A maciez das curvas dela pressionando-o, forçou Connor a notar-lhe novamente o corpo, Aileen O’Duinne era sem dúvida uma mulher, e uma mulher que pretendia vencer esta batalha. Ele esforçou-se para se sentar, e as nádegas dela se acomodaram no seu colo. O corpo de Connor enrijeceu de excitação.
Cachos escuros rebeldes haviam escapado da trança da moça, emoldurando o rosto coberto de mingau. Seus sábios olhos verdes iluminaram-se com provocação.
— Você parece um bebê aprendendo a comer sozinho.
— Vou precisar que lave o meu rosto — disse ele, baixinho.
Ela levantou-se do colo dele e trouxe de volta um pano úmido. Ajoelhou-se ao lado dele e o levou à boca e às faces de Connor.
— Esqueceu do seu próprio rosto.
Diante do lembrete, Aileen dobrou novamente o pano e limpou a sujeira. Ela deixou escapar um pouquinho no canto da boca, e ele imaginou limpá-la com um beijo, sentindo-lhe o gosto da pele macia. Ela o intrigava. Embora não possuísse a beleza tradicional das mulheres de que gostava, Aileen havia lhe chamado a atenção.
— Acho que conheço um jeito de deixar o mingau mais saboroso — sugeriu ela.
— Vai oferecê-lo às ovelhas?
Não. — Ela pegou um pote de mel para adoçar o mingau e misturou um pouco à papa. — Assim está melhor?
— Um pouco.
Ele aceitou a sugestão como uma oferta de paz, e ficou satisfeito em vê-la sorrir novamente.
Mudando de assunto, Connor disse:
— Estava falando sério ainda há pouco. Deve haver algo que eu possa lhe ofertar em troca de seus cuidados para comigo.
Ela deu de ombros.
— Você não pode me dar o que mais quero.
— E o que é isso?
— Quero voltar a ser a curandeira da tribo. Mas nada posso fazer a respeito, posso? Eles acreditam que estou amaldiçoada.
— Neste caso, precisa mudar a superstição tola deles.
— É mais fácil transformar pedra em chuva. Eles acreditam no que querem.
— Mostre-lhes a verdade.
— Connor, não posso amarrá-los e forçá-los a aceitar meus cuidados.
Ele ergueu a sobrancelha.
— Eu diria que você se sai muito bem imobilizando um homem e forçando-o a fazer as coisas.
A referência à guerra do mingau trouxe o sorriso de volta ao rosto de Aileen.
Connor sentou-se no catre, as cascas secas de milho farfalhando sob o seu peso. Aileen levou embora as tigelas de madeira, dando uma arrumada na cabana. Era como se ele a deixasse nervosa. Quanto mais pensava no assunto, mais acreditava ter feito algo para ofendê-la.
Longos instantes se passaram e Aileen varria o chão, portando-se como se ele não estivesse lá. Desacostumado a ser ignorado, Connor ficou de pé.
— Há algo que eu possa fazer para ajudar?
— Pode descansar.
— Não sou um inútil, Aillen.
Quanto mais perto ele chegava, mais ansiosa ela parecia ficar. As mulheres não costumavam ter medo dele. Ele aproximou-se por trás. A fragrância forte de alecrim se apegava às mãos dela enquanto Aileen podava a planta. Gentilmente, pousou as mãos enfaixadas sobre os ombros dela.
— Você tem medo de mim? Ela meio que riu.
— Não diga tolices. Não poderia me fazer mal mesmo que quisesse.
— Neste caso, por que está tremendo?
— Não estou.
Aileen deixou de lado o alecrim. Connor usou a mão quebrada para virá-la em sua direção. Seus olhos esverdeados o fitaram com fragilidade. Ele tentou imaginar como seria soltar o resto da grossa trança e deixar que os cachos rebeldes lhe descessem pelas costas. Melhor ainda, passar as mãos por sua maciez e lhe beijar os lábios.
Uma estranha tensão se apoderou dele quando se deu conta de que sequer conseguia mexer os dedos, muito menos usá-los para tocar uma mulher. E esta mulher claramente não o desejava.
Tinha de admitir que isso jamais havia lhe acontecido. A maioria das mulheres ria, apreciando suas brincadeiras. Mas Aileen mantinha distância, oferecendo apenas a relação de uma curandeira com seu paciente.
— Nós já fomos amigos — disse. Um sorriso forçado se desenhou no rosto dela.
— Não de verdade, Connor. Eu ajudei o seu cachorro, apenas isso. Você só tinha olhos para Lianna.
A tristeza era evidente em sua voz, assim como uma pitada de anseio. Há quase sete anos que ele não via Lianna. Para falar a verdade, desde que chegara, sequer pensara nela.
Sua paciência se esgotava diante da recusa de Aileen em lhe aceitar a amizade. Connor afastou-se e usou o cotovelo para abrir a porta.
— Eu a vejo no jantar.
— Aonde vai?
— Caminhar pelos campos.
A porta bateu atrás dele, e à medida que Connor percorria o caminho conhecido, sua frustração ia crescendo com cada passo que dava. Precisava sair de dentro de casa, precisava esticar as pernas.
Ainda não havia alcançado os limites da propriedade quando a ouviu chamando o seu nome.
— Connor, espere.
Aileen caminhou apressadamente até ele, limpando as mãos nas saias.
— Falei sem pensar. Não deve se cansar muito.
— E como é que ficar sentado em uma choupana vai me ajudar a ficar mais forte?
A ideia de permanecer dentro de casa deitado em um catre era de enlouquecer. Ele aproximou-se e Aileen foi forçada a erguer o olhar para o rosto dele.
A incerteza estava estampada nos olhos dela, seus lábios formavam um biquinho. Um instante mais tarde, suas feições se suavizaram diante de uma nova ideia.
— Preciso cuidar da minha horta, hoje. Se quiser pode ficar aqui fora comigo.
— Posso? — Ela estava se comportando como se ele fosse um homem indefeso que desmaiaria se desse apenas alguns passos. No entanto, já participara de inúmeras batalhas, já liderara ataques a outras tribos e defendera aquelas terras de invasores normandos. — Não, obrigado.
— Eu quero um cavalo — ela disse, subitamente.
— O quê?
A mudança repentina de assunto o deixou confuso. Ele pensou no capão que os irmãos haviam deixado para trás.
— Não o seu — apressou-se em dizer. — Vai precisar daquele para voltar para casa. Mas quero um cavalo só meu.
Ele a fitou sem entender.
— Você me perguntou o que eu queria em troca de cuidar de você. Quero um cavalo.
Se ela houvesse pedido o resgate de um príncipe, ele não teria ficado mais surpreso.
— Para que precisa de um cavalo?
— Isso é da minha conta. Você perguntou e eu respondi. Agora, se não se importa, preciso cuidar da minha horta.
— Cavalos valem muito.
— Assim como suas mãos. Se quer me dar alguma coisa, é isso que quero.
Ele não conseguia entender por que ela desejava tal animal, mas não podia prometer tamanha riqueza sem impor algumas condições.
— Aceitarei seus termos se minhas mãos sararem o bastante para manejar novamente uma espada.
Ele tentou ajeitar as ataduras ao redor dos pulsos. O esforço resultou em tremenda dor.
— Não posso prometer nada...
— Neste caso, eu lhe concederei um pagamento mais modesto pelos seus cuidados. Caso restabeleça minhas mãos, eu a presentearei com um cavalo.
Ela hesitou, mas por fim assentiu.
— Talvez haja exercícios que possamos fazer para treinar seus pulsos e suas mãos para ficarem fortes novamente.
— Ótimo.
Ela começou a se afastar, mas ele a deteve.
— Não sou seu inimigo, Aileen. Não represento ameaça e jamais lhe faria mal.
— Eu sei.
Mesmo ao dizer tais palavras, a expressão do rosto dela era resguardada. Ela o lembrava de uma égua selvagem que se assustava com facilidade.
— Não precisa se esconder de mim. Aileen ergueu os olhos para ele.
— Não estou me escondendo de você, Connor.
— Tem uma outra coisa — disse ele.
Era um assunto delicado, mas não havia como ser evitado. Talvez fosse uma boa coisa o fato de não gostar dele, pois não se sentiria incomodada.
Com uma expressão indagadora no rosto, Aileen aguardou. Connor a fitou com o mais inocente dos olhares, o mesmo que fazia as damas suspirarem por ele.
— Preciso muito de um banho. Estou cheirando como um porco. Sem esperar resposta, ele assoviou e seguiu na direção das choupanas ao longe.
Aileen arrancou as ervas-daninhas do chão, atacando-as como uma horda de invasores. Estava ansiosa para despejar um balde de água fria sobre a cabeça arrogante de Connor. Será que ele esperava que ela fosse rir e bajulá-lo, ensaboando-lhe os músculos, enquanto corava como uma virgem?
Ela gemeu. Na noite em que cuidara de seus ferimentos, e muitas vezes desde então, havia visto com os próprios olhos como o tempo e o treinamento haviam lhe esculpido o tórax. Nem toda a sua criatividade poderia ter imaginado um guerreiro mais magnífico. Com o cabelo dourado-escuro e o rosto de Belenus, Connor ainda despertava sentimentos, há muito enterrados, de desejo. Só de pensar em tocar a pele nua dele, lavando-o com apenas um pano fino, fazia seu corpo se lembrar exatamente como era se deitar com ele.
Ela se censurou ao arrancar um pedaço de grama do canteiro de alfazema. Era uma curandeira, não era? Na condição de ferido, Connor não tinha como se banhar sozinho.
Quando ele tocou seus ombros, foi como se seu corpo houvesse se lembrado do dele de anos atrás. O contato físico a surpreendera. Não queria tocá-lo. Não queria correr o risco de sentir o violento anseio do desejo.
Suspirando, ela enxugou o suor da testa. Quando a horta não tinha mais ervas-daninhas, ela seguiu na direção do rio. Ajoelhou-se na margem e, com a mão, levou um pouco da água cristalina à boca.
Foi então que viu o pai, Graeme, vindo em sua direção. Apoiava-se em uma bengala, a circunferência e os ombros largos revelando uma fraqueza por boa comida. O cabelo estava recheado de fios brancos, embora usasse tranças de guerra na altura das têmporas, em memória aos dias da juventude.
Ela colocou-se de pé, ajeitando os fios soltos do cabelo. Jogando um pouco de água no rosto, limpou-o para cumprimentar o pai.
Graeme a abraçou com um sorriso caloroso.
— Aileen, você está com uma ótima aparência, a iníon.
— Você também, pai.
O sorriso dele desapareceu e ela sentiu um arrepio de medo. Graeme O’Duinne era o homem que ela admirara a vida toda, um pai que falava o que pensava, sem inventar desculpas. De algum modo, ela desconfiava que a presença dele era o presságio de más notícias.
O pai levou a mão ao ombro dela.
— Seamus me informou que tem cuidado de Connor MacEgan. Isso é verdade?
— É. Ele precisava de tratamento e eu dei. — Ela lançou um olhar penetrante para o pai. — Diferente de outros que preferem deixar um homem sofrer a aceitar a minha ajuda.
— Seamus perdeu muito. Ele é um pai que não está pensando com clareza.
Ela sabia disso, mas a amargura envolvia o seu coração.
— Ele deveria abrir os olhos para o filho que tem, em vez de re-moer o passado.
— Ele não consegue. — Graeme sacudiu a cabeça. — E você também não deveria remoer o passado. — Acariciando-lhe a face com a mão, o pai ficou sério. — Você sofreu a perda de um marido, minha filha. Sei que ainda chora por ele, mas é chegada a hora de deixar o passado para trás. Quer ter outros filhos, não quer?
A sombra da tristeza lhe cobriu o coração diante das palavras do pai. Quantas vezes havia chorado diante de sua incapacidade de dar um filho a Eachan? Ele havia sido um homem gentil, o mais gentil de todos. Ele a havia acolhido, sem jamais mencionar a ninguém a vergonha dela. Lágrimas brotaram em seus olhos, deixando-a tomada de emoção.
— Sinto tanta falta do meu marido.
— Deveria se casar novamente, Aileen. Quando a aenach começar, muitos buscarão uma esposa. Precisa de alguém para tomar conta de você. — A preocupação paterna desenhou rugas no rosto dele. — É para o melhor, agora que não pode mais ser curandeira.
Aileen queria gritar, não, não é para o melhor. Mas recusava-se a se desgraçar implorando. Não era a perspectiva de um marido que doía tanto. Era a perda da cura como um meio de ajudar os outros.
A idéia de jamais visitar os doentes, cuidando de suas enfermidades e acompanhando a recuperação deles, era com uma lâmina perfurando-lhe o estômago. E queriam que ela abrisse mão disso.
Apenas quando o pai foi embora é que ela chorou. Chorou durante todo o caminho de volta para a pequena choupana, deixando as lágrimas fluírem soltas. Há muito que não pensava em Eachan, mas a menção do casamento havia trazido de volta toda a dor da perda. Uma pontada de solidão lhe perfurou o coração.
Ao chegar à pequena choupana, apoiou-se na porta e enxugou as lágrimas. Abaixou-se para passar sob o feixe de algodão sobre a porta e entrou. Seu olhar se fixou na pequena banheira de madeira no canto, que ela usava para se banhar. Mal conseguia imaginar um homem alto como Connor dentro dela e, subitamente, suas apreensões de antes ficaram mais fortes.
Tentação e sonhos conflitantes lhe preencheram a imaginação, pensamentos pelos quais se censurava. Connor MacEgan era um homem que a havia magoado antes, sem jamais saber como lhe destroçara os frágeis sentimentos. Desta vez, não se deixaria ser vítima de um homem como aquele novamente.
— Graeme O’Duinne, você perdeu a razão? Por que diabos iria incomodar sua filha com essa tolice sobre se casar novamente? Graeme riu, recostando-se com satisfação.
— Ela está sozinha há muito tempo. Estou apenas lhe dando o empurrãozinho de que ela precisa.
Sua mulher olhou intensamente para ele. Graeme divertia-se com a ira da esposa. Póla sempre ficava mais bonita quando estava zangada. Como uma bean-sidhe, Póla avançou sobre ele, os olhos acinzentados trovejando.
— E o que passou pela sua cabeça, deixando uma moça inocente com um homem como Connor?
— Nossa Aillen já teve uma filha, Póla. Ele é uma viúva, livre para fazer o que bem entender. Não há vergonha no fato de ela ficar sozinha com Connor.
— O que pensarão a respeito dela?
— Provavelmente, o mesmo que eu penso. Que já está mais do que na hora de alguém juntar aqueles dois. Pode muito bem ser eu mesmo. Pretendo vê-los casados antes da chegada do inverno.
— Ela perdeu o marido — argumentou Póla. — É cedo demais.
— E quem melhor para confortá-la? Há muitos anos que nossa Aileen nutre sentimentos por Connor. — Ele tomou Póla nos braços. — Não acha que ela merece ser feliz?
— Acho que você é um velho intrometido que deveria manter o nariz fora da vida de Aileen.
Ele lhe inclinou o queixo, de modo que ela o fitasse. — Tem um segredo que carrego comigo desde a última lua e que quero compartilhar com você. Posso confiar em você? O rosto dela se suavizou.
— É claro.
— Eachan não é o pai da filha de Aileen. Rhiannon pertence a Connor.
O rosto de Póla ficou branco.
— Não entendo. Ela... Eles nunca...
— Tenho uma história para lhe contar, a stór. — Ele a tomou nos braços, beijando-lhe a face. — E quando eu terminar, você entenderá o que Eachan me fez prometer. Ele amava tanto Aileen que me pediu para juntar os dois. Queria presenteá-la com o homem que ela realmente queria.
Os olhos de Póla ficaram embaçados, e Graeme soube que havia tocado o coração dela.
— O destino fez com que se reencontrassem, e é assim que vou cumprir a promessa que fiz a Eachan.
— Nossa filha é teimosa — retrucou Póla, seu olhar fitando o infinito. — Ela pode pedir a Connor que vá embora.
— Neste caso, acharemos um modo de mantê-los juntos. E Graeme O’Duinne selou a promessa com um beijo.





Capítulo Seis



— Você é Connor MacEgan — disse um menininho, gesticulando para que Connor se aproximasse.
O menino estava do lado de fora de uma das cabanas, arrancando ervas-daninhas de um pequeno jardim.
Com cabelos cor de canela e olhos verde-escuros, um sorriso esperto adornava o rosto do menino. Seus braços jovens exibiam um leve bronzeado devido à exposição ao sol e músculos fortes que já haviam sido muito utilizados. Da cintura para cima, não era diferente de nenhum outro menino. Mas não tinha a perna direita. Em seu lugar havia apenas um cotoco acima do joelho.
— Qual é o seu nome? — perguntou Connor, esforçando-se para não olhar para a perna amputada do menino.
— Meu nome é Whelon O’Duinne. E você é um dos grandes guerreiros.
O rosto do menino se acendeu de empolgação. Connor ergueu as mãos enfaixadas, sentindo-se um pouco constrangido com a empolgação de Whelon.
— Um dia, já fui.
— Será que pode me treinar?
Connor evitou a resposta que não queria dar.
— Por que quer ser um soldado?
— Para lutar contra o inimigo normando, é claro.
— Nem todo normando é inimigo — retrucou Connor, pensando em Genevieve e Isabel, as esposas dos irmãos. — Muitos são homens e mulheres como nós.
— Neste caso, eu lutaria apenas contra homens maus.
O menino flexionou os músculos e Connor disfarçou o sorriso.
— Haverá bastante tempo para isso mais tarde — disse, esquivando-se do pedido.
Whelon fez uma careta e sacudiu a cabeça.
— Devo começar agora. Demoro mais do que os outros meninos para aprender a fazer algo. Se quero ser um guerreiro, não tenho escolha.
A intensidade do juramento do menino deixou bem claro que Whelon não se deixaria dissuadir.
— Não respondeu à pergunta — comentou Whelon. — Será que pode me treinar?
— Isso cabe ao seu aite — respondeu Connor.
— Meu pai de criação não acredita em que um dia poderei lutar. — O rosto de Whelon ficou sombrio. — Ele acha que, sem minha perna, nada posso fazer. — Ele cerrou as mãozinhas. — Mostrarei que ele está errado. Aileen disse que eu poderia.
Connor pigarreou, não gostando do rumo dos pensamentos do menino. Sem um membro, um homem era inútil no campo de batalha. Ninguém iria querer depender dele. Se não tinham ninguém ao seu lado, nenhum companheiro para ajudar a defendê-lo, poderia muito bem expor o peito para a espada do inimigo.
— Se eu fosse você, escolheria outro rumo na vida.
Embora houvesse tentado manter a gentileza na voz, Connor pôde perceber pelo rosto do menino que o magoara. Deu-lhe as costas, e seguiu em direção à campina.
Por que Aileen havia dado falsas esperanças ao menino? Ela nada sabia sobre o combate, ou sobre o que era necessário para ser um soldado. Um guerreiro precisava permanecer controlado quando enterrava a espada no coração de outro homem. Um único erro, um segundo de hesitação, resultava na sua morte. Connor sabia, pois já havia sentido a lâmina afiada de uma espada cortando-lhe a própria carne. As cicatrizes permaneciam. E se esse jovem tentasse se tomar um soldado, acabaria morto.
Connor atravessou a campina, seguindo em direção ao bosque. O pedido de Whelon lhe lembrara de que havia permitido que o corpo ficasse mole nas semanas que passara com Aileen.
Precisava treinar, alongar os membros e recuperar as forças. Ele começou a correr, as pernas enfraquecidas curvando-se sob o esforço. Havia muitos modos de manter a forma física, mesmo sem poder segurar uma espada. Ele aumentou o ritmo, correndo na direção do bosque cerrado.
Sob as sombras das árvores, encontrou uma área onde as árvores não cresciam uma ao lado da outra. Por um instante, tentou acalmar a respiração, depois, estendeu o braço, como se estivesse segurando uma espada. Movimentou-se pela clareira, visualizando os golpes cm sua mente, atacando com a arma imaginária que era incapaz de segurar. Repetiu várias vezes os movimentos conhecidos, até poder desligar sua mente e o corpo poder reagir por instinto.
O suor lhe cobriu a testa, as pernas ardendo enquanto simulava ataques com a direita e, depois, com a esquerda. Não podia se permitir ser derrotado pelo ferimento. Se para isso precisava compensar com as pernas, assim o faria. Com o tempo, usaria a espada que Trahern lhe havia emprestado.
A imagem de Whelon invadia sua concentração. O menino encontrara seu próprio modo de compensar a perda da perna. Os braços esculpidos de Whelon revelavam grande força, muito além da dos outros meninos de sua idade, Será que ele não poderia aprender a lutar? Sua lembrança focalizou-se em guerreiros que conhecera, homens que haviam perdido membros e voltado para o campo de batalha.
Mas tratava-se de veteranos, acostumados à dor e à perda. Sabiam os riscos e podiam se adaptar. Whelon era apenas uma criança. Não podia treinar da mesma maneira que alguém que havia conhecido o combate durante toda a vida.
Enquanto os pés de Connor moviam-se com a velocidade da experiência, a dor dos músculos sem uso começou a se fazer presente. Por fim, sentindo os pulmões se contraindo, ele largou-se no chão para descansar.
Fitou as talas cobertas por faixas. Elas escondiam os ferimentos dele, e embora às vezes sentisse a pele coçar, agora raramente sentia a dor latejante. Embora Aileen houvesse prometido em breve remover as bandagens, ele foi tomado de uma vontade irresistível de ver como as mãos estavam sarando.
Usando os dentes para soltar as faixas, ele as desenrolou até as talas caírem no chão. Embora sua pele estivesse com um tom cinza-pálido, a textura não o incomodava tanto quanto os ossos torcidos. Os dedos não estavam retos, a mão direita parecia mais a garra de um animal do que a extremidade de um membro humano.
Não conseguia dobrar o pulso, nem mover os dedos mais do que alguns centímetros.
O desespero entrou em conflito com a raiva. Havia se apegado à esperança de que, de algum modo, Aileen possuísse a capacidade de curá-lo. Agora duvidava que isso fosse possível. Ela havia lhe salvado a vida. Mas para quê?
Devia ter ignorado o próprio ódio e ter ido ver a curandeira dos O’Bannion. Deveria ter ignorado o seu orgulho. Em vez disso, confiara em Aileen.
Não podia deixar de lhe atribuir uma pequena parcela da responsabilidade. Se a antiga curandeira, Kyna, ainda estivesse viva, será que ela não teria conseguido lhe salvar as mãos? Aileen não tinha a experiência da idade.
Vendo o sol encostar no topo das árvores, e a manhã se transformar em tarde. Connor teve receio de que seu futuro como soldado houvesse acabado. A dor da perda envenenava-lhe a mente, pois não via como poderia segurar uma espada, muito menos enfrentar um inimigo. Lógica e força de vontade entraram em guerra. Se estas mãos pertencessem a outro homem, como comandante, não teria permitido que tal soldado lutasse.
A idéia de jamais erguer novamente uma espada significava desistir de seus sonhos. Como poderia liderar uma tribo sem a força para fazê-lo? Tomado de raiva, sentiu um vazio formar-se no seu íntimo.
Ainda não podia desistir. Preferia morrer a se render. Independente do custo, jurou recuperar a antiga força. Mesmo que isso resultasse em sua morte.
O aroma acolhedor de alfazema e alecrim preenchia o interior da choupana de Aileen. Ela lembrou-se das noites em que Eachan se sentava cora ela, tomando uma bebida quente. É claro que ele sempre havia preferido uma pitada de uísque irlandês caseiro misturado cora a bebida. Às vezes, ele lhe seguraria a mão, acariciando-lhe a ponta dos dedos, antes de persuadi-la a ir para a cama.
Um sorriso apareceu em seus lábios diante da recordação. Ele havia sido um amante gentil, amavelmente proporcionando-lhe satisfação. Sempre atento às necessidades dela, haviam estabelecido um padrão de conforto no casamento. Pensar em Eachan só fazia aumentar o vazio da solidão que se instalara em seu íntimo.
Esta noite, prepararia um craibechan de bacon picado misturado com legumes de sua horta. Os comentários de Connor sobre sua falta de talento na cozinha haviam lhe ferido o orgulho. Ela lhe mostraria que estava errado. Enquanto picava a carne, uma batida abafada à porta lhe chamou a atenção.
— Aileen! — gritou Connor de lá de fora.
Ela abriu a porta. Connor entrou e Aileen notou rugas de frustração no rosto dele. Ele estava escondendo as mãos atrás do próprio corpo, impedindo-a de vê-las. Ela entendeu a irritação dele diante da própria incapacidade de realizar a mais simples das tarefas, como entrar na choupana.
— Fez uma caminhada agradável? Sinais de fadiga lhe marcavam o rosto.
Connor ergueu as mãos, as bandagens haviam desaparecido. Embora ele nada dissesse, a acusação brilhava em seus olhos.
— Por que retirou as bandagens? — Sentindo a própria raiva brotar no peito, ela falou rispidamente. Ao retirar o curativo cedo demais, ele punha em risco sua recuperação. — Não deveria tê-las retirado. As talas mantinham os ossos na posição correta. Elas precisavam de mais tempo.
Quando ele não respondeu, e!a tentou pegar-lhe as mãos. Com o rosto marcado pela fúria, Connor as retraiu.
— Então, essa é a sua cura? — quis saber Connor, erguendo a mão direita.
A pele havia se recuperado, mas os ossos jamais ficariam completamente retos. Ela havia feito o possível por ele. Connor recuperaria os movimentos, embora talvez não a mesma amplitude de movimentos.
— Sente-se.
Aileen se recusava e se justificar, não quando tudo que ele queria era esbravejar com ela.
— O que fez comigo? — rosnou ele.
— Salvei a sua vida ingrata. Agora, sente-se para que eu possa consertar o estrago que fez — ordenou.
Sem aguardar uma resposta, ela pegou pedaços de pano limpos e procurou talas de madeira para os dedos dele.
Como ele pudera ter sido tolo a ponto de retirar as bandagens tão cedo? Cada dia era crítico para os ossos se fundirem, especialmente os do pulso. Os dedos deformados não importavam. O verdadeiro estrago fora feito no pulso, e isso comprometia todos os seus movimentos.
Ele permaneceu de pé. Aileen sentia uma emoção indefinível vinda do guerreiro alto. O sol trouxera cor à pele dele e o rosto severo permanecia inflexível.
Ela tomou o pulso dele na mão e os antebraços musculosos se retesaram de fúria. Enquanto lhe enfaixava a mão e os pulsos, o olhar do homem tomou-se frio. Ele não falou uma só palavra. Seu silêncio era condenatório.
Quando por fim terminou, Aileen pegou a faca e voltou para os legumes esquecidos. Suas mãos tremiam ao fatiá-los, mas ela ocultou o receio com o trabalho.
— Conheci um menino, hoje de manhã — ele disse. — Seu nome era Whelon.
A faca de Aileen escorregou e ela cortou o dedo. Fingiu que ele nada havia dito.
— Foi mesmo?
— Rime mé. — Connor deu um passo adiante, mas Aileen não teve como recuar. — Como foi que ele perdeu a perna?
— Ele se feriu em uma pequena escaramuça com os normandos. Estava sangrando muito, e os homens fizeram um torniquete. — Ela ficou pálida, fechando os olhos diante da lembrança. — Não fizeram um serviço adequado, e quando o retirei, a carne já havia começado a apodrecer. Tive de amputar a perna para salvá-lo. Ele teria morrido se eu não o houvesse feito.
— Já vi a enfermidade que descreveu. Homens que perdem muito sangue costumam perder os membros.
Aileen fechou os olhos, tentando apagar os gritos do menino da memória. Os homens tiveram de segurá-lo, e com cada movimento da lâmina era como se ela estivesse cortando um de seus próprios membros. Por todos os deuses, jamais queria ter de fazer algo assim novamente.
— Whelon quer se tomar um soldado — revelou Connor. — Ele me pediu para treiná-lo.
Um sorriso frágil apareceu nos lábios dela ao se lembrar do determinado Whelon.
— Há muito tempo que ele sonha com isso.
— Não deveria encorajá-lo — alertou Connor.
Ele estendeu as mãos na direção dela, contendo por muito pouco a sua fúria.
Aileen abaixou a faca e virou-se para ele.
— Sempre há esperança.
— Não. Não para ele. E não para mim.
— Suas mãos não estão tão ruins quanto pensa. Ossos quebrados precisam de tempo para sarar.
— Não me tomarei um fardo para minha família. — Havia raiva e desalento na voz dele, embora Connor se esforçasse para manter um tom neutro. — E nem para você.
— Você não é um fardo. — Ela estendeu as mãos. segurando-lhe os antebraços. — Se tiver necessidade de algo, peça e farei o que puder para ajudá-lo.
Mas ela já podia enxergar a resignação no rosto de Connor. Se ele desistisse de acreditar em si mesmo, jamais ficaria bom. Sentiu uma pitada de desespero diante do pensamento.
Connor aproximou-se ainda mais, tomando impossível a concentração nos legumes. Ela colocou a faca sobre a bancada, tentando imaginar o que ele poderia querer.
Olhos acinzentados e frios se fixaram nela. Suas mãos recém-enfaixadas repousaram na superfície da mesa.
— Tenho necessidades, Aileen. Mas nenhuma que você possa satisfazer.
A acusação na voz grave teve a intenção de intimidá-la. Em vez disso, o som melodioso a seduziu, fazendo com que notasse cada detalhe do rosto bonito. Sua boca a tentava, firme e no entanto macia, Ele estava usando o cabelo dourado puxado para trás, preso com uma fita de couro, mas não havia nenhuma trança de guerra pendendo de suas têmporas. Mais viking do que irlandês, ela sempre pensara. Uma pequena cicatriz repousava na base do queixo, onde a barba não crescia.
— Se não pedir a minha ajuda, não posso saber quais são as suas necessidades — ela disse, baixinho. — Não há vergonha alguma em pedir.
Ele desviou o olhar e Aileen pode notar o orgulho em sua postura. Deu-se conta de que Connor jamais pediria.
— Por que tentaria convencer uma criança aleijada de que é capaz de se tornar um soldado? Ou diria para um homem com as mãos quebradas que um dia voltaria a lutar?
— Tenho fé — argumentou ela. — Minhas ervas medicinais podem fazer muito para ajudar os outros. E, no entanto, ainda há milagres que não consigo explicar.
Aileen levantou as mãos dele.
— Já segurei na palma da mão uma criança nascida duas luas antes da hora. Ele deveria ter morrido, no entanto cresceu para se tomar Lorcan, o menino que o encontrou nos campos.
Gentilmente, tocou nas ataduras, como se o calor da própria pele pudesse ajudar a curá-lo.
— Já vi homens sobreviverem a ferimentos de batalha que deveriam tê-los matado instantaneamente. Acredito na existência de um poder maior do que o meu.
— Deuses pagãos?
Ela enxergou a dúvida no olhar dele.
— Tanto os deuses de nossos ancestrais quanto o Deus cristão têm dado esperanças a muitos. Não me tomarei uma velha rabugenta que esmaga a esperança daqueles que cura.
— E quais são as suas esperanças, sensata Aileen? Riqueza além de todos os seus sonhos? Casamento com um rei?
Ela ousou rir.
— Não sou tão tola.
— Neste caso, o que quer?
— Quero ser curandeira novamente — disse ela. — Quero que parem de me culpar pelo que aconteceu.
— E o que foi que aconteceu? Por que Seamus não quer permitir que você cure?
A dor da própria perda a sufocava. Ela ergueu os olhos para ele.
— Whelon é o filho de Seamus. — Pensei que ele tinha apenas filhas. — Connor franziu a testa. — Suponho que ele tenha nascido após a minha partida? Ela assentiu.
— Whelon era um de seus favoritos. Já faz dois anos que amputei-lhe a perna. — Ela soltou uma risada magoada. — Seamus me culpa pelo ocorrido.
Ele se posicionou ao lado dela. O comentário a confortou, pois significava que não concordava com Seamus.
— É por isso que ele não permite que trate ninguém? Ela sacudiu a cabeça.
— Ele só me proibiu de tocar em outro membro da tribo três luas atrás. A mulher dele, Riona, deu à luz gêmeos. Mas era cedo demais para os meninos nascerem. — Aileen não tentou ocultar as lágrimas que lhe rolavam pela face. — Eles morreram poucos dias depois. Seamus acredita que tenha sido minha culpa.
Connor estendeu a mão, como se fosse segurar a dela. Mas olhou para as extremidades enfaixadas, e se deu conta de que não podia fazê-lo. Ele as abaixou.
— É essa a maldição de que falam? Ela deu de ombros.
— Não sei se estou amaldiçoada. Tem dias que parece até que estou. — Usando a ponta do xale, ela enxugou as lágrimas. — Meu pai quer que eu me case novamente. Talvez o mexerico sobre a maldição desapareça se eu o fizer.
— E com quem se casaria? Ela sacudiu a cabeça.
— Não há muitos homens que me aceitariam, com a exceção de Riordan.
— Não entendo o motivo. Tem um rosto bonito, e daria uma boa esposa para qualquer homem.
Ela corou diante da menção de seu rosto.
— Não brinque. Sei que não sou bonita.
— É sim — disse ele. Ele aproximou-se, e Aileen pôde sentir o aroma almiscarado de homem e floresta. Os olhos dele ficaram embaçados. — E, tirando a sua comida, qualquer homem teria sorte de tê-la em seu lar.
— Minha comida?
— Totalmente impossível de se comer. É inacreditável que uma mulher com seu conhecimento de ervas não saiba o que fazer com um pouco de carne.
— Não há nada de errado com a minha comida! — Ela não podia acreditar que ele tivesse a coragem de insultá-la daquele modo. — Você ainda não está bem o suficiente para comer nada que não seja mingau.
— Admito que o carneiro que preparou para meus irmãos não estava nada mal. Mas a sopa de peixe me fez ter vontade de me arrastar para o túmulo.
Ela bateu nele com o pano de secar pratos.
— Você é um homem muito malvado, Connor MacEgan.
— Prove que estou errado, então. Prepare-me um banquete saboroso. Os lábios de Aileen se repuxaram.
— Quem sabe eu não preparo mesmo?
Aileen notou que Connor comeu cada pedacinho do craibechan, embora ele a houvesse provocado, fingindo se engasgar. Ela teve de lhe dar a comida na boca, embora ele houvesse recusado a colher.
— Por quê? — perguntou ela. — Quer comer como um bárbaro?
— Aprendi minha lição da última vez — disse ele, baixinho. — Queimou minha boca ao usar a colher. Se usar as suas mãos, não vai poder me queimar, vai?
Ela enrubesceu. Da última vez, quando comeram com os irmãos dele, estivera furiosa.
— Não vou queimá-lo.
— Use as mãos — ele mandou novamente.
— Que seja. Mas, devo avisar, vai fazer a maior sujeira.
— Depois, pode me dar um banho.
Um rubor de desejo apareceu nas faces dela diante das palavras de Connor. Ela lhe deu um pouquinho de carne e cenouras. O toque dos lábios do homem nas pontas de seus dedos a deixou toda arrepiada. A sombra predatória da barba por fazer lhe cobria as faces e sua boca era firme e sensual. Ela também tentou comer, mas havia perdido o apetite. Com cada pedacinho de comida que dava para ele, seu corpo traiçoeiro reagia.
Pelos deuses, mas como este homem a tentava! Ela queria inclinar-se à frente e beijá-lo, do mesmo modo como ele se apossara de sua boca tempos atrás. Jamais havia se esquecido do modo como ele a fazia se sentir, o modo como seu corpo se rendera sob o dele, quando ele a preenchera.
Quando lhe deu o último pedaço na boca, Aileen levantou-se bruscamente, irritada com a própria falta de controle. Ela tirou os pratos da mesa e pegou a vassoura. Embora o chão já estivesse limpo, ela o varreu para tirar Connor da cabeça.
— Aileen? — A qualidade áspera da voz dele lhe destroçou as sensibilidades. — Gostaria de tomar aquele banho agora.
— É claro.
Ela pendurou o pesado caldeirão sobre o fogo e foi lá fora buscar água. A brisa fresca lhe aliviou a ardência das faces, enquanto nuvens acumulavam-se no céu. Choveria naquela noite. Ela inspirou profundamente, acalmando a tempestade de expectativa. Connor não a queria. Estava com ela apenas por causa de suas habilidades de cura, A idéia de que ele poderia desejá-la não passava de anseios tolos, mais adequados em jovens virgens.
Ela carregou dois baldes de madeira até o rio, desejando poder mergulhar nas águas frias e acalmar seus sentimentos, já que fazia muito tempo desde a última vez em que se deitara com um homem. O tempo não havia diminuído o seu desejo por Connor. Agora que ele estava aqui, ele só ficara mais evidente.
Ela fez várias viagens para encher o caldeirão, depois alimentou as chamas, fazendo com que a água fervesse.
— Para que é isso? — perguntou Connor.
— Você pediu um banho. Estou aquecendo a água, a não ser que o prefira frio.
— Prefiro momo.
Sua voz era profunda, carregada com o mesmo desejo que ela sentia.
— Muito bem.
Ela tentou se comportar como se fosse indiferente. — E quanto a você? Também vai tomar um banho? Ela sentiu um arrepio percorrer a pele, e suas pernas ficaram bambas só de pensar em Connor vendo-a se banhar.
— Vou. Depois que você houver terminado.
Ela arrastou a pequena banheira de madeira até o centro do aposento. Com os joelhos encolhidos até o peito, dava para se sentar nela.
Connor imaginou o corpo nu de Aileen, regatos de água ao redor de seus seios. Uma estranha sensação o dominou. Não havia pensado nela desta maneira antes, vestida como estava com seu léine e a brat de lã sobre os ombros. Agora, ela soltava o cabelo escuro, escovando-o diante do fogo. As chamas estalavam na lareira, aquecendo-lhe a pele.
De repente, um riacho frio parecia muito mais convidativo. Ela estava agitada ao redor dele, e, por algum motivo, isso o agradava. Quando ela lhe dera o craibechan na boca, Connor a vira enrubescer. Mas Aileen não era nenhuma virgem. Já havia conhecido os prazeres de um marido, e o desejo explodiu em seu âmago só de pensar em compartilhar a cama com ela. Ele a desejava, queria lhe tocar a macia pele alva e beijar-lhe o rosto, apagando a tristeza.
— Sente falta de Eachan? Ela assentiu.
— Ele me amava. Só queria ter podido lhe dar um... — Suas palavras se interromperam, e ela pareceu alarmada, como se desejasse apagar o que havia dito. — Eu queria ter podido lhe dar outro filho — corrigiu-se. — Rhiannon foi nossa única filha.
O rosto de Aileen ficou vermelho, e ela se virou na direção do caldeirão. Ela mergulhou lá dentro os baldes de água, despejando o líquido quente na banheira. O vapor emergia da água, e ela acrescentou algumas ervas verdes.
— Vou ser cozido e temperado como uma galinha assada? — brincou Connor.
— É apenas menta e algumas outras ervas de cura. Não molhe as mãos — alertou. — Depois que tirarmos as bandagens, poderá lavá-las.
Quando a banheira estava cheia de água, Connor a fitou com desconfiança.
— Não caibo nesse espaço tão pequenininho.
— Cabe, caso se ajoelhe.
Connor tinha suas dúvidas, mas não viu alternativa a não ser ficar postado diante dela, nu. Uma preocupação brotou em sua mente.
— Acha que haverá repercussões negativas para você, se eu ficar aqui?
Aileen sacudiu a cabeça, fitando-a com sinceridade.
— Já não pensam muito em mim como curandeira. Não vejo como a opinião deles possa importar mais para mim. E não sou uma jovem virgem que jamais viu um homem despido antes.
As palavras da mulher causaram outra pontada de desejo na virilha de Connor. Eachan havia se deitado com Aileen, tocando-lhe a maciez da pele. Ele havia segurado nas mãos aqueles seios fartos, acariciando os mamilos com o polegar. Connor mexeu-se em seu assento, notando com desconforto que já fazia muitos meses desde a última vez em que havia se deitado com uma mulher.
Aileen permitiu que sua brat caísse dos ombros e tirou o vestido cor de terra. Estava usando apenas uma fina léine que se apegava aos quadris esbeltos.
— Está pretendendo se juntar a mim na água? — perguntou ele, em tom de brincadeira.
Ela sorriu e sacudiu a cabeça.
— Sabe muito bem que não haveria espaço para mim.
— Poderia se sentar no meu colo.
Embora houvesse dito as palavras apenas a título de flerte, sua imaginação o presenteou com a visão de Aileen montando-o, a feminilidade dela pressionando toda a sua extensão intumescida.
— Está quente aqui — explicou Aileen. — E não tenho nenhuma intenção de molhar meu vestido.
Ela aproximou-se e começou a desfazer o nó da túnica de Connor.
O toque macio das mãos dela movendo-se sobre o seu peito incendiou o desejo. Saber que não podia tocar-lhe com as mãos machucadas só tomava as coisas piores. Era um tormento, ter a mão de uma mulher sobre si e não poder saciar os próprios desejos.
— E quanto a Riordan? — perguntou Connor, tentando conter o desejo.
Ele ergueu os braços, dando-se conta de que, se Riordan descobrisse a respeito deste arranjo, ficaria furioso.
— Riordan não tem o direito de me dizer o que fazer. Ele não é meu marido.
Aileen levou as mãos às calças dele, mas Connor a deteve.
— E se ele vier a se tomar seu marido? Ela se interrompeu.
— Sou uma curandeira, banhando um homem incapaz de fazê-lo. Não há vergonha alguma nisso.
Diante do toque das palmas das mãos dela nos seus quadris, a ereção de Connor ficou ainda mais rija. A fragrância de ervas frescas e feminilidade de Aileen foram a sua perdição. Ele reprimiu um gemido, impedindo-a de baixar-lhe as calças.
— Se quiser, posso...
— Pode retirar suas próprias calças? — indagou ela, suavemente.
Embora suas palavras não fossem uma provocação, elas o lembraram de sua fraqueza indesejada. Aileen terminou de lhe tirar as roupas, desviando o olhar de sua masculinidade.
Connor entrou na banheira, ajoelhando-se para se esconder. Embora ela agisse com a cortesia apropriada, suas ministrações o incomodavam. Deveria ser capaz de se deliciar com a água quente e as mãos que retiravam a sujeira.
No entanto, as palmas das mãos dela moviam-se com sensualidade sobre sua pele, com estranha familiaridade. Connor teve a inquietante sensação de que ela já o havia tocado intimamente antes, embora soubesse ser isso impossível.
Estava grato pela banheira ocultar o restante do corpo, pois não conseguia esconder seu desejo.
Um cacho do cabelo de Aileen caiu-lhe sobre o ombro, uma mecha sedosa que o provocava. Ele teve a vontade de passar a mão pelo cabelo dela, puxando-a para baixo para um beijo.
E, no entanto, não podia tocá-la. Por mais injusto que ele pudesse ser, os O’Bannions haviam lhe dado um castigo apropriado. Ele não podia mais acariciar a pele de uma mulher.
— Pode relaxar agora — disse Aileen, baixinho.
Connor permaneceu imóvel. As pontas dos dedos dela repousavam sobre os ombros dele, gotas de água deslizando pelos braços. Ela segurava o pano de encontro à pele dele, e a tentação de seu toque o fez desejá-la ainda mais.
— Quero beijá-la — disse, com a voz rouca.
Os lábios dela se entreabriram de surpresa. O convite pairava no ar, mas Aileen não se afastou.
Connor eliminou a distância entre os dois. Aileen tinha o gosto de morangos, uma doçura picante que o provocava. Ela permaneceu imóvel, sem desviar o rosto, mas também sem retribuir o beijo. Ela possuía uma ligeira inocência e, no entanto, havia sido a mulher de outro homem.
Connor tentou persuadir a boca a de Aileen se abrir, a permitir a entrada de sua língua, mas ela recuou. Os ombros de Aileen ergueram-se, sua respiração ficou irregular. Ela também o desejava. Sua boca clamava por um outro beijo, enquanto o corpo dele exigia muito mais.
— Pensei que... Você disse que... — Embora seu rosto estivesse profundamente ruborizado, ela gaguejou: — Você não me queria.
Connor a interrompeu com um olhar penetrante.
— Eu a desejo muito mais do que deveria.
Dito isso, ele ficou de pé, permitindo que ela visse a plenitude do seu estado de excitação.
Aileen deu um passo para trás, desviando o olhar chocado.
— Tem razão, isso não seria bom para nenhum de nós.
Ele estava esperando que ela fosse fugir, que fosse censurá-lo por beijá-la. Ela não o fez. Em vez disso, nada comentou a respeito de sua ereção, mas passou o pano ensaboado sobre as coxas dele, descendo pelas pernas. Os pulmões de Connor se comprimiram, seu corpo implorando pela sensação da pele nua de Aileen em contato com a sua.
— Não quis ofender — ele disse, a título de desculpas. — É que já faz muito tempo desde... — Connor não sabia muito bem o que dizer, mas queria aliviar a inquietação. — Acho que teria acontecido com qualquer mulher.
Aileen franziu a testa e ele pensou ter detectado irritação na expressão de seu rosto.
— Talvez.
Ela despejou um balde de água morna sobre ele para tirar o sabão e enrolou uma toalha ao redor dele. Connor aceitou a ajuda para sair da banheira.
Ela o enxugou com esfregadas rápidas, nada de inapropriado nelas. Com o tempo, a ereção baixou e ela lhe trouxe uma túnica e um par de calças xadrez limpos.
— Estas peças pertenceram a Eachan. Talvez não caibam direito, mas pode usá-las enquanto cuido de suas roupas.
Ele as aceitou e, conforme dissera, a túnica ficou apertada no peito.
— Agradeço muito.
Ela ainda parecia constrangida, e Connor sabia que tinha de dizer algo para tranqüilizá-la.
— Saiba que jamais a forçaria a aceitar minhas atenções, caso não as desejasse — afirmou.
— Eu sei.
Na luz fraca do interior da choupana, ela parecia mais pálida que de costume. Connor arrependeu-se de agido impulsivamente.
— Mas não deve fazer isso novamente. — Ela reuniu toda a coragem e o fitou nos olhos. — É melhor que eu seja apenas uma curandeira para você.
Uma dor passageira obscureceu as feições de Connor. Ele queria tomá-la nos braços, descobrir os mistérios que ela escondia por trás da máscara de timidez. Mas respeitava o desejo dela de não querer se deitar com ele.
— Voltarei para a cabana das enfermidades para passar a noite — disse.
Ele esforçou-se para abrir a porta com as mãos enfaixadas, deixando a choupana. Por um longo tempo ficou postado sob a luz da lua, permitindo que o ar noturno lhe esfriasse o desejo.
Mas, ao fechar os olhos, escutou a água bater nas paredes da banheira quando ela a adentrou. Sua imaginação retratou imagens carnais do corpo da mulher, de suas curvas fartas. Por dentro, praguejou por ter de retomar ao próprio catre.
Sem conseguir tirá-la da cabeça, Connor não conseguiu dormir direto naquela noite.




Capítulo Sete



— Póla O’Duinne, você precisa me contar o que houve com Aileen. — As mãos de Riona O’Duinne quase voaram até o outro lado do tear, despertando o interesse das outras mulheres. — Meu marido, Seamus, está furioso com o que ela fez com Connor. Não consigo acreditar que ela tenha insistido em tentar tratar os ferimentos dele.
— Ela lhe salvou a vida — retrucou Póla, Ela se irritou com a crítica dirigida à filha e puxou o feithgéir pelo fio. — Assim como salvou a de Whelon.
O rosto de Riona enrijeceu.
— Seria melhor Aileen encontrar logo um marido.
— E ela vai. Meu Graeme quer que ela se case com Connor — informou Póla. — Ele se acha um grande casamenteiro.
— Connor e Aileen? — zombou Riona. — Um guerreiro como ele está além do alcance dela. Ele jamais iria querê-la.
— Eu o quereria para mim mesma, mamãe — afirmou Grania, rindo. — Jamais vi um homem tão bonito.
Riona sacudiu a cabeça e sorriu.
— É melhor que permaneça casta para o seu futuro marido, Grania. Mas, se falar com o seu pai, talvez ele dê permissão. Afinal de contas, os MacEgan dariam poderosos aliados.
Do lado de fora da choupana, Riordan escutou as risadas. Ele viera falar com Póla, mas os mexericos lhe despertaram a atenção. Foi tomado de nojo só de pensar em Connor tocando Aileen. Uma fúria como jamais conhecera se apoderou dele.
Aileen era dele. Não ficara ao lado dela, consolando-a, quando Eachan morreu? Não a ajudara a cuidar de suas terras, ajudando-a a plantar o milho para a próxima colheita? Ela lhe ficara muito grata.
Riordan desistiu de sua intenção de falar com Póla. Tinha vindo em busca de conselhos sobre como prosseguir fazendo a corte a Aileen. Agora via que eles tinham ambições maiores para a filha. Connor MacEgan pertencia aos flaiths, os nobres que reinavam como chefes tribais. Casar-se com um homem como Connor elevaria a condição de Aileen muito mais do que sua própria posição de curandeira.
Mas ele amava Aileen. Ela sempre estivera em seus pensamentos, mesmo quando casada com Eachan. Sua própria mulher havia morrido de parto, mas ele sempre soube esperar. Um dia, Aileen o receberia de bom grado em sua cama, no seu coração. Ela floresceria com a semente dele e lhe daria um filho.
Ao cruzar a campina, sentiu a chuva fina caindo sobre si, molhando-lhe a túnica. Riordan sorriu, deixando que a chuva o encharcasse. Aileen o convidaria a entrar em sua casa, para aquecer-se diante do fogo. Poderia alegar ter passado ali para inspecionar os animais dela, em especial os cordeirinhos que haviam nascido na primavera.
E, ao visitá-la, não permitiria que Connor MacEgan lhe usurpasse o lugar. Póla O’Duinne estava enganada. Aileen gostava dele e, com o tempo, sua amizade se transformaria em amor. Faria de tudo para garantir isso.
Notando que a chuva ficava mais forte, Aileen cobriu o cabelo com o xale. Ela conduzia ao seu lado uma das ovelhas, pois esta havia escapado do cercado. Na outra mão, trazia um malho de madeira para consertar a cerca quebrada.
A caminhada de volta à propriedade foi lenta, pois a ovelha insistia em parar para pastar ao longo do caminho. Aileen não se importava, pois isto lhe dava a chance de remoer os próprios pensamentos. Ela passou a mão pela lã áspera do animal, empurrando a ovelha à frente.
Em menos de uma semana poderia remover as bandagens de Connor. Embora ele fosse incapaz de notar a magnitude de sua recuperação, ela estava satisfeita com o resultado. Connor recuperaria o uso das mãos, mas talvez não o suficiente para lutar de novo. Ela se encheu de orgulho diante do pensamento.
Aileen tinha uma antiga bexiga de porco que poderia encher de água. Ao apertá-la, Connor poderia flexionar os dedos rígidos. Com o tempo, seria capaz de cuidar de si novamente.
Sua pele se aqueceu diante da lembrança da noite passada. Jamais havia visto Connor despido antes, nem mesmo na noite de Bealtaine. Seu corpo poderia ter sido uma das lendárias estátuas dos deuses, esculpida em mármore. Embora não houvesse tocado nele de modo inapropriado, sua mente tinha imaginado outro tipo de noite, uma noite onde ele se apossava do seu corpo com o dele.
A ovelha abaixou a cabeça para mordiscar um pouco de grama, e Aileen descansou as mãos sobre a criatura. Não havia se dado conta do quanto sentia falta de se deitar nos braços de um homem. Embora seu marido Eachan a satisfizesse na privacidade da cama, ele nunca havia conseguido apagar a lembrança de Connor.
Não havia se esquecido do estado de excitação de Connor, e nem de seu comentário constrangedor de que o mesmo teria acontecido com qualquer mulher. Ele tinha razão, é claro. Ela estava feliz por não ter sucumbido aos próprios desejos. Um homem como Connor não sabia como ficar com apenas uma mulher. Afinal, ele não havia flertado com Grania e com as outras?
Aileen cutucou novamente a ovelha, puxando o cabresto. Ao longe, viu uma figura vindo em sua direção. A chuva havia diminuído o suficiente para ela reconhecer Riordan. Ergueu a mão para cumprimentá-lo.
— Bom dia — disse Riordan, segurando-lhe a mão e apertando-a gentilmente.
Aileen retribuiu o gesto de amizade, forçando-se a, de fato, fitar Riordan. Durante muitas semanas ele viera visitá-la, ajudando-a quando ela precisara. Era o tipo de homem que daria um bom marido, não Connor.
Aileen forçou um sorriso.
— O que o traz aqui, Riordan?
Era evidente, dado o rumo que ele seguia, que tinha vindo com a intenção de vê-la. A ovelha abaixou novamente a cabeça para comer.
— Vim dar uma olhada em seus cordeiros novos e ver se você precisava de alguma coisa.
— Estou bem, obrigada. — Aileen apontou para a ovelha. — Esta aqui decidiu abandonar o cercado e ir em busca da fortuna. Vou consertar a cerca.
— Se quiser, posso ajudar.
Ela deu de ombros, sorrindo. As intenções dele eram nobres.
— Gostaria muito.
Assim que a ovelha estava segura dentro do cercado, Aileen segurou a madeira no lugar, enquanto Riordan martelava a cavilha para fechar o buraco na cerca. Eles trabalharam em silêncio, mas ela podia pressentir que ele queria lhe dizer algo. Quando terminaram, ele enfim revelou o que o preocupava,
— Está sozinha com MacEgan sem ninguém para protegê-la.
— Proteger-me? — Ela não conseguia entender o receio dele. — Não há por que temer por minha segurança. Connor jamais se portou de modo ameaçador. As bandagens vão ser retiradas em alguns dias e, pouco depois, ele voltará para casa.
— Fico feliz em saber disso. Não gosto da idéia de você ficar sozinha com um guerreiro da reputação de MacEgan.
Aileen sacudiu a cabeça diante das preocupações infundadas de Riordan.
— As mãos dele ainda não sararam. Não há nada com que você, ou qualquer um, deva se preocupar. Ele sequer me tocou.
Mas o rosto dela corou diante da lembrança do banho de Connor.
— E você deseja o toque dele? — perguntou ele, com súbita intensidade e segurou-lhe novamente a mão, desta vez cora possessividade.
O gesto a surpreendeu.
— Não, claro que não. Ele não é diferente de nenhum outro homem ferido.
No instante em que proferiu a mentira, a mão de Riordan se apertou ao redor da sua. Aileen sentiu um arrepio diante do ciúme do homem. Pela primeira vez, teve medo dele.
— Eu não estou gostando, Aileen.
— Você está machucando minha mão — reclamou ela.
Na mesma hora ele a soltou. Confusa, Aileen esfregou os dedos. Jamais vira Riordan daquele jeito. Ele sempre havia sido gentil e se portado como um verdadeiro amigo.


Com as faces ruborizadas, ele abaixou a cabeça,
— Perdoe-me. É só que gosto de você.
Ela tentou se sentir lisonjeada com o ciúme dele.
— Eu sei.
— Mantive distância por respeito a Eachan — continuou Riordan. Sua voz se suavizou, suplicando. — Mas, deve saber que quero apenas a sua felicidade, Aileen. O destino me concedeu uma segunda chance para lhe conquistar seu coração, Aileen. E não a deixarei passar.
Ele levou a mão à face de Aileen, Ela sabia que pretendia beijá-la e forçou-se a suportar o toque dos lábios sobre os seus. Riordan era um bom homem, um homem que ela poderia desposar um dia.
Ou, no que dependesse do pai, talvez no aenach. Com quem mais se casaria? Nenhum outro homem sequer a consideraria para noiva.
Nos olhos dele havia uma avidez à espreita. Aileen tentou tranqüilizar as próprias apreensões, mas o toque dele não provocou nenhuma reação. Não do modo como o de Connor havia feito.
Ela estremeceu ao pensar em suas mãos passando pelos ombros musculosos de Connor, a pele masculina rija que a fazia ansiar por ele.
Riordan interpretou erroneamente o arrepio e aprofundou o beijo. Aileen manteve a boca fechada, quando ele tentou invadi-la com a língua.
Não importava. Ela nada havia sentido por Eachan quando se casaram, mas, com o tempo, passara a sentir afeição por ele. O mesmo aconteceria com Riordan.
Tentou retribuir o beijo, mas sua boca ficou paralisada. Algo estava errado.
Riordan afastou-se, os olhos sombrios de expectativa. Ela lhe reconheceu o ardor e a sua própria reação indiferente.
— Deve saber que me tenta — disse ele, cora as mãos descendo pelas costas dela.
— Enterrei meu marido há duas luas.
— Mas ele estava doente muito antes disso. Quanto tempo ficou acamado?
— Uma estação inteira — admitiu.
A enfermidade que lhe tomar o marido havia sido uma que ela não conseguira curar. Já vira a doença debilitante antes, uma doença contra a qual nenhuma oração ou remédio podia lutar. Eachan sabia disso.
— Deixe-me conquistar-lhe o coração, Aileen — insistiu Riordan. — Não pedirei que me dê mais do que é capaz de dar.
Ele levou as palmas das mãos dela aos lábios.
O gesto era o mesmo que Eachan fizera, muito tempo atrás. Tinha sido uma menina tola, sonhando com as afeições de Connor. Na ocasião, negou os desejos do coração, aceitando a corte de Eachan. Havia sido um bom casamento, embora ela não tivesse dado à luz mais filhos.
Mas queria outros filhos, queria encher a casa com eles. Riordan lhe daria tal oportunidade, se ela permitisse. Decerto, com o tempo, ele seria capaz de fazer seu coração estremecer do mesmo modo que Connor fazia, não seria?
Connor iria embora e, a não ser que pudesse provar o seu valor como curandeira, não teria outra escolha a não ser casar. Era melhor fazê-lo com um homem que a amasse.
— Tenha paciência comigo — sussurrou —, e pode acabar conseguindo o que quer.
A alegria no rosto de Riordan despertou um terrível sentimento de culpa. Ele acreditava que ela gostasse dele do mesmo modo como gostava dela, que era apenas o luto que a fazia hesitar.
Aileen permitiu que os braços dele a envolvessem, embora permanecesse com as mãos abaixadas. Ela fechou os olhos, esforçando-se para apagar as lembranças que Connor havia despertado.
O chefe da tribo, Seamus O’Duinne, abraçou calorosamente Connor.
— Está com uma aparência muito melhor, rapaz.
Ele havia viajado até a fortaleza do pai de criação, depois que este mandara chamá-lo. Já fazia quase sete anos desde a última vez em que havia estado lá, e a moradia parecia a mesma. Sua mãe de criação tinha pendurado tapeçarias sobre as paredes, e no canto havia um busto elaboradamente esculpido.
Connor seguiu Seamus até um ambiente privativo, onde ele o convidou a se sentar.
— Riona não está. Ela ficará decepcionada por não tê-lo visto.
Connor sorriu diante da menção da mãe adotiva. Riona sempre o enchera de mimos.
— Obrigado por ter atendido meu chamado. Temos muito a conversar. — Seamus lançou-lhe um olhar pensativo. — Em alguns dias, a aenach da estação vai começar. Pretendo apresentar seu caso diante dos brehons para obter o julgamento deles. Os O’Bannions devem responder por seus ferimentos.
Uma criada serviu um pouco de vinho em um cálice de prata. As sessões das cortes dos brehons costumavam acontecer em reuniões públicas, e a circunstância da aenach não era exceção. A feira local, embora oferecesse oportunidade para comemorações e banquetes, também era uma ocasião para assuntos de justiça mais sérios serem discutidos.
— Não desejo apresentar o caso diante da corte — argumentou Connor. — As leis dos brehons apenas exigirão uma multa, nada mais.
— É o costume do nosso povo.
— Mas não é o bastante. Não para o que aconteceu comigo. Uma dama bonita sentou-se ao lado dele e levou o copo aos seus lábios. Connor bebeu o vinho condimentado, seu sabor sazonado uma mudança bem vinda do vinho doce ao qual estava acostumado.
— O que é que você quer?
— Vingança. "Olho por olho, dente por dente."
Seamus sacudiu a cabeça, deixando bem evidente o seu desagrado.
— A aenach é o lugar para se discutir julgamentos. Não deixe sua raiva desviá-lo do rumo certo. Se os O’Bannion fizeram isso com você, é um caso simples.
— Não é tão simples — disse Connor, tenso de frustração. — Flynn O’Bannion alegará que me deitei com a filha dele, Deirdre. Sem a permissão dela.
— E se deitou?
Connor inclinou-se à frente, deixando que Connor visse as profundezas de seu ressentimento.
— Já sabe a resposta para isso. Seamus assentiu.
— Se o que diz é verdade, os O’Bannions alegarão que você deve uma corp-dire à filha dele, por lhe roubar a virtude.
— Mas ele me deve o mesmo por danificar minhas mãos. As multas se cancelarão.
— A mentira dela pode ser provada?
— É a palavra dela contra a minha.
— Humm. — Seamus tomou um gole de seu vinho. — Sua reputação com as mulheres não ajuda muito. Muitos poderiam entender como Deirdre foi seduzida.
— Nunca encostei um dedo nela.
— Se é o que diz. Mas, isso vai ser difícil de provar. Um preço por todo o corpo será exigido.
— Não quero corpdíre — disse Connor, baixando a voz. — Quero a morte dos O’Bannions.
O rosto de Seamus ficou sério.
— Está dizendo tolices. — Ele fez um sinal para que a criada os deixasse. Quando se viram sozinhos, acrescentou: — Isso é um assunto para as cortes decidirem.
— Um bando de advogados debatendo não vai trazer de volta minhas mãos.
— E assassinato vai? — indagou Seamus.
— Vai fazer eu me sentir melhor. O pai de criação sacudiu a cabeça.
— Sempre teve uma disposição sombria, Connor. Mas o sangue dos O’Bannions apenas traria a guerra.
Ele ficou de pé e conduziu Connor para fora.
— Como estão as mãos? Vai ser capaz de lutar novamente?
— Não sabemos. Mas vi os ferimentos...
Sua voz se interrompeu. Os dedos retorcidos jamais seriam capazes de pegar uma espada. Se houvesse lhe tirado a vida, Flynn O’Bannion não poderia tê-lo destruído de modo mais absoluto.
— Pedirei aos monges que rezem por você — disse Seamus. — E, caso queira ficar conosco, minha oferta ainda está de pé.
— Prefiro o isolamento da cabana de Aileen.
Seamus franziu a testa, mas não colocou em palavras sua opinião. Ele acompanhou o filho de criação até a porta.
— O que fará se Flynn O’Bannion vier à aenach?
— Os brehons podem julgar o que bem entenderem nas cortes. — Um sorriso sombrio apareceu no seu rosto. — Minha própria forma de justiça virá mais tarde.
— Está pronto? — perguntou Aileen.
Os dias haviam passado, e era chegada a hora de retirar as bandagens de Connor.
Ele estendeu as mãos para ela, e Aileen lentamente desenrolou as faixas. No rosto dele ela podia enxergar as dúvidas. Uma a uma, soltou as talas. Por fim, revelou as mãos dele.
Embora a pele ainda estivesse com o mesmo tom acinzentado, os dedos de sua mão esquerda estavam alinhados. Ela dobrou cada um deles para testar os movimentos.
— Dói? — perguntou.
— Estão duros.
Ela fez um punho fechado com a mão dele, sorrindo ao ver que os dedos se alinhavam paralelos um ao outro, exatamente como deveriam.
A mão direita estava em pior estado. Os dedos não estavam do tamanho correto, e ela sabia que isso era devido ao horrível esmagamento que estes haviam sofrido.
Connor tentou flexionar os pulsos. A mão esquerda movia-se livremente, enquanto o pulso direto movimentou-se apenas um pouco.
— Com o tempo, vai melhorar — garantiu ela.
Sob a expressão do rosto dele, Aileen detectou uma terrível fúria.
— Quanto tempo? Ela sacudiu a cabeça.
— Não sei. Depende de muitos fatores.
Ele moveu os dedos, esforçando-se para forçá-los à antiga flexibilidade. A mão direita movia-se muito pouco, o que só fez lhe aumentar a frustração.
— Não posso lutar deste jeito. — Tentou pegar uma caneca de madeira, mas os dedos se recusaram a se fechar ao redor do objeto. — Não vou nem conseguir segurar uma espada, quanto mais manejá-la.
— Como disse, vai levar tempo.
— Não tenho tempo, Aileen. Perdi quase dois meses de minha vida enquanto Flynn O’Bannion fica gordo e satisfeito.
— Não pode estar pensando em enfrentá-lo.
— Pretendo enterrar minha espada no seu coração pelo que ele fez comigo.
— E, quando o fizer, vai achar que ganhou? Você não tem forças para uma luta dessas.
— Neste caso, a culpa é sua.
— Minha? — Ela não podia acreditar que ele tivesse a ousadia de criticá-la. — Não fui eu quem lhe fiz mal. Eu salvei as suas mãos.
— Se tivesse mais experiência como curandeira, talvez eu ainda pudesse segurar uma espada.
— Mais experiência? — A arrogância dele a deixava furiosa. Kyna a treinara nas técnicas de cura desde que ela era uma criança. Ela permanecia confiante em suas habilidades, apesar do que os aldeões pudessem dizer. E este guerreiro ousava duvidar dela? — Qualquer outra curandeira teria lhe amputado as mãos. Você teria sangrado até a morte.
— Seria melhor morrer do que viver assim,
Ele abriu bruscamente a porta e deixou a cabana. A porta de madeira bateu atrás dele, sacudindo o batente.
A raiva de Aillen a fez tremer. Ela pegou a caneca de madeira e a arremessou contra a parede, desejando que pudesse acertar a cabeça dele. Connor não fazia idéia de como seus ferimentos haviam sido graves.
Sua raiva apenas aumentou quando pegou as talas e as bandagens e as arremessou na lareira. Enquanto as chamas queimavam tudo, ela rasgou outro pedaço de pano, fazendo novas tiras para as bandagens. O ato de destruição lhe ofereceu um meio de extravasar a raiva.
Connor era um homem impaciente. Ele não conseguia enxergar o que havia recebido. Tudo que via era o que havia perdido.
Os dedos retorcidos da mão direita o lembrariam para sempre de sua deformidade. Ele era incapaz de enxergar além. Sua vaidade não permitia.
Lágrimas fizeram os olhos dela arder. De algum modo, sempre acreditara que Connor MacEgan não era apenas um guerreiro bonito. Aparentemente, estava enganada.




Capítulo Oito



Connor voltou para o bosque, o sol da tarde lhe aquecendo o rosto. Ele agachou-se e ergueu de chão um grosso galho de árvore caído com a mão esquerda. Com esforço, conseguiu segurá-lo, embora o pulso doesse. Com movimentos lentos, rodou o pulso, cerrando os dentes diante da dor.
Tentou usar a espada improvisada para dar uma estocada. Uma onda de dor percorreu os músculos atrofiados, mas ele se forçou a continuar.
Havia tentado trazer a espada de Trahern, mas não tinha a força necessária para arrastá-la para fora da cabana das enfermidades. Em vez de danificar a espada, preferiu deixá-la para trás. Passaria os primeiros dias recuperando a força das mãos.
Embora o galho não parecesse natural na sua mão esquerda, pelo menos conseguia segurá-lo. Quando tentou transferir o ramo para a mão direita, ele despencou no chão.
Frustração e dúvidas minaram a sua autoconfiança. Por fim, com as mãos doloridas devido ao esforço de lutar, sentou-se novamente no pé de um carvalho. Ele enxugou o suor da testa, notando as gotas de sangue nas mãos. Aileen teria de tratar das bolhas.
— Pensar nela lhe devolveu a calma. Não tivera a intenção de expressar sua opinião em voz alta. Ela possuía grandes habilidades como curandeira, mas não eram o suficiente para ele.
Connor queria um milagre. Quando Deus não lhe atendeu o pedido, havia descarregado sua frustração na única pessoa que havia tentado ajudar. Arrependia-se de suas palavras, mas elas eram verdadeiras. Ele duvidava da habilidade dela, de sua experiência. Se ela fosse mais velha, será que ele teria mais força nas mãos?
Um estalo e uma batida baixinhos chamaram a sua atenção. Estendeu a mão na direção do galho, mas relaxou ao ver que era o menino que conhecera antes. Whelon, lembrou-se.
— O que quer? — perguntou Connor.
O menino usava um par de muletas para locomover-se, e as folhas farfalhavam com os movimentos. Ele fitou Connor, e seu olhar se fixou sobre o galho grosso.
— O que houve com a sua espada?
Connor não quis admitir a incapacidade de trazer a espada de Trahern da cabana. Em vez disso, contou uma versão da verdade.
— Ela me foi roubada. Pelos mesmos homens que me esmagaram as mãos.
— Normandos?
— Os O’Bannion — corrigiu Connor. Whelon estendeu a mão.
— Posso segurá-lo?
Com a mão esquerda, Connor estendeu o galho para o menino. Ele tinha a mesma altura do garoto e era tão grosso quanto o pulso dele. Esboçando um sorriso, Whelon o estendeu.
— É assim que treina?
A intensa avidez do menino o encheu de humildade. Por que o garoto haveria de sonhar com um treinamento de guerreiro quando não possuía uma perna para se sustentar?
— É parte do treinamento.
— Ensine-me.
Whelon devolveu o ramo para Connor. Ele hesitou, sem querer ofender o menino.
— Não acho que eu possa. Sua perna...
— Eu tenho outra boa.
— Tem mesmo. Mas um espadachim deve possuir bom equilíbrio e jogo de pernas para ser bem-sucedido em combate. Receio que...
— Tem medo de que eu acabe morrendo se tentar aprender a manejar uma espada — adivinhou Whelon. — Não precisa ter receio. Posso aprender equilíbrio.
— Resistência e velocidade também são necessários.
Connor se recusava a esconder a verdade. Se o menino queria treinamento, tinha de confrontar a realidade de suas habilidades.
— Resistência eu tenho — contra-argumentou Whelon. — Caminhei até aqui para encontrá-lo.
— Como sabia que eu estava aqui?
— Eu o vi deixando a choupana de Aileen. E já o vi treinar aqui antes.
Connor não gostava da idéia de ser observado, muito menos por um menino que tinha noções falsas de suas próprias habilidades. Ele sacudiu a cabeça.
— Não posso treiná-lo.
Whelon parecia querer argumentar, mas conteve a língua. Uma expressão digna de pena cruzou-lhe o rosto.
— Pensei que você poderia entender. Acho que estava errado.
O menino não olhou para trás, mas usou as muletas para cambalear para fora do bosque. No limite do horizonte, o sol margeava a clareira com dourado e escarlate. Connor ficou de pé, passando sobre o galho caído. Independente de um homem não ter uma perna ou ser incapaz de usar as mãos, o resultado era sempre o mesmo. Ele não tinha o direito de ser um guerreiro.
Com apenas uma frase assassinara as esperanças do menino. Será que isso o tomava melhor do que os O’Bannions? A sensação de culpa se instalou em seu âmago, e ele desejou ter sido capaz de conter a língua. Whelon era uma criança, não um homem. Ele não tinha o direito de negar ao menino uma chance de tentar.
— Whelon! — gritou, correndo até a entrada do bosque. Na base da colina, o menino virou a cabeça. — Amanhã, ao raiar do dia, encontre-me aqui.
A alegria luminosa no rosto do menino o surpreendeu. Por um instante, entendeu por que Aileen queria dar esperança ao garoto.
Connor suspirou. Os dois dariam uma bela dupla. Um menino sem a perna e um homem sem as mãos.
Esperança era algo raro, que tão poucos possuíam. Embora pudesse estar cometendo o maior dos erros ao permitir que o menino sonhasse, sentiu o coração se enternecer.
Aileen adentrou o círculo de pequenas choupanas com os nervos tensos. Queria ver a prima, Bridget, cujo filho estava para nascer a qualquer momento. Bridget não lhe solicitara a presença, mas Aileen esperava que ela não se recusasse a recebê-la.
O martelo de Frasier O’Duinne pendia sobre a bigorna, fumaça saindo da lareira enquanto ele dava forma a ferraduras. Ele fitou Aileen, mas não a cumprimentou. A tensão apoderou-se ainda mais dela.
Lá dentro, Bridget estava sentada ao lado do fogo, conversando com uma mulher mais velha de cabelos escuros. Pelo tamanho de sua barriga, Aileen pôde dizer que não faltava muito tempo. Ela avaliou o tamanho da criança, notando que Bridget havia perdido a rotundidade da metade de sua gravidez. Dava para se notar joelhos e cotovelos salientes em sua barriga.
— Olá, Bridget — ela cumprimentou a prima. As mulheres pararam de falar e a fitaram.
— Já foi apresentada a Illona, a nova curandeira? — perguntou Bridget.
Apesar de tomada de amargura, Aileen esforçou-se para aceitar o abraço e o beijo de cumprimento em sua face da mulher O’Bannion. Illona parecia ser da mesma idade que a mãe dela, com rugas discretas nos cantos dos olhos.
— Soube que já foi a curandeira em Banslieve — disse Illona.
O comentário direto não tinha um traço de crueldade, mas atingiu o ponto fraco de Aileen. Ela teve vontade de gritar, ainda sou a curandeira deles. Mas apenas assentiu.
— Como está se sentindo? — perguntou Aileen, voltando a atenção para a prima.
— O bebê chegará muito em breve — disse Illona. — Sem dúvida alguma nos próximos dias,
— Minha prima pode falar por si mesma — retrucou Aileen. Bridget parecia constrangida.
— Estou cansada. Não tenho dormido muito bem nas últimas noites.
— Posso ver?
Bridget hesitou, seu olhar rapidamente voltando-se para Illona. A mulher assentiu, e a frustração tomou conta de Aileen. Por que sua própria prima buscaria a permissão de uma desconhecida?
Ela mordeu a língua, contendo a raiva.
A cabeça do bebê estava corretamente posicionada para baixo, e Aileen manteve as mãos sobre a barriga de Bridget. Com o tempo, um ligeiro movimento confirmou que tudo estava bem.
— O bebê se mexe muito dentro de você? Bridget sacudiu a cabeça.
— Ele tem estado quieto nos últimos dias. Mexe-se quando vou me deitar, à noite, mas raramente o faz durante o dia.
A falta de movimento costumava indicar um nascimento iminente. Muitas vezes, Aileen tivera de tranqüilizar mulheres apavoradas, grávidas de primeira imagem, que isso era normal. Restava muito pouco espaço no útero.
Mas Bridget já tivera três filhos e seus olhos mostravam a serenidade de quem sabia que tudo estava correndo como devia. Aileen sabia que seu parto seria breve. Os outros bebês vieram em questão de horas, e não seria diferente com este.
— Se quiser ajudar no parto, posso mandar chamá-la — ofereceu Illona. Um outro par de mãos sempre é bem vindo.
— Talvez.
Ela cerrou os punhos para manter a raiva sob controle. A mulher simplesmente havia tomado o lugar dela, e agora esperava que Aileen a ajudasse, seguindo suas ordens?
Notando a tensão entre as duas mulheres, Bridget indagou:
— Vai comparecer à aenach, Aileen?
— Rachaidh mé. Vou participar do conselho de mulheres.
Embora como membro do conselho pudesse ouvir queixas e sugerir soluções, isso não era o bastante para ela. Queria estar lá na qualidade de curandeira, reunindo-se com as outras mulheres e discutindo tratamentos. Ter isso tirado dela era como se houvesse perdido a melhor parte de si.
— Verá sua filha Rhiannon lá, é claro — acrescentou Bridget. — Isso deve deixá-la muito feliz.
Aileen havia esquecido. É claro que Lianna traria Rhiannon. Todos os membros da tribo O’Duinne compareciam à aenach, sem exceção. As comidas, as mercadorias e os jogos encorajavam todos a participar.
— Sim, é claro — murmurou, tomada de pânico no seu íntimo. Será que Connor reconheceria Rhiannon como a própria filha? Será que ela deveria alertar Lianna? Ou era melhor manter Rhiannon longe da aenach?
Sua mente pensou na confusão dos dias seguintes. Por que não havia pensado nisso antes? Nem queria pensar na possibilidade de ter que explicar seus atos para Connor caso ele adivinhasse. E, sem dúvida, ele adivinharia, pois Rhiannon tinha os olhos e o rosto do pai.
Seus temores se enroscaram como uma cobra ao redor de seu coração. Não podia evitar Rhiannon na aenach, e nem queria fazê-lo. Embora isso pudesse fazer Connor se dar conta do momento roubado, não havia nada que ela pudesse fazer a respeito.
As palavras cruéis que ele havia proferido naquela manhã voltaram para assombrá-la. Como Seamus, ele a culpava por sua perda. Se viesse a descobrir o que havia acontecido na noite de Bealtaine, ficaria furioso. Embora não se importasse em ser alvo da fúria dele, tinha de proteger Rhiannon.
Como verdadeiro pai de Rhiannon, ele possuía certos direitos perante a lei. Poderia exigir que Rhiannon fosse mandada para a própria família para tutela até atingir os 14 anos de idade. Depois disso, poderia providenciar o seu casamento com quem bem entendesse. Todo o futuro de Rhiannon estaria em suas mãos, e Aileen nada poderia fazer a respeito. Ela se recusava a ficar parada e deixar que ele tomasse todas as decisões sem opinar.
Caso Connor viesse a descobrir, ela não tinha dúvidas de que ficaria furioso, A questão era: será que tinha a coragem para lhe contar antes que ele descobrisse a verdade por conta própria?
Estava ficando tarde, e ela se despediu de Bridget. Não conseguiu se forçar a dizer nada para Illona. Ao caminhar para casa, a ansiedade de ver Connor aumentou.
Embora estivesse tentando se preparar, seu estômago ardia diante do constrangimento de compartilhar uma refeição com ele. Mais uma vez, perguntou-se se deveria ou não contar-lhe a respeito de Rhiannon.
Suas faces arderam diante da perspectiva de admitir que trocara de lugar com Lianna. Será que o rosto dele se transformaria de repulsa? Será que a odiaria por enganá-lo?
Pensou no modo como ele a beijara na outra noite, acendendo sentimentos que há muito pensava esquecidos. Ele não era mais o jovem inexperiente por quem fora apaixonada, mas havia se tomado um perigoso guerreiro. Se permitisse que ele fizesse amor com ela, os antigos sentimentos poderiam retomar.
Já deveria saber que não poderia confiar seus sentimentos a Connor MacEgan. Embora ele a houvesse tentado, em breve iria embora. E, quando ele houvesse partido, ela não queria ver sua vida familiar destroçada.
Aillen demorou-se no trajeto até a choupana, o sol desaparecendo atrás de escuras nuvens púrpuras. No céu, as nuvens da chuva que se aproximava davam ao ar um abundante aroma de natureza. Quando por fim alcançou a propriedade, viu uma coluna de fumaça saindo da chaminé de sua pequena choupana.
Lá dentro, encontrou Connor sentado no chão com as pernas compridas estendidas diante de si. Seu cabelo estava úmido, como se houvesse acabado de nadar no rio. Uma gota de água rolava pela lateral do rosto, trazendo a lembrança da noite em que ela o havia banhado. Ela fechou os olhos, esforçando-se para bloquear a imagem sensual.
Nas mãos, Connor estava segurando a bexiga de porco. Ele a apertava, concentrando toda a atenção no exercício. Seu rosto estremecia quando tentava dobrar os dedos. Ela deveria preparar um chá de cura para aliviar a dor, talvez acrescentar mel para adoçar o gosto amargo.
Por outro lado, por que haveria de fazer qualquer coisa para ele, quando Connor havia falado com tanta grosseria com ela naquela manhã? Ele não merecia nada dela.
Pensou subitamente na nova curandeira, Illona, e só pensar na nova substituta já doía. Apesar do que os aldeões pudessem pensar, no seu coração sempre seria uma curandeira. E, era por isso, decidiu, que prepararia a bebida para Connor. Porque era a coisa certa a fazer, aliviar o sofrimento de um homem, quando sabia ser capaz disso.
Aileen tirou a brat, e a colocou de lado. Connor ficou de pé quando ela se aproximou, em um gesto silencioso de respeito. Em nada contribuiu para fazê-la sentir-se melhor; em vez disso, aumentou sua ansiedade a respeito do que diria para ela.
— Dia dhúit — cumprimentou.
Connor retribuiu o cumprimento e estendeu a mão para segurar a de Aileen. A mão esquerda apertou ligeiramente a dela. Ele estava tentando esconder o esforço que um gesto tão simples exigia. Ainda assim, os olhos treinados de Aileen notaram a tensão nos músculos do antebraço. Foi então que notou as bolhas na palma avermelhada da mão do guerreiro. O que ele havia feito consigo mesmo?
— Disse algumas palavras hoje de manhã que não foram gentis. Peço que me perdoe por elas.
Sua voz estava carregada de arrependimento, mas foi a ligeira carícia de seu polegar na palma da mão de Aileen que lhe dissipou a raiva. Seus olhos acinzentados ofereciam um pedido de desculpas, e seu foco voltou-se para a boca de Connor.
A chocante lembrança do beijo ardente deixou sua pele arrepiada. Quando ele lhe soltou a mão, ainda podia sentir o calor da dele, e, que Deus a ajudasse, Aileen queria mais.
— Estou perdoado? — Ele lançou-lhe um sorriso sensual que teria feito a maioria das damas desfalecer.
Em resposta, ela se empertigou. Por Danu, tinha mais bom senso do que isso.
— Não sei. Ainda não decidi — respondeu.
— Pensei que poderia acontecer. Foi por isso que lhe trouxe um presente.
Connor caminhou até a outra extremidade da choupana. Pegou um pacote embrulhado em um pano e o estendeu na direção dela.
Aileen não sabia o que dizer. Embora o pedido de desculpas fosse sincero, por detrás das palavras encontrava-se a verdade não mencionada. Ele tinha dúvidas quanto ao talento dela, acreditando que não tinha a experiência de Kyna. Ele não conseguia enxergar a presença de qualquer movimento como um milagre, apenas como perda.
Aileen forçou-se a engolir o orgulho. Seria necessário haver paz entre os dois, antes que ela pudesse revelar o próprio segredo.
— Não precisava me dar um presente. Aceito seu pedido de desculpas.
— Abra.
Quando ela abriu o embrulho, encontrou lá dentro um pedaço de fita verde-escura. Feita de seda, era o tipo de presente que um amante poderia dar para uma mulher.
Era uma grande ironia, pois já haviam sido amantes, só que ele não sabia disso.
— Muito obrigada — conseguiu dizer.
— Foi sua mãe, Póla, quem sugeriu, quando falei com ela hoje. Ela pensou que seria um presente adequado. — A boca de Connor estendeu-se em um sorriso mortificado. — Embora minha própria mãe provavelmente preferisse jóias. Se tivesse o dinheiro, teria lhe dado uma.
— Isto é lindo.
Aileen guardou a faixa e escondeu de Connor o olhar constrangido. Ele a fazia se comportar como uma menina alvoroçada. Sua presença imponente não havia diminuído nem um pouco, apesar das mãos feridas. Ele apoiou-se na parede, e ela notou como a túnica se esticava na altura do peito largo. Nem um grama de gordura se agarrava aos músculos esculpidos.
Queria alisar aquele peito com as mãos, provar mais uma vez de seus beijos. Queria a sua pele nua encostando na dela.
Aileen afastou os pensamentos prazerosos, tentando se recompor.
— Trouxe alguns peixes — disse ele, apontando para uma fileira de trutas penduradas perto da porta. — Tentei limpá-los. Infelizmente, estava fazendo a maior sujeira, de modo que parei.
Mortificado, ele ergueu as mãos em sinal de rendição.
— Como foi que os pescou?
— Por mais que eu gostaria de poder dizer que foi obra minha, o jovem Whelon e o seu amigo, Lorcan, os trouxeram para mim hoje à tarde. Eles me deram o peixe em troca de minha promessa de treinar ambos, amanhã de manhã ao raiar do dia.
— Você? — Caso ele houvesse alegado ter a intenção de caminhar sobre a água, Aileen não poderia ter ficado mais surpresa. — Como pode treinar os meninos?
Enquanto conversavam, ela limpava os peixes. Usando sal e ervas recém-esmagadas, temperava os filés.
— Talvez não possa demonstrar minhas habilidades, mas ainda sou capaz de treinar homens.
— Eles são meninos, não homens. Meninos que vão crescer para arar os campos e colher a saíra, não se matarem uns aos outros.
Aileen pôs os peixes no espeto, colocando-os para assar sobre o fogo.
— Não há nenhum mal em treiná-los. E é tudo que posso oferecer a eles.
Seu tom defensivo a forçou a conter a língua.
Quando os peixes acabaram de cozinhar, Aillen serviu os filés em um prato, acompanhados de uma grossa fatia de pão e ervilhas frescas. Eles comeram sentados à mesinha baixa, os joelhos dela a uma cuidadosa distância dos dele.
— Precisa de ajuda para comer? — perguntou Aileen.
— Não.
Aileen lhe ofereceu uma faca para comer, que Connor aceitou. Usando a mão esquerda para cortar, esforçou-se para fatiar um pedaço do filé de peixe.
Um silêncio constrangedor tomou conta do aposento.
— Vai comparecer à aenach amanhã? — perguntou Connor, por fim.
— É claro. Todo mundo vai.
— Suponho que sempre haja necessidade de uma curandeira durante os jogos. Ele sorriu. — Ainda mais com os homens tentando se matar uns aos outros por causa de uma dama.
— Não tenho mais permissão para curar — disse ela, baixinho. Sem querer, lágrimas indesejadas brotaram nos seus olhos. — Sinto muito, mas é que fico furiosa. É o que sou. Não consigo deixar de ser uma curandeira, assim como...
— Assim como eu não consigo deixar de seu um guerreiro?
A pergunta a fez se calar. Pela primeira vez entendia a perda de Connor. Silenciosamente, tomou as mãos dele nas suas, traçando com os dedos os ossos retorcidos, a pele vermelha inflamada.
— Juro para você que fiz tudo que podia para curar suas mãos. — Ela baixou a cabeça, desejando que, de algum modo, ele pudesse enxergar a verdade. — Espero que tenha sido o suficiente.
— Eu também.
Ele estendeu a mão e gentilmente enxugou as lágrimas de Aileen. Embora Connor aparentasse estar pouco à vontade com as mãos deformadas, ela não se importava. Cobriu as mãos dele com as suas. Acariciando-lhe a pele suavemente, ela viu a expressão do rosto dele se transformar. Ele parecia um predador, um guerreiro determinado a conquistar.
Depois hesitou, como se recuperando o autocontrole.
— Talvez amanhã encontre um novo marido para cuidar. Há muitas competições para os homens.
Ela o soltou e ficou de pé, percebendo que ele não pretendia beijá-la. Apenas na sua imaginação poderia ter pensado que ele a desejava. Ela se protegeu do constrangimento.
— Homens tentando provar sua força — admitiu. — Quanta idiotice.
— Foi assim que Eachan lhe conquistou o coração? Demonstrando suas habilidades em uma competição?
Ela empalideceu diante da pergunta, pois ele não poderia estar mais enganado. Ela fez pouco caso da insinuação dele, dizendo apenas:
— Não, ele foi o único homem que me pediu em casamento.
— Tenho lá minhas dúvidas no tocante a isso. Já vi como Riordan olha para você.
— Ele já havia se casado com outra.
— Neste caso, quem saiu perdendo foi ele. — Suas palavras eram sinceras, deixando-a ainda mais constrangida. Antes que Aileen pudesse dizer algo, Connor levantou-se e aproximou-se por trás dela. — Haverá lutas de espada nas competições de amanhã.
— Não para você — alertou ela.
Embora não acreditasse que Connor fosse tolo o bastante para aceitar, muitos homens iriam querer desafiá-lo. Alguns aproveitariam de bom grado a chance de vê-lo humilhado no combate simulado. Deu-se conta de que Riordan poderia ser um deles.
— Tenho uma batalha diferente para travar — disse ele, de repente. Eu também, pensou ela.
Connor adiantou-se na direção de Aileen, passando o braço ao redor da sua cintura. Sob o brilho suave do lampião, ele parecia o próprio Belenus, o deus do sol. Olhos acinzentados fitaram os dela com desejo contido.
A sensação dos braços dele ao redor da cintura, o rosto a centímetros do dela, a deixou toda arrepiada. O perfume de pinho de Connor lhe invadiu os sentidos. A boca firme do homem inclinou-se, pairando sobre a dela. Aileen podia lhe sentir a respiração nos lábios.
— Se eu a beijasse de novo, você resistiria?
Ela ficou completamente imóvel, receando o beijo, e no entanto temendo ainda mais o poder que ele exercia sobre ela. Será que deveria roubar este momento com ele e se apoderar do prazer que desejava?
— E por que iria querer me beijar?
— Você é uma mulher linda.
Ele roçou levemente um beijo na sua boca, o suficiente para tentá-la. Suas roupas começaram a ficar pesadas sobre a pele, os seios se intumesceram de desejo. No interior da intimidade da choupana, o ar parecia carregado de ardor. Sentiu o desejo dele e sua própria feminilidade reagiu umedecendo-se.
Ela fechou os olhos, desejando ter forças para empurrá-lo para longe. Ou, pelo menos, lhe pedir que voltasse para a cabana das enfermidades.
— Não devíamos — sussurrou, provando-lhe a boca ao proferir as palavras de protesto.
— Não, não devíamos.
E ele se apossou de seus lábios, beijando-a profundamente. O toque saboroso de sua língua na dela, assim como o calor de sua boca, despertaram cada lembrança, cada instante roubado de Bealtaine. Ela o desejava ainda mais agora, este homem que outrora amara.
Trêmula, interrompeu o beijo. Seu vigoroso corpo musculoso se apertava contra o dela, suas coxas fortes sustentando as pernas bambas de Aileen. Se ela concedesse permissão, ele faria amor com ela.
E se a noite resultasse em outro filho? Seria que também mentiria a esse respeito?
Culpa e covardia travavam uma batalha em seu íntimo, enquanto os lábios dele exploravam-lhe a garganta.
Conte para ele, o coração insistiu. Ele havia pedido perdão pelo que tinha dito e oferecido de bom grado a sua amizade. Decerto não faria mal à própria filha, mesmo que estivesse zangado. Se pretendia lhe contar, a hora era esta.
Ela deu um passo atrás, rezando com todas as fibras de seu ser para que ele não a condenasse.
— Connor, lembra-se do último ano de sua tutela? Da noite de Bealtaine, quando você...
— Eu me lembro. — A raiva enrugou-lhe o rosto. — Não é uma noite da qual eu gostaria de falar.
Suas palavras a perfuraram como uma espada. Ela apanhou os pedaços quebrados de sua coragem e se forçou a terminar.
— Há algo que preciso lhe contar a respeito dela. Sobre Lianna e... e a noite em que honraram os deuses.
Ela acalmou a respiração, grata pelo interior pouco iluminado da choupana. Ele não podia lhe enxergar a humilhação, a medo que a dominava.
Apesar de tudo, não se arrependia de nada. Embora houvesse sido errado esconder a verdade dele, agora tinha uma linda filha. Sua única filha havia sido concebida naquela noite.
— Quando se deitou com Lianna...
— Não me fale daquela noite. — Ele inclinou-se à frente, revelando uma fúria gelada que ela jamais soubera que ele possuía. Era como se Connor já soubesse o que ela ia dizer. Seus olhos acinzentados viraram gelo, a expressão fria de um mercenário. — Há anos que tento esquecer cada instante dela. Ela não passou de um erro.
Diante do golpe invisível de suas palavras, as unhas de Aileen se fincaram profundamente na palma das próprias mãos. Havia feito amor com ele naquela noite, acreditando ser isso uma oferenda apropriada para os deuses. Assim como seu corpo, os campos também haviam ficado férteis para receber a próxima safra.
Enquanto tirava automaticamente a mesa, Aileen conteve as lágrimas. Será que havia sido uma amante tão inepta na noite em que o recebera nos braços? Ela a havia despertado para as maravilhas do amor. Mas, para ele, não havia sido igual.
Embora não lhe houvesse contado nada, Connor deixara uma coisa bem clara. Ele não gostaria de saber da filha. Bealtaine havia sido para ele apenas mais um festival entre muitos.
Ela jamais tocaria no assunto, e nem admitiria o que havia feito. Se ele a acusasse quanto a Rhiannon, apenas negaria. Sabia que Lianna faria o mesmo. Independente do que acontecesse na aenach, tinha de proteger a filha.



Capítulo Nove



Connor pisou em falso durante o treino dos dois meninos com as espadas improvisadas. Lorcan atingiu o galho de madeira com força, não demonstrando misericórdia alguma para com o amigo. Connor corrigiu a postura de Whelon.
— Mantenha seus olhos em Lorcan. Jamais olhe para baixo, pois será a última vez que porá os olhos no inimigo. Encontrará a espada dele enterrada em sua barriga.
Whelon usava uma vara de madeira amarrada ao cotoco de sua perna direita. Apesar de ela ser útil, Connor questionava a sabedoria de compartilhar seu conhecimento com o menino. Whelon não seria capaz de participar de uma batalha. Seu sonho de se tomar um lutador jamais aconteceria.
No entanto, Connor tirava satisfação de ensinar o menino. Via um orgulho selvagem no rosto de Whelon, a necessidade de provar suas habilidades. Era como olhar para si mesmo quando criança.
Com ambas as mãos, Whelon girou e atingiu a lateral do galho de Lorcan. O golpe pegou Lorcan de surpresa e ele foi ao chão.
Um sorriso apareceu no rosto de Whelon e ele estendeu a mão para ajudar o amigo a se levantar.
— Muito bem — disse Connor.
Os meninos lutaram novamente, soltando gritos de guerra. O treinamento havia se transformado em brincadeira. Connor permitiu que os meninos continuassem a brincar. Com ainda mais bolhas nas palmas, suas mãos doíam devido ao treinamento do dia anterior.
Após a noite passada, não tivera oportunidade de falar com Aileen sobre elas.
Apanhou um galho de árvore, usando o pé como apoio para arrancar os gravetos a mais. Os dedos da mão direita ainda não se moviam como ele queria, forçando-o a usar a esquerda. Embora houvesse treinado para lutar com ambas as mãos, preferia muito mais usar a direita.
Connor forçou os dedos a fechar ao redor do galho, cerrando os dentes para controlar o movimento. Tendões contraíram-se e esticaram-se, seu pulso tremendo enquanto se esforçava para mover o galho como se fosse uma espada.
Enquanto fazia o exercício, pensou mais uma vez em Aileen. Ela quisera lhe contar algo sobre Bealtaine, e ele se recusara a escutar. Lembrou-se da manhã seguinte, quando encontrou Lianna com os seios desnudos nos braços de Tomás. Foi um momento de humilhação que jamais havia esquecido, e não tinha vontade de desenterrar o passado.
Agora, era Deirdre O’Bannion quem despertava a sua ira. Se ela fosse um homem, ele já a teria desafiado por ter contado tamanhas mentiras para o pai.
Connor golpeou uma árvore com o galho, estraçalhando a madeira. O impacto fez com que uma explosão de dor lhe percorresse o pulso e o braço, e ele gemeu. Os meninos interromperam a brincadeira, mas ele sacudiu a cabeça para não preocupá-los.
Não sabia se eles haviam solicitado permissão para estar ali, e já estava na hora de se unirem aos preparativos para a aenach. Os pais de criação deviam estar procurando por eles. Connor os mandou embora, prometendo outra lição em mais alguns dias.
— Você vem à aenach, não vem? — perguntou Whelon, com os olhos jovens cheios de esperança.
— Tá. Mas não vou tomar parte nos jogos.
— Ninguém, espera que o faça — comentou Lorcan, emitindo outro grito de batalha agudo.
Ele caminhou ao lado de Whelon, sem se incomodar de se mover no ritmo mais lento do amigo.
Connor examinou a mão direita, depois que os meninos haviam ido embora. Era uma tolice achar que poderia manejar uma espada do mesmo modo que sempre o fizera. Os músculos enfraquecidos recusavam-se a obedecer. No pulso e na palma das mãos, estudou as cicatrizes de batalhas passadas. Cortes e arranhões cobriam ambos os lados. Cada um deles um lembrete para não perder a concentração durante a luta. Alguns foram conseguidos em batalhas, estes mais valiosos do que os outros. Ele havia sobrevivido, enquanto outros morreram em suas mãos.
Ao caminhar pela floresta, forçando a passagem pelos galhos menores, seus pensamentos se voltaram para os O’Bannion. Hoje, o tribunal dos brehons ouviria o caso e daria o seu julgamento.
Seamus O’Duinne acreditava que ele deveria aceitar o corpdíre e dar o assunto por encerrado. Connor preferia "olho por olho, dente por dente". Ou, neste caso, mãos por mãos. Ele apressou o passo, correndo na direção da choupana de Aileen. O exercício satisfez sua vontade de trabalhar todos os músculos.
Ao chegar à choupana de Aileen, avistou-a do lado de fora com os animais. No céu do meio da manhã, nuvens escuras anunciavam chuva.
Ele reduziu o ritmo ao chegar ao topo da colina, observando-a. Mechas escuras de seus cabelos voavam ao vento matinal, enquanto ela dava de comer aos animais. Despejou um balde de trigo cm uma pequena gamela, guiando a boca do cavalo até ela. Suas mãos alisaram o pelo do animal, e Connor ficou paralisado diante da visão. Como se pressentindo sua presença, ela virou-se na direção dele
Algo no íntimo de Connor parou. Por mais de duas luas morara com esta mulher e já havia visto como ela era de tirar o fôlego. Com pele clara e olhos sábios que pareciam capazes de enxergar através dele, havia algo de etéreo nele.
O vestido de lã azul acentuava a cor de creme da léine, e seus pés estavam descalços. Ao caminhar em sua direção, a moça sorriu, mas o sorriso não lhe alcançou os olhos.
— O que queria me contar sobre o Bealtaine? — perguntou ele.
O balde caiu de suas mãos, espalhando o trigo no chão. Uma expressão de surpresa dominou o rosto dela, um temor que Aileen logo tratou de disfarçar.
— Não acreditaria se eu lhe contasse. Não importa agora. Acho que é melhor deixar certas coisas no passado.
Ele não acreditou. Sua fala apressada e o modo como evitou fitar-lhe os olhos o deixaram desconfiado.
Ele curvou-se e endireitou o balde, os dedos esforçando-se para se curvaram ao redor da madeira. Embora houvesse tentado forçar os dedos a segurarem a alça, foi forçado a levantá-lo com o antebraço.
— Incomoda você, o que aconteceu naquela noite?
No dia, a raiva o deixara completamente absorto, mas lembrava-se de ter lhe visto o rosto pálido e amedrontado, naquela manhã. Será que alguém a havia forçado a alguma coisa? Sentiu uma escuridão brotar no seu âmago só de pensar em alguém fazendo mal a Aileen.
As faces de Aileen estavam coradas, mas ela aceitou o balde. Sacudindo a cabeça, cerrou os lábios.
— Estou dizendo, não importa.
A resignação em seu rosto o impediu de perguntar novamente. Em vez disso, Connor caminhou ao seu lado, enquanto Aileen terminava o restante das tarefas matinais.
— A missa começará logo, junto com as cerimônias de abertura. Devemos nos apressar.
Aileen abriu a porta da choupana, mantendo-a aberta enquanto pegara a sua brat. Cobriu a cabeça com o xale quente, transpassando-o sobre os ombros. Connor vestiu a próprio capa, usando-a para se proteger da fina chuva matinal que havia começado a cair.
Aileen entregou-lhe uma cesta, que ele aceitou, pendurando-a no antebraço. Ela havia passado boa parte da noite e da manhã preparando bolinhos de mel para a aenach. Connor ergueu a ponta do pano c sua boca encheu-se de água. Uma fumaça cheirosa elevou-se da cesta, um cheiro gostoso de guloseimas quentes e mel.
— Nem pense em roubar um — avisou Aileen. — A não ser que queira ter a mão quebrada novamente.
O comentário foi feito em tom de brincadeira. Connor preferia isso à expressão magoada que provocara antes. Preferia vê-la sorrir.
— Não sou um convidado em sua casa?
— Eu diria que é mais um fardo. Nas últimas duas luas tudo que fiz foi atender-lhe todas as vontades. Alimentando-o, trocando seus curativos...
— Banhando-me.
Ele não conseguia resistir à oportunidade de provocá-la com a lembrança daquela noite. Assim que tocou no assunto, Aileen virou-se para ele.
— O que está planejando, Connor MacEgan? Está querendo me levar para a cama?
Ela o fitou intensamente, seus olhos faiscando, os lábios cheios ainda mais vermelhos, o cabelo escuro contrastando com a pele pálida. Assim que as palavras deixaram a boca de Aileen, o corpo dele respondeu. Ele não se importaria de levá-la para a cama. De sentir sua pele macia nua contra a dele, de provar-lhe a boca.
— E se eu dissesse que quero?
Ele deu vazão ao seu desejo, beijando-a como há muito queria fazer. Os lábios cheios de Aileen movimentaram-se de encontro aos dele, que passou a mão pela curva dos quadris dela. No mesmo instante em que seu corpo reagiu, uma vozinha dentro dele alertou que estava abrindo uma porta que não deveria. Ela era uma mulher que o vira nos seus momentos de maior fraqueza. Havia decidido ficar com ela porque Aileen não tentaria envolver-se com ele, como outras mulheres o fariam.
Aileen tremia nos braços dele, seu beijo hesitante e doce. Podia sentir o gosto da chuva nos lábios e seguiu com a boca na direção de sua orelha. Ela inspirou profundamente. Suas mãos cobriram o peito dele, os polegares acariciando os músculos rijos. A simplicidade do gesto fez o corpo dele estremecer.
Belenus, como a desejava. E, embora pudesse ser errado, pressentia que ela também precisava dele. Podiam aproveitar um ao outro, não podiam? Ele afastou-se, observando o desejo triste nos olhos dela.
— O que preciso fazer para merecer sua confiança?
— Não compartilharei a cama com você, Connor MacEgan. Tenho mais bom senso do que isso.
Ela lhe deu um empurrão forte, e ele recuou. A frustração apareceu nos passos de Aileen, e Connor se forçou a acalmar o próprio ardor. Ela tinha medo dele. Ou, possivelmente, dos próprios sentimentos. Precisava acalmá-la.
— Tranqüilize sua mente, Aileen. Não tenho planos de seduzi-la aqui, sobre a grama matinal.
Ela o fitou com desconfiança.
— Não me surpreenderia se o fizesse.
— O orvalho costuma deixar as roupas muito molhadas — brincou ele. — É deveras desconfortável.
— Hum! — fez ela, exasperada.
Com seriedade simulada, ele perguntou:
— Onde preferiria que eu a possuísse?
Desta vez, ela entendeu a brincadeira. Interrompendo a caminhada, inclinou a cabeça para um dos lados.
— Sobre um catre macio com lençóis feitos de seda.
— Então nunca fez amor ao ar livre?
Pelo modo como as faces dela coraram, ele supôs que não.
— E você já? Connor apenas sorriu.
— Caso queira experimentar, basta pedir.
— Esse dia jamais chegará, Connor MacEgan. Pode ir procurar outra mulher para seduzir esta noite.
Por mais estranho que pudesse parecer, não queria outra mulher. Preferiria surrupiar esta mulher durante as altas horas da noite. Homens e mulheres da tribo freqüentemente formavam casais em noites como estas, para fazer amor sob a luz das estrelas. Era uma tradição que datava da época dos antepassados pagãos. Mas Aileen se recusava a se deitar com ele. Será que tinha medo? Ou será que ele a enojava? Connor fitou as mãos deformadas antes de escondê-las sob o manto. Empertigando os ombros, ele a seguiu, perguntando-se qual seria o verdadeiro significado de sua recusa.
Quando alcançaram a feira, Aileen se separou dele para se juntar às mulheres que arrumavam a seção de comidas. Vários homens haviam matado vacas e porcos, enquanto outros cavavam um fosso para assar as carnes. O aroma misturado de fumaça e sangue preenchia o ar, enquanto os homens e as mulheres trabalhavam limpando as carnes. A chuva havia parado, mas o sol se escondia por detrás das nuvens acinzentadas.
Havia 12 enormes tendas sob as quais as pessoas podiam se abrigar, e um espaço para se reunirem. Ao longe, ele viu um grupo de crianças sentadas ao pé de um poeta, escutando histórias. O som agradável da música de harpa e das gaitas de foles se juntava ao murmurinho das vozes.
Rostos familiares cercaram Connor, desejando-lhe um bom-dia, vozes dando-lhe as boas-vindas. Mas, um homem o fitou como se ele fosse um assassino. Riordan aproximou-se com a determinação estampada no rosto.
— MacEgan — disse, a titulo de cumprimento.
— Riordan.
Connor possuía a vantagem da altura. Riordan não gostava de ter que olhar para cima para fitar alguém.
— Aileen já fez tudo que podia para lhe curar as mãos. — O ciúme enrijecia o rosto do homem. — Você deveria voltar para o seu próprio povo. Sua presença a incomoda.
— Minha presença a incomoda? — repetiu Connor. — Ou incomoda você?
— Magoe-a, e terá de me dar satisfações.
A ameaça de Riordan foi carregada de emoções sombrias. Ele não deu a Connor chance de responder, mas seguiu na direção das mesas, onde Aileen estava trabalhando ao lado das outras mulheres.
Connor ressentiu-se da ameaça. Jamais fizera mal a uma mulher. Teve vontade de enterrar o punho na barriga de Riordan, de sentir a satisfação de uma luta. Embora reconhecesse as palavras como fruto do ciúme, sentiu-se pronto para brigar só de pensar em Riordan perto de Aileen.
Ao caminhar pela multidão, avistou um brasão conhecido. Um arrepio frio percorreu-lhe a espinha. O méirge tinha as cores da tribo dos O’Bannion. Em algum lugar da feira estava Flynn O’Bannion, o homem responsável por seus ferimentos.
Ele fitou a multidão, procurando o inimigo. Um transe frio pareceu tomar conta dominá-lo, a necessidade de vingança superando todo o resto. Ele levou a mão à cintura, esquecendo-se de que havia deixado a espada na choupana. A ausência da arma lembrou-lhe novamente que não estava pronto para enfrentar os O’Bannion em combate. Mas sua hora ainda havia de chegar.
O padre Maen ergueu a mão, as dobras marrom-escuras das mangas subindo pelos braços. Ele aguardou o silêncio, enquanto todos os membros da tribo se reuniam. Depois invocou uma bênção em latim, chamando o povo para rezar por fertilidade, tanto na colheita quanto na família. Connor juntou-se à tribo na resposta de "amém", mas seu olhar permanecia fixo nos rostos dos homens O’Bannion que um dia havia chamado de amigos. Agora, nada restava daquela camaradagem. Ainda não havia sinal de Flynn O’Bannion, o chefe tribal.
Após as preces, a multidão dispersou-se, formando grupos para escutar histórias e para assistir aos jogos. Crianças corriam, gritando e rindo, enquanto se movimentavam entre os cães e os animais. Alguns idosos deram início a jogos de xadrez, com peças esculpidas em marfim e pedra negra. Connor manteve o olhar atento voltado para os O’Bannion, mas nenhum deles lhe disse nada.
Ele caminhava por entre a multidão, passando por negociantes que tentavam lhe disputar a atenção. Trouxera consigo algumas moedas de prata da bolsa que Trahern havia lhe deixado. Embora não fosse o suficiente para comprar mais do que algumas bugigangas, ele se viu seguindo na direção dos cavalos.
Um belo Ech preto, com pelo escuro como a meia-noite, lhe chamou a atenção. Um cavalo de batalha daqueles poderia custar a um chefe tribal 400 cabeças de gado na troca. A montaria empinou a cabeça, o arreio de prata brilhando sob a luz matinal.
— Ele veio do País de Gales — vangloriou-se o vendedor. — Nunca vai achar um animal mais rápido para cavalgar. Excelente linhagem. O rei normando estava de olho neste aqui.
— Ele é muito bonito — reconheceu Connor. — Mas estou procurando um cavalo para presentear uma dama. Ela não precisa de um cavalo digno de realeza.
Nem ele tinha o dinheiro necessário para comprar um animal daqueles, nem mesmo com a ajuda do mais velho de seus irmãos, Patrick, o rei de Laorche.
Os olhos do negociante brilharam.
— Neste caso, talvez queira um animal mais dócil, como este. Connor examinou a égua acinzentada. A estrutura óssea parecia boa, embora a égua parecesse mais interessada em pastar do que galopar ou trotar.
— Vejo que ela é bem mansa.
Ele acariciou o pelo do animal, tendo toda a intenção de afastar-se antes que o comerciante começasse a pechinchar.
— Flynn O’Bannion está ansioso para vê-lo — disse uma voz baixa.
Era Niall, um homem que outrora chamara de amigo, quando lutara ao lado da tribo. Ligeiramente mais alto do que ele, Niall havia treinado com Connor em mais de uma ocasião. Suas habilidades costumavam se equiparar, o que tomava o treino boa prática para os dois. Embora os cabelos de Niall fossem de um dourado mais escuro, ele sempre havia sido como um irmão para Connor.
Connor retesou os músculos, seu olhar rapidamente movendo-se na direção da espada de Niall. O homem percebeu.
— Não tomei parte no que aconteceu com você. Se eu tivesse sabido, teria tentado impedi-los. — A expressão do rosto de Niall era solene. — Lamento muito, Connor.
Connor queria acreditar nele. Niall jamais tivera a reputação de enganar os outros. Sempre dizia a verdade.
— O’Bannion acredita que eu esteja morto?
— Não. Ele sabe que está vivo. Seamus O’Duinne solicitou que ele respondesse aos brehons.
Connor ignorou os apelos do comerciante para ficar e inspecionar mais cavalos. Caminhou ao lado de Niall, seguindo na direção das mesas de comida.
— Não quero vê-lo. Niall deu de ombros.
— É compreensível. Quando o confrontar, vai ser sua palavra contra a dele.
Para Connor, não fazia diferença o que O’Bannion alegasse. Ele preferia obter sua vingança fora das cortes.
— Não revele minha presença para ele.
— Não importa o que eu faça. Ele saberá que está aqui em poucos instantes, olhe.
Niall apontou para uma beldade loura que olhava na direção deles.
Connor enfrentou o olhar de Deirdre O’Bannion. O choque transformou a expressão dela em medo. Que bom. Após sua traição, ela tinha mesmo motivos para temê-lo.
— Vou deixar que conversem a sós — concedeu Niall. — Estou certo de que têm muito a conversar.
Com o olhar fixo em Deirdre, Connor nada respondeu. Ela olhou ao redor, como se procurando uma saída. Com o olhar enraizando-a no local onde estava, ele não lhe ofereceu nenhuma.
Seu cabelo louro estava preso para trás em uma bela trança, o sol lhe acentuando as mechas. Olhos verde-claros rivalizavam com as montanhas de Éireann com sua cor viva. Deirdre era uma linda mulher, e muito poderosa na sua posição de filha do chefe tribal.
Com um leve sorriso, ela começou a caminhar em sua direção. Connor pensou em evitá-la, mas estava fervilhando de raiva. Suas mentiras haviam sido responsáveis pelo castigo dele. Os quadris da moça balançavam sedutoramente ao se aproximar dele. Deirdre jogou os braços ao redor do pescoço dele e pressionou o corpo contra o de Connor.
— Connor MacEgan! Não posso acreditar que seja você. — Com um sorriso sensual, ela acrescentou: — Tenho pensado muito em você.
Os seios se esfregavam nele, e as mãos lhe alisavam as costas.
— Eu também.
A idéia de torcer-lhe o pescoço mentiroso havia passado por sua cabeça uma ou duas vezes. Ele manteve a postura rígida, não retribuindo a afeição falsa. Se a empurrasse no chão, testemunhas poderiam alegar que ele a havia atacado uma segunda vez.
Ela interpretou erroneamente as intenções dele e levou a boca à dele. Connor não relaxou. Seu corpo permaneceu imóvel como um antigo monólito de pedra. Deirdre tentou obter uma reação ao seu beijo, mas ele não lhe ofereceu nada. Diferente de Aileen, cujo toque inocente o incendiava de desejo. Ele queria que ela soubesse que não sentia nada por ela.
— Acabou? — perguntou calmamente. — Ou será que vai alegar que tirei sua virtude na frente de todo mundo aqui?
Ela ficou pálida.
— Nunca tive a intenção de que meu pai...
— Seu pai o quê? Descobrisse suas mentiras? Ele acreditou em você e me castigou por isso.
— Pensei que ele nos daria permissão para casar.
— E será que não pensou que eu poderia não querer me casar com você? — Ele não escondeu sua revolta. — Acha mesmo que é impossível resistir aos seus encantos?
A fúria de Deirdre espelhava a sua própria.
— E você era diferente, Connor MacEgan? Já ouvi muitas mulheres alegarem que é impossível lhe resistir, especialmente quando em seus braços.
Ela levou as mãos ao peito dele, acariciando os músculos. Ele enrijeceu quando o toque começou a lhe descer pelos braços, até chegar às mãos.
Ela segurou na palma da mão a deformada extremidade direita.
— Não pode mais ser tão orgulhoso agora, pode?
— Desapareça de minha frente, antes que sofra as conseqüências. Mantendo a fúria sob controle por um fio, ele dolorosamente cerrou as mãos.
Jamais havia esbofeteado uma mulher em toda a vida, nem mesmo quando queria. Mas Deirdre era tão culpada quanto Flynn O’Bannion. Graças aos deuses, ela desapareceu na multidão. Iria informar o pai de sua presença. Que assim seja.
Deirdre O’Bannion era uma mulher desprezada, e ele não tinha dúvidas de que faria qualquer coisa para transformar a sua vida num inferno.




Capítulo Dez



— Esperava mesmo que Connor fosse ser diferente de quando éramos crianças? — perguntou Riordan.
Ele havia notado a tristeza dela ao ver Connor beijar outra mulher. Aileen sabia que isso não deveria incomodá-la, mas, naquela mesma manhã, Connor havia brincado sobre desejá-la, pedindo-lhe que se juntasse a ele.
E, por todos os santos, como ela queria fazer isso. Não sabia por que havia pensado que ele tinha mudado. Mas estava muito magoada. Pelo menos por um instante, havia começado a ter esperanças de que ele pudesse vê-la como mulher, e não apenas como amiga. Vê-lo com a bela dama era exatamente o que precisava para tirá-lo da cabeça.
— Deixe os preparativos das comidas de lado por um instante, Aileen — sugeriu Riordan. — Fiz uma aposta por você.
— Uma aposta?
— Venha ver.
Ele lhe tomou a mão e Aileen se permitiu ser puxada na direção dos jogos. Um sorriso gentil esboçou-se nos lábios e Aileen se forçou a lhe conceder atenção. Embora não fizesse o seu sangue correr como Connor, Riordan era um homem estável.
Um ligeiro vestígio de anseio passou pelo seu coração. Ela não merecia o homem que queria de verdade? Não era digna de Connor? Por que tinha de se contentar com um homem confortável, quando queria era um homem capaz de fazê-la se sentir viva?
Seus pensamentos se tomaram um emaranhado confuso, pois não queria um homem infiel. Por que Connor havia beijado aquela mulher? Será que ele o havia mesmo feito? Esforçou-se para lembrar se ele havia abraçado a mulher, ou se havia retribuído o beijo.
Sua fúria aumentou. Se permitisse a entrada de Connor em seu coração, não podia ficar de lado enquanto mulheres se atiravam em cima dele. E sabia que isso ia acontecer. A verdade é que não sabia se podia confiar nele. Nem podia confiar no próprio coração para manter distância.
No centro do círculo, um membro da tribo de aparência selvagem flexionava seus músculos. A escura barba em forquilha dava-lhe um aspecto demoníaco, e sua força parecia intimidante.
Com uma expressão de orgulho, Riordan disse:
— Lutarei com ele por você.
Aileen não gostou nem um pouco da idéia. Ver homens golpeando um ao outro a deixava muito irritada. Não queria ter que consertar narizes quebrados e as juntas das mãos sangrando como resultado de uma luta inútil.
— Não acho que deva.
— Posso vencer — insistiu Riordan. — E, quando o fizer, os cinco braceletes de ouro serão seus.
Ela sentiu um frio na barriga, mas foi capaz de sorrir.
— Não preciso dos braceletes.
— Mas os merece — afirmou Riordan. Ele tomou-lhe a mão e Aileen resistiu ao impulso de retraí-la — Mesmo que perca, sairei vencendo, pois terei uma linda curandeira para cuidar de meus ferimentos.
Ele levou a mão dela aos lábios. O beijo suave a fez sentir-se oca, pois nada sentiu.
Naquele momento, Connor apareceu na multidão, uma cabeça mais alto do que a maioria dos aldeões. Seu cabelo dourado-escuro estava preso para trás com uma tira de couro. Os olhos acinzentados a fitaram, ardendo de intenção. O coração dela bateu um pouco mais rápido, e sua pele ficou arrepiada. Mesmo cercada por mil pessoas, ainda seria capaz de lhe pressentir a presença.
Sob o olhar dele, a raiva de Aileen fervilhou. Ele a havia beijado naquela manhã, oferecendo-lhe coito, como se ela não passasse de uma criada qualquer. Em contraste, Riordan a queria como sua noiva.
Desviando os olhos de Connor, ela puxou Riordan para si. Levando a mão à barba ruiva de Riordan, deu-lhe um beijo na face.
— Para dar sorte — disse.
Um brilho de posse acendeu-se nos olhos dele. Riordan a apertou de encontro ao próprio corpo. Ele inclinou-lhe a cabeça para trás e beijou seus lábios com ardor incontido. Aileen aceitou o beijo e esforçou-se para retribuí-lo, No entanto, seus lábios pareciam ser feitos de pedra.
Por que não consigo sentir nada por ele?, perguntou-se. O que há de errado comigo?
Quando olhou novamente na direção de Connor, este havia desaparecido. Sentiu-se deprimida, pois tinha se portado como uma jovem tola tentando deixar seu pretendente enciumado. Já se arrependia de seus atos. Ela se preparou para assistir à luta, ignorando os sons de homens grunhindo e tentando esmagar uns aos outros.
E, durante toda a competição, seus olhos procuraram Connor em meio à multidão.
— Os Brehons estão prontos para escutar o seu caso — avisou Niall.
— Estão dentro da tenda.
Connor já sabia o que os juízes iam dizer. Exigiriam o pagamento de uma multa por parte dos O’Bannions. Mas aceitar pagamento pela perda de suas mãos era inaceitável.
— Deirdre está com eles? — perguntou Connor.
Com uma expressão impassível no rosto, Niall assentiu.
— Está.
As defesas de Connor ergueram-se. Sua paciência já estava se esgotando. Ergueu a borda de entrada da tenda reservada para os brehons. Morann O’Duinne sentava-se sobre o banquinho baixo, sua longa barba grisalha estendendo-se quase até o chão. Mechas de cabelos brancos lhe cobriam a cabeça e, de acordo com as lendas, os olhos negros podiam enxergar o coração de qualquer caso complicado e encontrar justiça. Dois outros membros das tribos, um da tribo dos O’Duinne e outra da tribo dos O’Bannion, assentiram, cumprimentando-o.
Os olhos de Morann estudaram as mãos de Connor, antes que seu olhar se voltasse para Deirdre. Recatada e tímida, ela mordia o lábio inferior, como uma menina teimosa. Sua pele pálida a fazia parecer a vitima.
Acreditariam no testemunho choroso de Deirdre de que ele havia tirado sua virtude. Connor cerrou os punhos com força, deliciando-me com a dor. Esta lhe lembrava do que ele havia perdido, graças a ela.
Não negava seus próprios erros. Se tivesse permanecido sozinho, sem companhia feminina, isso não teria acontecido. Havia aceitado as carícias ardentes de gentis damas que as ofereciam de bom grado, e agora pagava o preço por isso.
— Seamus já me relatou os detalhes, mas agora gostaria que Connor explicasse seus ferimentos. — Morann virou-se para Flynn O’Bannion, — Em seguida escutarei suas queixas. Depois decidiremos a multa eriac que resolverá a questão.
Flynn estava usando sua armadura de batalha do torneio daquela manhã. Um corselete de couro de touro, marcado por golpes de espadas, lhe cobria o peito. Sob ele usava uma túnica de seda. Um machado de guerra pendia do seu flanco, a lâmina de cobre brilhando sob a luz da tarde. Como experiente líder de guerra e chefe tribal, Flynn tinha o respeito de seu povo, sendo considerado um de seus maiores guerreiros.
Durante toda uma estação, Connor havia lutado entre as fileiras de Flynn, aprendendo aos pés de um verdadeiro mestre. Vê-lo ali, agora, como um líder enfurecido, sem nenhum remorso pelos seus atos, só fazia enchê-lo de mais raiva.
Ele observava os olhos do inimigo. Seu desejo de vingança transformou-se em uma tempestade de ódio. Queria que Flynn sentisse o peso esmagador das pedras, que conhecesse a mesma dor que Connor sentira nas mãos dele. Queria justiça.
Mas só de olhar nos olhos do chefe tribal soube que isso não aconteceria.
— Vejo que ainda acredita nas mentiras dela.
— Minha filha jamais mentiria a respeito de algo assim. — A fúria se apossou do rosto de Flynn. — Você a machucou...
— Eu jamais toquei nela.
Lágrimas silenciosas escorriam pelas faces de Deirdre. Connor foi tomado de nojo diante da ilusão.
— Gostaria de ver suas mãos, Connor MacEgan.
O brehon gesticulou para que ele mostrasse os ferimentos. Connor estendeu os dedos retorcidos da mão direita. Não havia como negar os ferimentos.
— Já recuperou o uso das mãos? — indagou Morann. Ele jamais admitiria sua fraqueza diante de Flynn.
— Já.
— Não — interrompeu outra voz.
Aileen adentrou a tenda naquele instante. Sua trança castanho-escura caindo até a cintura, os olhos sábios fitando Morann, como se apenas sua presença pudesse influenciar o resultado da sessão.
— O que ela está fazendo aqui?
Com o orgulho ameaçado, Connor sentiu-se alarmado.
— Como curandeira da tribo O’Duinne, posso testemunhar que suas mãos jamais se recuperarão por completo.
— Soube que não é mais a curandeira — respondeu Morann. Aileen empalideceu, mas bravamente se adiantou.
— Cuidei dos ferimentos dele. E sei que merece todo o pagamento da eraic por seus ferimentos.
— Ela está enganada — afirmou Connor
Embora pudesse entender a boa intenção de Aileen, a afirmação o fazia parecer fraco diante do inimigo. Não podia permitir que os O’Bannion o vissem como indefeso.
Com um gesto da mão, Morann desconsiderou o argumento de Connor.
— Posso ver a evidência com meus próprios olhos. Não há necessidade de seguirmos discutindo isso. Flynn O’Bannion, nega que tenha quebrado intencionalmente as mãos e os pulsos de Connor MacEgan?
O chefe tribal sacudiu a cabeça.
— Não nego nada. Era o que ele merecia por ter desonrado minha filha.
Antes que Flynn pudesse prosseguir, Morann assentiu para Aileen.
— Obrigado pelo seu testemunho, não é mais necessária neste julgamento.
Ela hesitou, esperando que Connor fosse dizer algo.
— Posso escutar o veredicto?
Connor lançou um olhar zangado na direção dela.
— Não a quero aqui — disse.
Será que a mulher não conseguia ver o que havia provocado com a sua interferência. Será que acreditava estar ajudando-o? Expusera as dúvidas dela em público. Connor sentia como se sua frustração fosse uma flecha, pronta para ser disparada.
O rosto de Aileen empalideceu diante da fúria de Connor. Por fim rendeu-se à ira dele e foi embora. Embora fosse levar tempo, ele recusava-se a deixar a tenda até consertar um pouco do estrago que ela havia causado com o seu testemunho. Ele voltaria a lutar.
E os O’Bannion aceitariam o desafio e sentiriam sua espada. Sua honra estava em jogo.
Do lado de fora da tenda, Aileen movia-se com o torpor de sentimentos magoados. Rostos se embaçavam e sons ecoavam em sua cabeça. Ela avistou um grupo de contadores de histórias, desconhecidos que jamais havia visto. Um homem tossiu, um som seco que quase a fez se contorcer de agonia.
Aileen sabia que devia parar e perguntar se ele precisava de ajuda, mas, naquele instante, seu próprio coração estava sofrendo. Ela atravessou a multidão, seguindo na direção dos limites da campina. Quando por fim se viu sozinha, o vento a chicoteou, resfriando as faces ardentes. Connor a humilhara diante dos brehons. Tolamente, havia tentado ajudá-lo.
Por longos instantes, observou o sol se pondo, como se este fosse seu próprio entusiasmo.
— Mamãe? — sussurrou uma voz. Ela virou-se e abriu os braços.
— Rhiannon, a iníon. — Ela apertou o cabelo escuro da filha de encontro ao peito, abraçando-a com força. — Conte-me o que fez hoje.
A boca de Rhiannon curvou-se satisfação. Ela contou como havia vencido uma corrida e falou de sua empolgação diante dos jogos.
— Você viu os bardos? Duald disse que eles vieram do País de Gales.
— Eu vi.
Aileen recordou-se do homem tossindo, e perguntou-se se não deveria ter parado para oferecer ajuda.
— Vão contar a história de Brian Boru. — Rhiannon pegou-lhe a mão e a puxou na direção das fogueiras, onde uma multidão começava a se reunir. — Venha escutar.
Aileen permitiu que a filha a guiasse na direção do declive. Pequenas fogueiras bruxuleavam sob a luz crepúsculo, oferecendo calor para aqueles que se amontoavam ao redor. Ela já podia avistar alguns casais buscando o isolamento do bosque. Ainda era cedo, mas à medida que o vinho ia sendo servido, mais pessoas aproveitariam sua própria comemoração particular.
Ela sentia-se grata por Rhiannon ainda ser jovem demais para certas coisas. Com o peito liso e o corpo desprovido de curvas, ainda faltavam muitos anos para a feminilidade desabrochar no seu corpo jovem.
— Quero me aproximar mais para poder escutá-los.
Rhianna a guiou através dos outros homens da tribo, alcançando por fim o pequeno círculo onde todos estavam reunidos. Muitas crianças pequenas se empoleiravam sobre os ombros dos pais de criação, enquanto os meninos mais velhos saltavam, tentando enxergar melhor.
Aileen puxou a filha para perto de si, descansando as mãos sobre os ombros de Rhiannon. Assistiram à primeira peça, depois a outra. A história do frade itinerante as fez rir, mas Aileen ficou distraída ao avistar Connor assistindo ao espetáculo. Ele ainda não as tinha visto, e a mão de Aileen se apertou nos ombros de Rhiannon.
O que ele iria dizer ao ser apresentado à própria filha? Será que reconheceria seus próprios traços no rosto de Rhiannon? Aileen se preparou para a possibilidade de que ele poderia desprezá-la pelo que ela fizera. Havia roubado a filha dele, e o seduzido na noite do ritual. Ela não queria ver o ódio no rosto dele.
— É melhor nós irmos.
— Mas, mamãe, quero escutar a próxima história — implorou Rhiannon.
Aileen sentiu um aperto na garganta. Havia escondido o seu segredo durante sete anos. Será que deveria ficar e enfrentá-lo? Ou devia fugir? Foi privada da escolha quando Connor a avistou.
O ar escapou de seus pulmões, mas Aileen manteve as mãos sobre os ombros de Rhiannon. Pois bem. Que ele pense o que quiser.
— Mamãe, você está me machucando...
Ela afrouxou a pressão sobre os ombros da menina.
— Desculpe.
Instantes mais tarde, Connor estava postado diante delas. Aileen empertigou-se, preparando-se para as acusações. O olhar dele fixou-se sobre Rhiannon por um instante, mas ele nada disse.
— Esta é minha filha, Rhiannon — disse Aileen, prendendo a respiração, enquanto não tirava os olhos do rosto dele.
— Rhiannon. — Connor a cumprimentou com um aceno cortês. — Sua mãe fala sempre em você. Lamentei saber da morte de seu pai.
O tom de voz gentil e o simples oferecimento de condolências congelaram as entranhas de Aileen. Ele não reconheceu a própria filha, o sangue de seu sangue. Lágrimas e histeria entraram em conflito no seu íntimo, pois este era o momento que mais temia.
E ele sequer reconheceu Rhiannon. Seu segredo estava a salvo, e ela não precisava mais ter medo. Deveria ter sido um alívio. Por que então as lágrimas se acumulavam dentro dela, ameaçando se libertar?
— Eles deram o veredicto? — Aileen conseguiu perguntar. Ele inclinou a cabeça.
— Venha caminhar comigo, que eu lhe conto. Aileen soltou Rhiannon, dando-lhe um beijo na testa.
— Escute as histórias, a stór. Eu a vejo mais tarde.
Ele caminhou ao lado dela, aguardando até que estivessem longe de outros que pudessem escutar.
— Por que você interferiu? — perguntou Connor, bruscamente. - O caso não lhe dizia respeito.
— Não confiei nos O’Bannion para contar a verdade. Os brehons precisavam saber a extensão de seus ferimentos.
Os olhos dele se fixaram sobre ela com uma fúria gelada.
— Não sou um fraco, Aileen. Nem tenho medo de enfrentar um O’Bannion com minha espada.
— Você não consegue segurar uma espada.
— Mas vou conseguir. Ela sacudiu a cabeça.
— Flynn o abateria com um simples golpe.
— Não foi você que falou de fé? Não foi você que se recusava a esmagar as esperanças daqueles que cura?
As palavras de Connor a fizeram corar.
— É diferente. Estávamos falando de crianças. Você é homem feito.
— Isso mesmo, sou um homem. Um homem que vive pela espada, e vou enfrentar O’Bannion.
— O que quer dizer?
— Morann concordou com meu pedido. Daqui a duas luas, no Samhain, vou desafiar Flynn O’Bannion.
Um arrepio de terror percorreu a espinha de Aileen. Ela imaginou a espada de Flynn O’Bannion enterrando-se na carne de Connor. Ela fechou os olhos, tentando espantar o pensamento incômodo.
— Por que iria querer fazer isso? Não pode matá-lo.
— Se o derrotar em combate, reconquisto minha honra. E ele retirará todas as acusações que fez contra mim.
— O que Deirdre alegou? Os brehons acreditaram nela?
— Sempre acreditarão nas palavras bonitas e nas lágrimas de uma mulher. — O rosto de Connor ficou sombrio de ressentimento. — Tá, acreditaram em Deirdre.
— Vai ter que pagar a multa?
— Queriam dar o assunto por encerrado, visto que uma multa cancela a outra. Eu me recusei a aceitar o julgamento de Morann. Ele por fim concordou com meu pedido.
— E se Flynn O’Bannion vencer o combate? — ela perguntou.
— Não fará diferença. Pois o único modo de vencer será me matando.
Aileen viu a determinação no olhar de Connor. Ele sacrificaria tudo. Seus olhos estavam gélidos, o cinza frio das pedras.
— Não lute com ele — sussurrou ela. — Esqueça. Connor. Você está vivo. Não é isso que importa?
Ele jamais teve a intenção de me matar. Apenas de me fazer sofrer. — Ele observou o horizonte. — Não vou ficar mais muito tempo com você. Voltarei para casa de meus irmãos, para treinar como devo.
Eles voltaram para os contadores de histórias, as palavras do bardo cativando o público. Ao se aproximarem de Rhiannon, Connor virou-se para Aileen.
— Ela sente muito a falta do pai?
As palavras provocaram um aperto no coração de Aileen. Engolindo em seco, ela deu de ombros.
— Desde que aprendeu a andar que ela mora com o pai de criação. Tomás sempre cuidou bem dela.
Um brilho de surpresa momentâneo apareceu nos olhos dele.
— Lianna é a mãe de criação dela, não é?
Será que, mesmo após todo este tempo, ele ainda nutria sentimentos por Lianna? Facas de ciúmes lhe perfuraram o coração.
— É. Além de Rhiannon, eles têm quatro outras crianças para criar - acrescentou Aileen.
Connor nada respondeu, mas pareceu se resignar com a resposta dela. Permaneceram parados ali, nos limites da multidão, enquanto o bardo contava a história de Cuchulainn.
A mão dele roçou na dela e Connor estremeceu, como se houvesse esquecido dos dedos deformados. Suas faces se ruborizaram de constrangimento.
— Sua filha me lembra minha mãe — disse ele, subitamente, com um ligeiro sorriso nos lábios. — Mas ela tem o seu rosto.
Aileen não conseguia olhar para ele. Connor havia notado a semelhança, mas continuava sem enxergar a verdade.
Seus ombros se roçaram e, por um instante, desejou que ele a tomasse nos braços. Queria encostar a cabeça nele, queria lhe sentir a força. Aileen se flagrou fitando a boca do guerreiro, e forçou-se a desviar o olhar de volta para os contadores de histórias.
A mão de Connor posicionou-se na parte inferior das costas de Aileen.
— Ajude-me a lutar novamente — disse ele.
O forte anseio na voz dele a fez voltar à realidade. Ela tomou a mão deformada nas suas.
— Farei tudo que puder por você.
Com a mão esquerda, ele puxou a mão dela até esta se espalmar sobre o seu peito. Diante do contato, o corpo dela se arrepiou.
— Será que vai ser o suficiente? Ela apertou-lhe ligeiramente a mão.
— Estou lhe oferecendo a minha fé. É tudo que tenho.
Connor puxou-lhe a mão até os lábios. O beijo suave poderia muito bem ter sido dado em sinal de amizade.
No entanto, por que os olhos dele pareciam prometer tanto mais?
Na escuridão, as chamas alaranjadas desenhavam estranhos padrões na noite. Whelon usou as muletas para passar pelas tendas e mesas compridas onde os bardos haviam montado acampamento. Encantado com suas histórias, ele esperava persuadi-los a contar mais uma.
O som de tosse seca veio de trás de um dos abrigos. Whelon seguiu o som até encontrar um homem vomitando.
— Está tudo bem? — sussurrou, mas não obteve resposta.
Whelon aproximou-se ainda mais e viu a pele avermelhada do homem brilhando de suor. Os olhos vidrados do bardo fitavam o infinito, como se ele fosse cego. Ele foi acometido de outro acesso de tosse, e, em agonia, levou as mãos às laterais do corpo.
Sem pensar, Whelon cambaleou até o homem e o ajudou a sentar no chão. Seus braços arderam devido ao esforço, mas ele ajudou o contador de histórias a se recostar no chão.
— Vou chamar a curandeira.
Mas o homem se recusava a soltar o seu pulso. Whelon deu um puxão, depois ficou paralisado ao ver o rosto do homem. Sobre os lábios, as chagas denunciadoras revelavam a verdade.
Horrorizado, Whelon deu um pulo para trás, fazendo o sinal da cruz. Já ouvira histórias de homens que haviam morrido de varíola. Ao levantar a manga da túnica do homem, viu que o braço dele estava coberto de lesões,
Tinha de achar Aileen. Apressadamente, Whelon usou as muletas para afastar-se do homem caído.
Ele olhou para trás, na direção do corpo. Olhos fixos fitavam o céu, enquanto o peito do homem não se movia mais com o sopro da vida.
A varíola havia invadido a tribo O’Duinne.




Capítulo Onze



— Passei a noite toda procurando você — disse Riordan. Aileen virou-se e ele lhe estendeu um cálice de madeira. Ela havia ficado sozinha depois que Connor a havia deixado para ir falar com Seamus. Rhiannon estava dormindo em uma das tendas com as crianças.
Quando ela estendeu as mãos para aceitar o cálice, Riordan sorriu. Ele a puxou na direção de um pequeno agrupamento de árvores no bosque, afastado da multidão. Aileen o seguiu, tentando imaginar o que ele poderia querer.
Sua expressão ansiosa logo deixou suas intenções bem claras. Ela se arrependeu de tê-lo seguido. Os pensamentos estavam confusos naquela noite. Não saberia como poderia se forçar a ter sentimentos por Riordan.
Queria Connor. E, embora talvez jamais fosse tê-lo, não podia continuar fingindo para Riordan que gostava dele.
As mãos dele se fecharam sobre as suas. Riordan levou o cálice de madeira aos lábios dela e Aileen bebeu um gole do vinho vermelho condimentado. Como poderia ir embora sem magoá-lo?
— Está do seu agrado?
Ela assentiu e ele levou novamente a borda aos lábios de Aileen, mas, em vez de inclinar o cálice, os dedos dele se detiveram em sua face. Com o mais leve dos toques, ele lhe acariciou o contorno do rosto.
Nos seus olhos brilhavam as chamas da luxúria.
— Também está do meu. Acho que passei a noite toda querendo sentir um gostinho.
Ele inclinou-se à frente e roubou um beijo, antes que ela pudesse detê-lo.
A pele dela se ruborizou de constrangimento.
— Riordan, eu não...
— Sshhh.
Ele baixou o cálice e aproximou-se, até que ela pôde sentir o cheiro de vinho no seu hálito. Ele girou o cálice, até seus lábios tocarem no ponto onde ela havia bebido. Depois de esvaziá-lo, jogou o cálice na grama.
As mãos dele tremiam ao redor da sua cintura. Aileen retesou-se, erguendo as mãos para impedir que ele chegasse perto demais. Ela se repreendeu por ter permitido que isso chegasse tão longe. Riordan jamais fizera segredo de seus desejos. A culpa era toda dela, por permitir que ele acreditasse que ela queria que ele se tomasse o seu marido.
Quando ele a tocou, sua pele sentiu-se pegajosa. Ela tentou afastá-lo, mas ele a manteve presa no abraço indesejado.
— Permita-se esquecer Eachan, Aileen. Apagarei a dor de sua perda esta noite. Deixe que eu me deite com você.
Ela sacudiu a cabeça, virando a face, quando tentou beijá-la novamente.
— Riordan, isto não é o que eu quero.
— Já faz muito tempo para você, Aileen. — A mão dele lhe apertou as nádegas. — Posso lhe dar os filhos que Eachan não foi capaz de dar.
A arrogância dele só fez lhe aumentar a raiva, e ela empurrou a mão dele para longe.
— Acha que não sou capaz de tomar minhas próprias decisões? Sei o que quero, e não é você. Afaste-se de mim, Riordan.
Ela não podia enxergar a expressão dos olhos dele, mas seu comportamento bêbado a enojava. Pela primeira vez, se deu conta do tamanho dele. Ele poderia dominá-la com muito pouco esforço. Mas recusava-se a permitir que ele a amedrontasse.
— Solte-a.
Connor avançou na direção deles, ignorando as pessoas que viravam as cabeças ao ter seu interesse despertado. Espetáculo público ou não, ele havia notado o desconforto de Aileen.
— Estou bem — disse ela.
Embora houvesse empertigado os ombros cora autoconfiança, ela havia cerrado os punhos. Parecia querer estar em qualquer outro lugar que não ali.

— Isso não é da sua conta, MacEgan.
 Riordan o fitou nos olhos com uma expressão desafiadora.
O dia todo Connor vinha procurando uma maneira de soltar a energia enjaulada em seu íntimo. Queria lutar com alguém, para provar que não perdera nenhuma de suas habilidades.
— Ela disse não, e você não a soltou. Acho que é da minha conta quando um homem tenta forçar uma mulher a aceitá-lo.
— Eu jamais forçaria Aileen a nada. — Riordan ergueu os punhos circundou Connor, buscando um ponto fraco. — Mas não foi você quem forçou a filha de O’Bannion a lhe satisfazer as vontades? É rápido em acusar os outros, não é?
Ele desferiu um soco na direção de Connor, mas este deu um passo para o lado e o murro atingiu apenas o ar.
Riordan desferiu outro soco, mas Connor o bloqueou com o antebraço.
— Já bebeu um bocado de vinho esta noite, não bebeu, Riordan? Parece estar lhe afetando a mira.
— Mas não afetou a minha. — Um punho feminino o acertou no ombro. — Não lhe curei suas mãos só para vê-lo quebrar os dedos novamente.
— Ele a desonrou. Acho que estou querendo muito quebrar alguns dedos dele.
Riordan avançou, mas o cotovelo de Connor atingiu o rosto dele. Um repugnante ruído de trituração ecoou pelo local, e um fio de sangue começou a jorrar do nariz de Riordan.
— Não preciso usar minhas mãos — comentou Connor.
Mas pagou caro pela arrogância quando Riordan mergulhou na direção dele, derrubando-o no chão. Connor sentiu o gosto de terra e sangue, mas rapidamente rolou para o lado, colocando-se de pé.
— Já chega disto. — Aileen empurrou Riordan para trás. — Os dois estão se portando como animais.
Embora ela estivesse postada entre os dois para interromper a luta, os olhos de Connor fixaram-se nos de Riordan. Ele queria vingar o constrangimento de Aileen e dar vazão às próprias frustrações.
Ela deixou os dois para trás, caminhando a passos largos. Ele não pôde deixar de acompanhá-la com os olhos, a comprida trança escura balançando de encontro ao vestido azul. Pendendo da curvatura da cintura, o vestido lhe acentuava os quadris esbeltos.
Ele lembrou-se do gosto acolhedor de seus lábios. Uma onda de ciúmes invadiu-o ao pensar em Riordan tocando Aileen, quer ela o quisesse ou não.
— Ela é minha, MacEgan.
Embora Riordan não houvesse retomado a luta, o tom de ameaça não escapou a Connor.
— É mesmo. Então por que ela fugiu de você?
— Ela fugiu de nós dois. Mas você vai embora, enquanto eu sou o homem que vai esperar por ela.
Com um olhar presunçoso, Riordan voltou para uma das tendas, sorrindo discretamente.
Connor ignorou a provocação. Recusava-se a pensar em Aileen permitindo que Riordan compartilhasse a cama com ele, ou pior, casando-se com o homem. O ataque de Riordan havia despertado algo de primitivo nele. Aileen trazia à tona seu instinto primordial de proteger.
Durante a hora seguinte, os pensamentos de Connor foram se acalorando. Ele se imaginou removendo o vestido de seus ombros, deslizando a lã por sua pele desnuda. Será que seus seios se intumesceriam sob o ar frio da noite? Será que seu toque a deixaria ofegante? Será que ela permitiria que ele a tocasse?
Enquanto um grupo de atores interpretava uma peça, ele a avistou em meio ao público. Ela riu de uma parte engraçada da história.
— Aileen — disse ele, baixinho.
Seu rosto se virou na direção dele, mas ela não sorriu.
— Estou voltando para a cabana. — Curvando-se, ele estendeu a mão na direção da dela. — Se tiver tempo, mais tarde, preciso que cuide de um de meus ferimentos.
Confusa, ela franziu a testa.
— O que quer dizer? Pensei que...
— Alguém me socou no ombro. — Ele apontou para o local onde o punho dela havia atingido o músculo duro. — Acho que deve ter ficado roxo, — Com um sorriso no canto da boca, ele a provocava. — Ficarei aguardando você.
— Ficará aguardando um bom tempo — retrucou ela.
Mas ele detectou o brilho de interesse nos olhos dela.  Connor decidiu que, por Aileen O’Duinne, a espera valeria a pena.
— Aileen.
A mão de uma criança lhe puxou a saia. Ela virou-se e viu o rosto preocupado de uma menininha. Zaira, lembrou-se Aileen, uma das filhas de criação da prima Bridget.
— O que foi? Alguém se machucou?
— Não, é Bridget. Ela parece não estar se sentindo bem. — Já está na hora do bebê nascer? Sei que não faltava muito.  Zaira sacudiu a cabeça. — Não sei. Mas estou preocupada com ela. — Onde ela está? — Perto da tenda das mulheres. Ela passou todo o dia no conselho as mulheres, e agora está com os contadores de história.
Aileen acompanhou a menina até a tenda das mulheres. Crianças brincavam diante das tendas, enquanto um outro menino dava restos do banquete para um cachorro.
Ela se perguntou se alguém havia se lembrado de chamar Illona, a nova curandeira- O próprio pensamento era o suficiente para aprofundar o ressentimento. Ao longo das últimas estações, havia feito o parto de muitas mulheres da tribo. Não precisava da ajuda de ninguém para isso.
Mas a lembrança silenciosa dos dois filhos do chefe tribal se intrometeu. Ela havia segurado os dois corpinhos nas mãos, chorando pela perda dos gêmeos de Seamus. Embora houvesse feito tudo que podia, os meninos não haviam sobrevivido mais do que alguns poucos dias.
E se houvesse algum problema com o filho de Bridget? Não era bom arcar com a responsabilidade sozinha. Embora detestasse a idéia de outra mulher interferir, a compulsão de proteger o recém-nascido era mais forte.
Zaira agarrou a mão de Aileen e a puxou. Quando adentraram a tenda, Aileen olhou ao redor, até avistar a prima.
Bridget estava com a mão sobre a barriga inchada e sinais de tensão lhe enrugavam os olhos. Aileen observou cuidadosamente até ter certeza. Bridget parecia estar sentindo dor, apesar de continuar a contar sua história.
Quando a prima terminou, Aileen caminhou até ela e tomou o braço de Bridget.
— Quando elas começaram?
— Algumas horas atrás. Talvez ainda demore um pouco antes do bebê nascer. Você mandou chamar Illona?
— Ainda não. — Aileen voltou sua atenção para a menininha, Zaira. — Pode ir encontrar Illona e mandá-la vir nos procurar?
— Não sei onde ela está.
— Pergunte. Diga que precisam dela para o parto. Bridget agarrou o braço de Zaira.
— Quero ter o bebê na minha própria choupana. Não aqui. Diga para Illona nos encontrar lá.
— Talvez não haja tempo — protestou Aileen. — Deveríamos...
— Não. — A teimosia estava estampada no rosto da mulher. — Eu enrolei cada um de meus filhos no cobertor de minha avó. Isso trouxe sorte para cada um deles. Não vou privar esta criança da mesma sorte.
Aileen fez menção de discutir, mas conteve a língua. Que diferença fazia onde a criança nascesse? Ela podia ver que Bridget não ia mudar de idéia.
Ela voltou sua atenção para Zaira.
— Faça o que Bridget disse. Depois, corra para a choupana, acenda a lareira e prepare a cama de Bridget.
Zaira saiu correndo para cumprir as instruções. Depois que a menina havia saído. Aileen ajudou Bridget a se levantar.
— Enquanto isso, eu a ajudo — ela tranqüilizou a prima. — Este vai vir mais rápido do que os outros. Pode andar?
— É claro. — Com um sorriso preocupado, Bridget aceitou o apoio do braço de Aileen. — Você parece apreensiva.
Embora sempre houvesse um elemento de perigo, Aileen gostava de fazer o parto de bebês. Ajudar a guiar uma nova vida a entrar neste mundo, escutar o recém-nascido berrar e enrolar o bebezinho em fraldas quentes, de algum modo isso parecia tomar mais fácil suportar a própria infertilidade. Se não fosse por Rhiannon, jamais teria um filho para chamar de seu.
Sabia que a filha estava dormindo em uma das tendas, acompanhada de outras crianças. Embora quisesse que Rhiannon assistisse o parto, talvez fosse mesmo melhor para ela permanecer ali.
Um instante mais tarde, Bridget parou de andar, respirando devagar. Ela fechou os olhos, devido ao esforço da concentração, e buscou apoio na mão de Aileen.
Na cabeça, Aileen contou o tempo de duração entre as contrações e receou que a mãe grávida não chegaria a tempo em casa. Ela olhou ao redor, procurando algum parente, alguém que pudesse trazer um cavalo. Por fim, avistou um dos irmãos.
— Cillian! — gritou, acenando para ele.
O irmão virou-se e sorriu, esmagando-a com um abraço. Sob o manto, ela se deu conta de que ele havia mudado desde sua tutela. Seus braços possuíam a força de um homem e seu sorriso era confiante.
— Já faz muito tempo, minha irmã. Você está bem? Ela assentiu, explicando a situação de Bridget. Franzindo a testa,
Cillian olhou para a prima.
— Pensei que você estivesse proibida de curar. Aileen não mentiu.
— É verdade. Mas não posso deixá-la desse jeito enquanto esperamos por Illona. Ela não vai chegar à choupana dela sem uma carroça. Não consigo montá-la em um cavalo. Pode nos ajudar?
A expressão dele ficou séria.
— E quanto à nova curandeira? Isso não é responsabilidade dela?
— Mandei buscá-la. — Diante do aviso nos olhos de Cillian, ela agitou as mãos. — Bridget é nossa prima. Seamus não vai se importar se eu a ajudar até que Illona venha.
— Ele a proibiu, Aileen.
— A nova curandeira, além de ser uma desconhecida, é uma O’Bannion — ela argumentou. — Pertenço à família de Bridget.
O irmão suspirou e sacudiu a cabeça. — Não sei, Aileen.
— Por favor, Cillian, Bridget precisa de nós. — As contrações da mulher grávida começavam a ficar cada vez mais próximas. — Ela não vai conseguir chegar em casa sem a nossa ajuda.
Ele, por fim, cedeu. — Seu eu tivesse alguma dúvida quanto às suas habilidades, jamais concordaria com isso. Trarei a carroça para ajudá-la. E irei buscar Illona.
— Obrigada.
Ela lhe beijou a face e ele a despenteou. — Que história é essa que eu soube de você e Connor MacEgan? Ela enrubesceu. — Nada que lhe interesse.
Ele riu.
— Mamãe me contará tudo que quero saber.
— E nada será verdade — argumentou Aileen, enquanto o irmão ia buscar o cavalo e a carroça.
Ela respirou mais aliviada ao ver Cillian atrelando uma égua a uma carroça, ao longe. Agora, precisava encontrar Frasier e lhe contar que a esposa havia entrado em trabalho de parto.
Avistou Lorcan perto de uma mesa cheia de doces e acenou para o menino.
— Lorcan! Traga Frasier para me ajudar com Bridget. O bebê dela está chegando.
Lorcan pegou um bolinho de amêndoas, que colocou dentro de uma das dobras da túnica antes de sair correndo em direção à multidão para encontrar o marido de Bridget.
Bridget cambaleava, e Aileen se esforçava para mantê-la em pé. Com cada passo, recordava-se da própria agonia ao dar à luz Rhiannon. No entanto, sentiu um arrepio de empolgação. Se Deus a abençoasse com outro filho, ela suportaria outro parto de muito bom grado.
— Logo chegaremos lá. — Ela tentou tranqüilizar a gestante.
— Se eu não tiver este bebê aqui no meio da campina — respondeu Bridget.
Rugas de dor rodeavam-lhe a boca. Outra violenta contração acometeu a mulher, e Aileen a ajudou a passar por ela.
— Fico feliz que esteja aqui, Aileen — sussurrou Bridget. — Mesmo que Seamus a tenha proibido de ser nossa curandeira, sempre confiei em você.
As palavras tranqüilizaram Aileen. Instantes mais tarde, Cillian chegou com a carroça e o cavalo. Lorcan ainda não havia voltado com Frasier, mas Aileen confiava no menino para encontrá-lo.
Com Bridget segurando a própria barriga, a carroça cortou a campina. Vendo as tochas desaparecerem ao longe, Aileen se flagrou pensando em Connor. Ele havia voltado para a choupana, prometendo aguardá-la. Embora soubesse quais eram suas intenções, não sabia o que pensar a respeito.
Não que isso tivesse alguma importância agora. Precisava permanecer com Bridget até o nascimento, e Connor se cansaria de esperar por ela. Ela não voltaria para casa antes da alvorada.
A carroça se deteve diante da choupana de pedra e Cillian ajudou a carregar Bridget até o catre de palha. Zaira já estava com uma panela de água esquentando sobre o fogo.
— Devo ficar até que Illona chegue? — perguntou o irmão.
— Não. Mas obrigada pela sua ajuda esta noite. — Ela abaixou o tom de voz até sussurrar. — E obrigada por me deixar fazer isto.
O irmão foi embora, e Aileen trabalhou com Zaira para preparar o parto de Bridget. Frasier chegou, por fim, mas embora houvesse assistido os outros partos, estava mais pálido do que Bridget.
— Não a quero aqui — disse bruscamente. — Devemos esperar por Illona.
— Ela ainda não chegou — argumentou Aileen. — E não acho que Bridget vá esperar. Prefere que ela dê à luz sozinha?
Frasier estremeceu, mas sacudiu a cabeça.
— Seamus disse que você foi amaldiçoada pelos sibh dubh, Aileen O’Duinne. Não vou deixar que se aproxime de Bridget. Não depois do que houve com os filhos dele.
Aileen teve vontade de sacudir o homem, até que um pouco de juízo entrasse em sua cabeça,
— Fiz o parto de cada um dos seus três filhos, Frasier O’Duinne. Nada de ruim aconteceu com nenhum deles.
— Isso foi antes da maldição.
— Não há nenhuma maldição — insistiu ela.
Sentia a própria frustração se intensificando dentro de si. Uma criança estava para nascer, Egoisticamente, queria ser a curandeira que a traria ao mundo.
Bridget gritou novamente, e o desespero se estampou no rosto de Frasier. Ele faria qualquer coisa para acabar com a dor da esposa.
— Quer que eu vá embora? — perguntou Aileen, baixinho. Rezou para que ele não aceitasse a oferta.
Frasier deixou os ombros caírem.
— Não resta muito tempo, resta? Ela sacudiu a cabeça.
— O bebê não deve demorar muito para vir. Ele empalideceu, contemplando as conseqüências de Aileen ir embora. Ela pegou a mão dele.
— Juro que vou cuidar bem dela. Ela é forte e saudável. Tudo vai correr bem. E Illona logo chegará.
— Bridget não vai gostar se você for embora. Relutantemente, andando de um lado para o outro, ele a deixou ficar. Aileen ficou grata que as outras crianças estivessem dormindo nas tendas na aenach, longe dos gritos de dor da mãe.
Ao longo da próxima hora, ela mandou Frasier realizar várias tarefas desnecessárias fora da choupana. A atividade o impediu de ficar rondando Bridget. Por fim, Illona chegou. A mulher não revogou nenhuma das ordens de Aileen, apenas trabalhou ao lado dela.
Sem que se dessem conta, o tempo passou e, por fim, Aileen chamou Frasier para ajudar Bridget a assumir a posição de cócoras. Ele suportou o peso da mulher, enquanto ela empurrava. A eternidade se comprimiu em um único instante, quando Bridget fez força. O suor brotou de sua testa. Ela fechou os olhos para se concentrar na tarefa, enquanto Aileen invocava um canto rítmico de cura. As palavras suaves fluíam, palavras conhecidas que Kyna havia dito e passado para Aileen sempre que uma nova vida estava prestes a vir a este mundo.
A voz de Illona se mesclou à dela, e as duas mulheres se uniram para guiar o nascimento. A pequena cabeça forçava a passagem pelo útero, deslizando para as mãos de Aileen. Ela ajudou os ombros a passarem e limpou a boquinha. Os únicos sons na choupana eram o cântico, a respiração ofegante de Bridget, e o súbito choro do recém-nascido.
Aileen pousou a criança sobre a barriga de Bridget, lágrimas lhe desceram pela face ao lembrar-se do nascimento da própria filha.
— É uma linda menina, Bridget.
Jamais deixava de se sentir encantada com a vinda de uma nova criança ao mundo.
— É mesmo — concordou Bridget, acariciando a cabecinha do bebê.
Illona amarrou o cordão umbilical e o cortou.
— Você foi ótima, Aileen. Eu mesma não teria feito melhor — elogiou Illona.
Aileen aceitou as palavras de louvor, mas elas eram apenas um lembrete de que havia sido substituída por outra pessoa. Ela tentou se concentrar no que realmente importava, mas Illona já havia tomado o seu lugar, guiando Bridget pelo pós-parto. Graças a Deus, não houvera ruptura, não havendo necessidade da aplicação de cataplasmas.
Ela pegou uma léine limpa para Bridget, enquanto Illona enrolava as secundinas em um pano para serem enterradas mais tarde. Quando Bridget já estava acomodada na cama com o bebê recém-nascido, Aileen se despediu da família.
Lá fora, lavou as mãos em uma tina de água para os animais. O ar da noite de verão havia ficado frio e Aileen estremeceu, esfregando os braços. Estrelas brilhavam no céu negro, enquanto o ruído de grilos rompia o silêncio.
Aileen cobriu a cabeça com o brat e enrolou as pontas da manta de lã ao redor dos ombros. A alegria de trazer um bebê ao mundo a fez sorrir. Ela cruzou a distância que a separava de sua choupana, agradecida pela bênção de um parto fácil.
Para a sua surpresa, viu Connor abrir a porta da choupana. Seu enorme corpo preenchia o vão da porta, e ele lhe estendeu uma caneca de madeira de vinho. Aileen a aceitou, tomando um demorado gole.
— Lorcan me contou sobre o bebê de Bridget. Correu tudo bem?
— Correu. Ela teve uma linda menina.
O sorriso de Aileen se alargou diante da lembrança dos dedinhos enrolando-se ao redor do seu polegar. Foi muito importante para ela poder assumir o papel de curandeira para a prima, mesmo que apenas por um instante.
— Está acordado até tarde — ela comentou.
— Prometi esperar você.
Um arrepio de premonição a dominou, quando Connor a levou para dentro. Era como retroceder no tempo, até a menina que havia sido na noite de Bealtaine. Mas, desta vez, ele a estava convidando a se juntar a ele. Sua pele ficou mais quente, o coração começou a bater mais rápido. Será que queria mesmo isso? Será que ela o queria, mesmo sabendo que, em breve, ele a deixaria novamente?
Uma panela de água quente estava pendurada sobre o fogo, e ele a despejou em uma bacia rasa.
— Sente-se — convidou.
Aileen sentou-se no banco de madeira, insegura quanto às intenções de Connor Ele ajoelhou-se diante de Aileen e colocou os pés dela no seu colo. Sua palma esquerda traçou o contorno de seu pé. Embora os dedos retorcidos de sua mão direita devessem ter lhe causado aversão, arrepios sensuais provieram do toque da palma calejada.
Ela sabia o quanto o esforço estava exigindo dele, o nível de concentração. Com firmeza, despejou um punhado de água sobre o pé descalço, banhando-os como mandava o costume antigo.
— Não precisa fazer isso — disse ela.
— Eu quero.
Ele trouxe as mãos dela aos ombros enquanto lhe acariciava a sola dos pés. Anos de combates haviam moldado linhas rígidas de força nos seus braços.
Ela tentou ignorar a reação de seu corpo a ele, forçando-se a não fitar a boca firme a poucos centímetros de distância.
— Para você, não passo de mais uma mulher, Connor. E não é isso que quero.
Ela ficou de pé, sem se importar que o vestido se molhasse.
— Está enganada, Aileen. — Ele ergueu os olhos prateados, enfeitiçando-lhe os sentidos. — Mais do que qualquer outra mulher, eu a quero esta noite.
Lembranças fragmentadas se apossaram dela. Quando menina, quando tentara obter sua atenção, ele não a quisera. Não podia se enganar achando que ele a queria agora.
Antes que ela pudesse detê-lo, Connor inclinou-se à frente e a beijou. Ela sentiu o gosto doce do vinho na boca do homem, uma onda inebriante de sensações. A língua dele provocava a dela, e, embora sua mente lhe implorasse para parar, Aileen se abriu para ele. Hesitantemente, provou-o com a própria língua. Pingos de água lhe umedeciam o vestido, e ele afastou o brat de seus ombros, deixando que o xale caísse no chão. Sua pele estava em chamas e, o tempo todo, ela se derretia ante o calor da boca de Connor sobre a sua.
— Aileen — ele sussurrou, enfiando a mão sob o vestido dela. Ele queria lhe retirar a pesada roupa, mas ela recuou.
— Quer que eu pare?
Seu coração estava em disparada sob os seios, e ela hesitou. Presa entre a razão e o desejo, ela lutou contra a necessidade que seu corpo tinha dele.
— Não sei o que quero — disse, com sinceridade. — Você vai embora.
Ele levou a mão à face de Aileen.
— O que não significa que não possamos desfrutar um do outro enquanto estou aqui.
Ela fechou os olhos, sem querer que ele lhe enxergasse a indecisão.
— E se eu lhe pedisse para não ir? Você abriria mão de sua vingança?
Lentamente, ele sacudiu a cabeça.
— Não posso ficar, Aileen. — Connor ergueu a mão direita deformada. — Preciso ser o mesmo homem que um dia já fui.
Suas palavras esmagaram qualquer esperança que ela pudesse ter tido. O orgulho do guerreiro era mais importante do que qualquer outra coisa.
A boca quente do homem plantou um beijo na parte sensível de seu pescoço, deixando-a toda arrepiada. Por um instante, permitiu que a tentação levasse a melhor sobre a razão. Ele retirou seu vestido, abaixando as dobras da lénie até que esta estivesse pendurada em sua cintura. Ele afastou-se para poder admirá-la, exposta diante dele.
— Sua pele me lembra esta água — disse ele, com a voz rouca. — Suave e quente.
Ele encheu a mão com o líquido, derramando-o sobre os seios dela. Seus mamilos se intumesceram diante da sensação das gotas atingindo-os.
Depois, ele se curvou para tomar-lhe o seio na boca, e ela não conseguiu mais se lembrar de por que isso era um erro. Embora fosse uma noite em que homens e mulheres estivessem fazendo amor uns com os outros em meio à escuridão, Connor MacEgan era um homem perigoso. Com suas palavras e seu toque ele havia lhe sitiado o coração.
Pelos doces santos, ele sabia como seduzi-la com a boca. Ele a sugava, puxando-a para dentro da boca, até que sua feminilidade se umedeceu em resposta.
Não, sua mente implorava, ao mesmo tempo em que inclinava a boca na direção da dele. Ela o beijou com a lembrança da paixão compartilhada, da magia de Bealtaine. Seu corpo latejava para senti-lo preenchendo seu vazio interior.
Entregue-se a ele, insistia o corpo. E, que Deus a perdoasse, precisava dele naquela noite.




Capítulo Doze



Ela lhe retirou a túnica, roçando os polegares na pele dele. Cicatrizes de batalha lhe marcavam o tronco, e ele inspirou profundamente quando ela trilhou seu peito com os dedos. O toque de suas mãos o incendiava.
Aileen desceu da bacia e Connor se ajoelhou para secar-lhe os pés. Embora estivesse se esforçando para controlar as mãos, não podia lhe acariciar as pernas longas do jeito que queria. Usou a boca para deixar uma trilha de beijos das panturrilhas bem moldadas até a pele macia das coxas. Ela estremeceu diante do toque. Embora fosse mãe e viúva, ela lembrava uma jovem virgem com seu acanhamento.
Verdade fosse dita, ela o fazia se recordar da primeira vez em que havia feito amor com uma mulher. Na noite de Bealtaine, havia tocado em seios macios e firmes como estes.
— É verdade que costumava ser apaixonada por mim? — murmurou.
Uma expressão de surpresa tomou conta de  seu rosto.
— Não.
— Nem mesmo um pouquinho?
— Nem mesmo um pouquinho.
— Está magoando meus sentimentos, Aileen O’Duinne — brincou ele, beijando-lhe o volume dos seios.
— Você não tem sentimentos, Connor MacEgan. Qualquer mulher serve para você — brincou ela.
Sua voz pareceu um pouco frágil e ele afastou-se para poder fitá-la.
— Qualquer mulher, não.
Ele não gostava da impressão que estas palavras causavam dele. Podia gostar de flertar com as mulheres, mas não as levava para a cama. Outros já haviam zombado dele assim, mas Connor jamais dera importância ao que diziam.
Dava importância ao que esta mulher dizia. Incomodava-o que o tivesse visto deste jeito. Um fraco, como o fragmento partido de um homem. Ela o havia banhado e alimentado, como se não passasse de um bebezinho. Preferiria a morte a se esconder atrás de suas saias diante da espada do inimigo.
Da próxima vez em que encontrasse Aileen O’Duinne, ela veria o guerreiro que ele sempre havia sido. Mas, naquele instante, queria lhe mostrar o quanto queria provar o gosto dela.
Apoderou-se de sua boca. Capturou-lhe a nuca na curva do braço, e o aroma doce de alecrim moído emanou de seus cabelos.
Precisava escutar dos próprios lábios dela que ela o desejava. Precisava tocá-la, ver o seu corpo se contorcer de prazer.
Mas, em vez de abrir os braços para ele, Aileen estremeceu. O prazer que ele acendera em seus olhos havia desaparecido. No seu lugar, ele percebeu temor.
— Do que tem medo? — Uma sombria suspeita se apossou dele. — Eachan alguma vez a machucou?
— Não, nunca. — Ela passou as mangas da léine pelos ombros. Com o corpo coberto, enxugou as lágrimas. — Mas não posso me deitar com você. Nada mudou.
— Não entendo. Explique para mim. — Nos olhos dela rondava uma profunda escuridão. A dor não lhe apagara o desejo, mas ele se recusava a ignorar a questão. — O que há de errado? Não machucamos ninguém, desfrutando um do outro.
— Eu acabaria me magoando. — Ela enxugou as faces e desviou o rosto. — Não posso estar com você, Connor. Pensei que pudesse esquecer o passado, mas não posso.
Antes que ele pudesse responder, ela abriu a porta da choupana. O ar noturno entrou, fazendo a chama da lareira tremeluzir.
— Preciso que vá embora.
Ele não discutiu. Pegando a túnica, saiu pela porta. As palavras dela haviam ferido seu orgulho, e ele achava difícil olhar para ela. Era a primeira vez que uma mulher o havia rejeitado.
 Sentia-se mais incomodado do que havia pensado que ficaria. De algum modo, ela o relegara ao mesmo nível de Riordan. Não gostou nada disso. Mas por quê?
Será que ela se sentia enojada com as mãos dele? Fitou a deformidade que já havia sido um dia a mão direita. Os machucados já haviam desaparecido, mas os ossos permaneceriam para sempre retorcidos. Esforçou-se para cerrar a mão, mas os dedos se recusavam a alinhar corretamente. O movimento queimava. Estava forçando os tendões e a carne a assumir uma posição que não era mais natural.
É claro que lhe causava aversão. Como poderia suportar fazer amor com um homem que não podia lhe tocar? Era doloroso ter de admitir. Perder a capacidade de lutar era uma coisa. Mas perder o desejo das mulheres era outra bem pior.
Afrouxando as amarras da túnica, vestiu a roupa pela cabeça. Não se deu ao trabalho de amarrar novamente os cordões. De que adiantaria?
Diante da entrada da cabana das enfermidades, hesitou. Suas mãos tocaram a pedra dura, enquanto o cheiro familiar da palha se misturava com o ar noturno. Será que imaginara sua reação a ele?
Ela o havia beijado, permitindo que ele lhe retirasse a léine. Por longos instantes, suportara-lhe o toque, antes que as lágrimas escapassem. Ele sentia uma terrível necessidade de aliviar-lhe a dor, de afugentar os demônios do passado de Aileen.
A questão era: teria ele mesmo se tomado um destes demônios? Será que era agora um homem que mulher alguma poderia querer?
Com as lágrimas fluindo livremente, Aileen largou-se no chão diante da lareira. Ele não conseguia entender, não podia saber da terrível dor que ela sentia no seu âmago.
Ela o queria. Mais do que qualquer outra coisa no mundo, queria receber Connor em seus braços. Mas, da última vez, o que isso lhe trouxera além de sofrimento? E uma filha?
Connor MacEgan jamais poderia deixá-la à vontade. Podia afetá-la de maneiras que ela era incapaz de entender. Nos últimos anos, o havia esquecido e seguido com sua própria vida. Mas, desde o instante em que ele retomara, seus sentimentos se incendiaram.
Se o aceitasse como amante, abriria mão novamente de seu coração. Não tinha dúvidas de que Connor iria embora. Ele retomaria para a família, e ela ficaria sozinha mais uma vez. Não. não podia passar algumas noites de prazer com ele. Para ele seria apenas mais um coito, mas para ela significaria muito mais.
Ele também era o pai de Rhiannon, um vínculo secreto que sempre os uniria. O fato de Connor não haver reconhecido a filha ainda a incomodava.
Talvez não tivesse significado tanto se ela houvesse tido outros filhos. Mas o destino a amaldiçoara desde Bealtaine. Após Rhiannon, ela havia perdido dois outros bebês. Um filho, e depois outro. Ambos natimortos.
Eachan acreditara ser sua culpa, sendo velho demais para ser pai. Depois de lamentaram a morte dos filhos, ele se oferecera para não tocar mais nela, se isso a poupasse de mais sofrimento. Ela havia recusado. Como poderia lhe negar o consolo de seus braços, depois de tudo que ele lhe dera? No íntimo, havia rezado para que Deus lhe concedesse um filho. Mantivera a esperança viva por quase sete anos, antes que a doença tomasse impossível para Eachan tocá-la novamente.
Sem se dar ao trabalho de passar para o catre, ela ficou observando a lareira acesa. O chão frio combinava com seu estado de humor. A exaustão começava a se apoderar de sua mente, levando-a ao ponto de não conseguir mais pensar com clareza.
Seu corpo se arrependia de tê-lo rejeitado. Ela desejou ter podido desfrutar do momento e se entregado às próprias necessidades. Diante da lembrança de seus beijos, do modo como a boca dele percorrera suas coxas, Aileen sentiu-se latejar por inteiro.
Será que deveria ir atrás dele? Trazê-lo até sua choupana e tocar cada músculo rijo, cada protuberância e cicatriz de seu corpo? Sua mão segurou o próprio seio, o mamilo se intumescendo diante da lembrança. Um sorriso agridoce esboçou-se em seus lábios.
Se o fizesse, apenas se apaixonaria por ele de novo.
A lua escondeu-se atrás de uma nuvem. Uma luz cor de âmbar estendeu-se sobre a grama. A alvorada logo chegaria. No ar úmido, Connor pôde prever a chegada de chuva.
Um barulho distante lhe chamou a atenção. Tropel de cavalos, viajando em alta velocidade. Connor entrou na cabana e, com a mão esquerda, pegou a espada do irmão.
 O punho de metal frio se aqueceu sob a palma de sua mão e ele voltou lá para fora. Quer o cavalheiro se aproximando tivesse boas intenções ou não, estaria preparado.
Mas, assim que Connor avistou o menino agarrado à crina da égua, embainhou a espada. Os ombros pequenos de Whelon projetaram-se à frente, enquanto ele se esforçava para frear o cavalo.
— O que foi? — perguntou Connor.
— Um dos bardos — informou Whelon, ofegante. — Ele morreu. Vi os braços dele e estavam cobertos de chagas. Aileen precisa vir comigo.
Connor procurou conter o arrepio gelado que ameaçou percorrer o seu corpo. Já vira esse tipo de doença antes. Os demônios invisíveis da enfermidade podiam atingir qualquer homem, e matá-lo em questão de dias.
— Espere aqui.
Ele abriu a porta de Aileen sem bater, e ela se sobressaltou.
— Precisamos voltar à aenach. Um dos bardos morreu.
— Como? — Aileen não discutiu. Apenas pegou sua cesta, enchendo-a de ervas secas e bandagens. — Tem certeza de que ele está morto?
— Ele morreu de varíola. Whelon viu as chagas.
Aileen ficou pálida, mas envolveu os ombros com o brat. Ela pegou um frasco de pedra e fez o sinal da cruz. Connor se deu conta de que ela estava levando consigo água benta.
— É melhor começar a rezar para que os demônios não nos abatam — ela insistiu.
Embora ela estivesse se esforçando para manter a calma, Connor pôde lhe enxergar o medo.
No seu âmago, seus sentimentos não eram lá muito diferentes. A varíola não se revelava de imediato. Às vezes dias, ou até uma semana, poderiam passar antes que soubessem quem havia sido afetado.
— Não diga nada para ninguém — pediu Aileen. — Não preciso de uma aldeia tomada de pânico.
— E quanto à outra curandeira, Illona? Os ombros de Aileen caíram, e seu rosto ficou sombrio.
— Nós a alertaremos assim que tivermos visto o corpo. Vou precisar ver as chagas antes, para ter certeza. Se for varíola... chamaremos Illona.
Connor a ajudou a montar atrás de Whelon.
 — Eu os alcançarei assim que puder.
Dando um tapa no lombo da égua, os dois cavalgaram na direção da feira. Connor murmurou baixinho uma prece. Ele montou o cavalo deixado para trás pelos irmãos e o esporeou. Erguendo os olhos para o céu escuro, perguntou-se quem haveria de ser poupado. E quem repousaria sob o chão frio.
Quando Aileen alcançou a aenach, Whelon a conduziu ao local onde os bardos haviam montado acampamento. Connor chegou pouco depois. Confuso, fitou o local onde estivera uma tenda. A não ser por uma corda caída e grama pisoteada, não havia sinal dos homens.
— Ele estava ali. Eu o vi. — A incredulidade estava evidente nos olhos de Whelon. — Para onde foram?
Aileen ajoelhou-se para olhar mais de perto. Ela não duvidava da palavra de Whelon, pois o menino jamais havia contado uma mentira. E, se de fato era varíola, os homens tinham motivos mais do que suficientes para fugir.
— Espere. Estão sentindo isso? Connor apontou para longe.
Ela o seguiu, afastando-se das outras tendas. O cheiro pungente de carne queimando a fez ter vontade de vomitar. Não demoraram muito para encontrar a origem. Dentro de uma fogueira improvisada, longe do locai da feira, estavam os restos queimados de um corpo.
Aileen fez o sinal da cruz, silenciosamente rezando pela alma do homem. Ela manteve distância, mas não conseguiu enxergar nenhum sinal vestígio de varíola na pele queimada.
— Conte-me das chagas que viu — disse ela, baixinho. Whelon desviou o olhar do corpo. Seu rosto estava pálido, tomado de terror. A morte não era novidade para ele; não era para ninguém. Mas sua boca tremeu.
— Ele tinha chagas nos braços, do tamanho de pequenas amoras. Suas faces estavam vermelhas e eu o ouvi tossir.
Aileen lembrou-se do homem que tinha visto antes. Embora a tosse constante pudesse ser sinal de uma enfermidade grave, ela não viera nenhuma chaga de varíola. Talvez Whelon estivesse enganado.
— O que acha? — perguntou Connor. Ela sacudiu a cabeça.

— Sem ver as chagas, não sei. Muitas doenças se parecem umas com as outras. Talvez não seja o que pensamos.
Por favor, que não seja o que pensamos. Ela já ouvira histórias de aldeias inteiras que haviam sido vítimas da varíola. Os poucos sobreviventes ficaram marcados por toda a vida.
— O que devemos fazer? — perguntou o menino. Aileen passou o braço ao redor dos ombros de Whelon.
— Você deve voltar para casa, para o seu pai de criação. Ele vai lhe puxar a orelha por deixá-lo tão preocupado. — Ela passou a mão no cabelo dele. — Descanse um pouco.
— E quanto ao homem? — Whelon quis saber. — Não podemos simplesmente deixá-lo aqui.
— Eu cuido dele — disse Connor, baixinho.
Aileen o fitou nos olhos, deixando clara sua gratidão pela oferta. Logo, as pessoas iriam sair das tendas e poderiam descobrir o corpo. Os contadores de história há muito tinham desaparecido, e sua intenção de ocultar o corpo era bem óbvia. Não voltariam em busca do companheiro.
— Obrigada — disse ela. estendendo a mão para lhe tocar o braço. Os olhos acinzentados do guerreiro brilharam por um instante, depois voltaram a ficar frios.
— É melhor você também descansar.
Ele recuou e, de repente, Aileen lembrou-se de ter pedido que ele fosse embora.
Sua cabeça estava cheia de pensamentos confusos. Embora soubesse ter tomado a decisão correta, pedindo que ele se fosse, não gostava do modo como olhava para ela agora. Uma distância iria havia se estendido entre eles, um escudo invisível que era incapaz de penetrar.
Ela ajudou Whelon a montar novamente na égua. O menino apoiou-se sobre a crina, o corpo pequeno sem forças devido ao cansaço. Ela virou-se para olhar Connor, seu corpo diminuindo na distância. Queria manter sua promessa de ajudá-lo a sarar. Havia maneiras de reparar os ligamentos rompidos, de acelerar o seu progresso, colocando-o em condições de lutar novamente. Seriam necessárias muitas semanas, mas talvez ele a deixasse tentar.
Sua mente imaginou diferentes talas para ajudar a ajustar os movimentos, exercícios que Kyna lhe havia ensinado para ajudar a reconstruir os músculos danificados. Estava determinada a curar por completo os ferimentos de Connor MacEgan. E não cederia à tentação, independente do que pudesse acontecer.
Enquanto isso, rezaria para que ele fosse poupado dos demônios da doença.
Outra semana passou e Connor experimentou o peso da espada na mão direita. Aileen o havia forçado a usar talas durante a noite, mantendo a pressão nas articulações. Ele não havia mais tentado seduzi-la, e ela também não mencionara a noite em que o rejeitara.
O pulso doía devido ao esforço de segurar a espada, mas ele manteve a dor em silêncio. Contudo, ela não deixou de notar.
— Tente com a outra mão — pediu.
Connor mudou de mão e praticou alguns golpes. Aileen estava por perto, mas sua presença o distraía. Estava usando um vestido cor de musgo, com uma léine de um tom mais claro de verde. O cabelo estava preso em uma única trança, que lhe rodeava a cabeça como uma coroa. Os cachos escuros pendiam sobre os ombros e, como sempre, o perfume dela era o mesmo das ervas com as quais trabalhava.
Seu desejo por ela não havia diminuído, Parecia até desejá-la ainda mais. Ele golpeou com a espada, movimentando o pulso contra um inimigo imaginário. Uma dor cortante lhe atormentava o pulso, mas ele se forçou a continuar.
— Chega — pediu Aileen, e ele embainhou a espada. — Deixe-me ver os seus dedos.
Ele os estendeu para ela que puxou cada uma das articulações.
— Precisamos colocar as talas novamente.
Os dedos dela massageavam os nós dos seus, aliviando a dor. Ele prendeu a respiração diante do gesto carinhoso. — O que você sente?
Ela puxou gentilmente cada um dos dedos, sua pele macia de encontro à superfície calejada.
— Dói.
Ela franziu a testa e o puxou de volta para a cabana das enfermidades. Uma variedade de bandagens e talas o aguardava, e ela ajustou os dedos da mão direita.
— Vou imobilizar esta novamente. Não a use por mais alguns dias e talvez eu consiga alinhar os músculos.
Ela enrolou a mão, sua atenção sobre a palma. No entanto, uma onda de ardor percorreu o corpo de Connor. Era um tormento não ser capaz de tocar nela. Quando ela pegou um dos dedos retorcidos, ele estremeceu. Suas faces coraram de constrangimento, pois o dedo parecia mais pertencer a um anima! do que a um homem.
— Você mentiu para mim — disse ela, baixinho. — Está sentindo muito mais dor do que quer admitir.
— Um guerreiro está acostumado à dor. Não importa.
— Posso lhe dar uma poção para aliviar o sofrimento.
— Não preciso perder meus dias dormindo, Aileen. — Quando ela terminou de prender as talas, o tom de voz dele ficou mais suave. — Como estão Bridget e o bebê?
Um sorriso meigo apareceu nos seus lábios.
— A menininha é um doce. Ela adormeceu uma ou duas vezes nos meus braços.
— Você as visita todos os dias? Ela assentiu.
— Disse para Bridget que é para ver como elas estão, mas na verdade quero segurar o bebê. Já faz tanto tempo desde que segurei Rhiannon.
— Deveria ter mais filhos. O sorriso dela desapareceu.
— Para isso, preciso de um marido. E, no momento, não está nos meus planos me casar.
O rosto dela pareceu arder e Connor lembrou-se das afeições indesejadas de Riordan.
Subitamente, ela inclinou a cabeça.
— E por que você nunca se casou?
— Não tenho propriedades — ele disse. — Poucas filhas de chefes tribais aceitariam um candidato pobre como eu.
— Certamente o seu pai deve ter lhe deixado algumas terras. Connor deu de ombros.
— A propriedade que ele me deu não passava de um pequeno pedaço de terra. Eu a devolvi para o meu irmão mais velho. Recebo pagamento dos arrendatários, mas não possuo minha própria fortaleza.
— E precisa? Não pode ser feliz como fazendeiro?
A pergunta foi feita de modo ligeiramente zombeteiro.
— Quem dera eu pudesse.
Ele sabia que não deveria querer mais do que tinha. Mas saber que o irmão detinha comando de uma enorme fortaleza e milhares de hectares de terra, enquanto ele não tinha o mesmo, o incomodava. Suas habilidades de luta eram impressionantes o suficiente para ele mesmo se tomar rei. Mas sequer sonhara em desafiar Patrick pela honra. Respeitava demais o irmão mais velho.
— O que fará depois que partir? — perguntou Aileen. Havia um traço de piedade na voz dela e Connor estremeceu.
— Vou voltar para casa e treinar até que tenha de enfrentar O’Bannion.
— E se você perder?
Seu sorriso não continha humor.
— Estarei morto, e não fará diferença, fará?
— Não é para ser uma luta até a morte, Connor.
— Vai ser.
Ele não esperou pela reação dela, mas usou a mão esquerda para abrir a porta. Para a sua surpresa, um grupo de meninos estava esperando por ele no topo da colina. As idades variavam do pequeno Lorcan até alguns rapazes velhos o suficiente para ser escudeiros. Alguns traziam espadas de madeira, outros adagas, e o menor deles exibia orgulhosamente um grosso galho de árvore.
— Seu regimento chegou — comentou Aileen, secamente. Lorcan adiantou-se, com um sorriso largo no rosto de menino. Ele afastou uma mecha dos cabelos castanho-escuros do rosto.
— Trago uma mensagem de nosso chefe tribal. Seamus O’Duinne deseja que você e Aileen jantem com ele esta noite. — Ele curvou-se após ter concluído a mensagem. — Que resposta devo dar?
Connor trocou um olhar com Aileen, que inclinou a cabeça.
— Aceitamos o convite do chefe tribal.
— Estejam lá antes do pôr do sol — recomendou Lorcan. Pela ansiedade nos rostos dos meninos, Connor perguntou.
— Querem mais alguma coisa?
Um dos meninos mais velhos adiantou-se.
— Gostaríamos que nos treinasse, senhor.
Ele não sabia o que dizer. Aileen colocou-se ao lado dele e tocou-lhe o braço.
— Queria um propósito para a sua vida, que não fosse ser fazendeiro. Parece que o destino se encarregou de atender seu pedido.




Capítulo Treze



— O galho de árvore pesava mais do que ele — completou Connor.
De tanto rir, Aileen enxugou as lágrimas dos olhos. Depois de passar o dia assistindo ao maltrapilho grupo de meninos tentando acertar um ao outro com cajados de madeira, ela não sabia quando se divertira mais.
Connor não os repreendera e nem os tolhera, mesmo quando dois dos meninos começaram a perseguir um ao outro com os cajados. Simplesmente os desarmara e os forçara a se sentar na grama e ficar assistindo aos outros. A proibição de participar já era castigo o suficiente.
Os meninos mais velhos receberam mais atenção. Connor lhes corrigira as posturas, oferecendo conselhos sobre quais movimentos derrubariam um inimigo. Eles escutaram e nenhum deles indagou algo a respeito dos ferimentos de Connor. Todos pareciam aceitar que, com o tempo, ele recuperaria sua capacidade de lutar.
A mão esquerda de Connor roçou na mão de Aileen e ele apossou-se da palma. Ela aceitou o toque, embora seu coração hesitasse. Ele continuou falando sobre o treinamento dos meninos, como se o gesto nada significasse. Aileen tentou relaxar, mas estava distraída. Pare de se portar como uma menina tonta. Mas o toque dele desenredava-lhe os sentidos. Antes que se desse conta, já estavam diante dos portões da fortaleza em anéis de Seamus O’Duinne.
As paredes de pedra cercavam um grupo de construções periféricas, enquanto a casa do chefe tribal repousava além da muralha interna. Embora a donjon não fosse tão impressionante quanto outras que ela já havia visto, a fortaleza ostentava sinais de riqueza.
Lá dentro, uma serviçal recebeu a capa escarlate de Aileen, e Riona O’Duinne correu para abraçar Connor.
— Fico muito feliz em revê-lo, a dalta.
Riona O’Duinne despenteou Connor, como se este ainda fosse um menino.
Aileen conteve o sorriso diante do termo afetuoso. Connor MacEgan sempre seria visto como o filho de Riona, independente do fato de não ser sangue de seu sangue.
Para Aileen, ela assentiu brevemente. A mensagem era clara: sua presença seria tolerada, mas não era bem-vinda. Não houve beijo e nem abraço, e Aileen fingiu não se importar.
— Olá, Riona — disse.
A mulher não retribuiu o cumprimento. Para Connor, ela sorriu calorosamente.
— Eu o vi na aenach, mas, como disse para Seamus, estava querendo passar mais tempo com você. Disse para aquele homem que se intitula meu marido que não dormiria com ele até que tivesse convidado o meu menino para uma visita.
Seamus revirou os olhos.
— Pare de tagarelar, mulher, e deixe o homem entrar para comer conosco.
Com um sorriso no rosto, Riona acariciou o braço de Connor.
— Venha, entre.
Connor virou-se para Aileen e lhe estendeu a mão. Ela a aceitou, notando o desgosto de Riona. Por um instante, perguntou-se por que havia sido convidada.
Connor a conduziu até um banco de madeira dentro da casa, onde se sentaram. A casa do chefe tribal possuía apenas um nível, mas seu interior era enorme. Divisórias separavam a casa era cômodos menores para dormir, enquanto o aposento maior era usado para entreter convidados.
— Como estão as mãos? — Seamus perguntou a Connor.
— Ficam mais fortes a cada dia que passa — disse ele.
E não estava mentindo. Com a ajuda de Aileen, agora notava ligeiro progresso. Cada noite que passava, ela ajustava as talas, e sua amplitude de movimentos estava aumentando.
 Seamus resmungou:
— Ótimo. — Seu olhar fixou-se sobre Aileen. — Bridget e Frasier me contaram que fez o parto do novo bebê deles.
— Fiz. — Ela ergueu o queixo, fitando-o diretamente nos olhos. — Bridget tem um filha saudável.
— Estava proibida de curar.
— Minha prima precisava de ajuda.
A fúria tomou conta de sua expressão. Como ousava ele censurá-la por ajudar a própria família? Estava cansada de se defender, cansada de ser culpada pelo que havia acontecido com os filhos dele. Seu coração se apertava só de lembrar dos corpinhos frágeis dos bebês. Quem dera pudesse desfazer o passado.
— Illona me contou que fez um bom trabalho enquanto estava lá. Será que as palavras dele haviam ficado mais gentis? Ou será que era apenas a imaginação de Aileen? O olhar de Seamus desviou-se para as mãos de Connor.
— Após aquela noite, Flynn O’Bannion ordenou que Illona voltasse para Dunhaven. Sabia disso?
Aileen sacudiu a cabeça, contendo a onda de esperança que se apossou dela.
— Não, não sabia. Pensei que ela ia ficar conosco.
— Quando Flynn soube da presença de Connor, ele a proibiu de ficar.
O tom de voz dela encheu-se de desconfiança.
— Por que está me contando isso?
Ele olhou para Riona, cujo rosto estava pálido.
— Até o Samhain, lhe concederei o direito de voltar a ser nossa curandeira. Se provar o seu valor, talvez possa permanecer nessa capacidade.
— Não! — exclamou Riona. Seus olhos estavam cheios de dor, e o rosto pálido carregado de emoção. — Não pode fazer isso, Seamus. Não depois do que houve com nossos filhos. Eles morreram por causa dela.
Aileen sacudiu a cabeça, incapaz de falar. Ela reconheceu a dor primordial da perda sofrida por uma mãe. Se algo acontecesse com Rhiannon, será que ela não sentiria o mesmo? Não havia palavras capazes de apagar a raiva de Riona. Apenas o tempo poderia se encarregar disso.
Seamus segurou a mão de Riona, acariciando-a.
— Não precisa ter medo, a ghrá. Ela não fará mal a ninguém. Com um alerta selvagem estampado no rosto, ele inclinou-se à frente.
— Apenas uma morte que seja durante o seu período de teste, Aileen, e terá de nos deixar. Está entendendo?
— Não sou Deus. Não posso evitar mortes por causas naturais — argumentou ela, sufocando a esperança que crescia dentro de si. — Se a alma de um homem é chamada, nada posso fazer.
— Nenhuma morte provocada por suas mãos.
— Está pedindo o impossível. Nenhuma curandeira pode fazer tal promessa.
— Neste caso, encontrarei outra pessoa.
— Você me forçará a partir, caso eu falhe?
— Forçarei. — A seriedade de seu rosto a convenceu. — Até que tenha provado o seu valor, nosso povo acreditará que é amaldiçoada. Se algo der errado, não confiarão novamente em você. Não posso saber o que farão. Seria para o seu próprio bem.
Aileen sentiu como se estivesse dependurada na borda de um despenhadeiro. Queria tanto aceitar a oferta, esta segunda chance. Mas se falhasse durante o período de teste, talvez tivesse de abandonar seu lar e a família.
A lembrança da morte do contador de histórias a assombrou. Embora ainda não houvesse visto nenhum indício de varíola, este ainda poderia aparecer.
E, se aparecesse, não haveria ninguém além dela para ajudá-los. Mais pessoas morreriam se ela não concordasse. Não havia outra escolha senão aceitar a oferta de Seamus. Embora o risco fosse grande, e apenas por pouco tempo, ela precisava ser novamente uma curandeira.
— Eu aceito — sussurrou.
— Eu lhe imploro, Seamus — suplicou Riona. — Pense no que aconteceu com nossos filhos.
— Não foi culpa dela — interveio Connor, pousando a mão sobre o ombro de Aileen. — Não pode culpá-la pelas mortes deles.
Aileen sentiu-se tomada de calor diante do toque tranqüilizador. Era muito importante para ela ouvi-lo defender seus talentos.
— Ela também arruinou a vida de Whelon. — O rosto de Riona foi tomado de fúria. — Era para ele se tomar um líder, como o pai. O que lhe resta agora que ele não pode lutar?
Ela começou a chorar.
Connor e Aileen se entreolharam, e ele ficou de pé. O filho de criação abraçou Riona e falou baixinho com ela. Aileen não conseguiu escutar o que ele disse, mas as palavras pareciam ter trazido conforto a Riona. Com o rosto fantasmagoricamente pálido, a mulher mais velha enxugou as lágrimas.
— Com licença — disse. — Já volto.
Seamus deixou os ombros caírem ao fitar o corredor por onde a mulher desapareceu.
— Ela ainda sofre muito. Chora pelos meninos, e sequer consegue olhar para Whelon.
— Mas Whelon ainda está vivo — disse Aileen baixinho. — Vocês ainda possuem isso.
O rosto de Seamus exibia cansaço.
— Não é o bastante para ela.
Ele fez sinal para que duas serviçais trouxessem duas bacias de água.
Sentando-se ao lado de Connor, ela notou seu olhar. Embora fossem as mãos de outra serviçal nos pés dela, Aileen ficou toda arrepiada. Os olhos acinzentados de Connor pareciam ser capazes de incendiá-la, e ela pensou nas mãos dele sobre seu corpo. Como se para tomar a visão ainda mais intensa, ele cobriu sua mão com a dele.
Ela inspirou profundamente, inalando o agradável perfume masculino. A proximidade dele derrubou-lhe as defesas. Sentia-se pequena ao lado do guerreiro. Embora este houvesse sido ferido, os constantes exercícios mantinham o corpo forte. Seu peito preenchia cada centímetro da túnica que usava, e ela pôde sentir o poder que ele irradiava. No campo de batalha, Connor devia ter sido um oponente formidável.
Antes que pudesse ordenar seus pensamentos, a serviçal lhes secou os pés e eles caminharam descalços sobre um capacho de palha até as almofadas que cobriam o chão.
Com os olhos vermelhos de tanto chorar, Riona retomou. Postou-se ao lado do marido, que lhe estendeu um cálice de prata.
— Por favor, sentem-se — convidou ela.
A mesa baixa estava coberta por uma toalha, e eles aceitaram dois cálices de vinho. Aileen deu um gole, e a doçura da bebida a pegou de surpresa.
— Onde conseguiu isso? É o melhor vinho que já provei.
— Eu o consegui em uma troca — admitiu Seamus com orgulho. — Com um homem vindo da Saxônia, e nunca provei vinho melhor.
— E já provou muito dele — argumentou Riona. — Entre o vinho e seu uísque irlandês, é de surpreender que ainda não tenha transbordado, considerando a quantidade de barris que já bebeu.
Aileen escondeu o sorriso atrás do cálice. Estava sentada ao lado de Connor na mesa, seus joelhos se roçando. Um harpista começou a tocar uma melodia agradável quando os serviçais começaram a trazer a entrada.
O resto da noite passou como um sonho, pois ela só podia pensar nos olhos de Connor sobre si. Aileen se viu prestando atenção em cada movimento que ele fazia. Connor lhe oferecia os melhores pedaços do porco assado, seus dedos roçando nos dela ao lhe passar a carne.
Ela lutou contra as reações do corpo, desejando que ele não fosse capaz de tentá-la tanto. Naquele exato instante, tudo que queria era sentir seus braços envolvendo-a, provar o calor de sua boca. Queria o beijo dele de encontro à garganta, seios, até tocando o mais íntimo dos lugares. Seu vestido havia ficado excessivamente quente, e ela bebeu o restante do vinho, numa tentativa de afastar as ânsias indesejadas.
Fitou-o sob o torpor da bebida. Pela abençoada Belisama, mas como ele era bonito! Seu cabelo dourado estava puxado para trás e amarrado com uma tira de couro, seu rosto de guerreiro era forte e esculpido. A atenção dela voltou-se para a boca, para os lábios masculinos que haviam lhe proporcionado tanto prazer. Aileen fechou os olhos, para evitar a tentação.
— Quer mais? — perguntou ele, estendendo-lhe a jarra de vinho. Sua voz a enfeitiçou com seu timbre baixo. Olhos cinza-escuros fixaram-se nos dela, espelhando o seu próprio desejo.
— Quero — sussurrou ela.
Ao encher-lhe o cálice, Connor lançou um olhar para Aileen que quase a fez se derreter. Apesar do ligeiro estado de embriaguez, estava ciente de suas ações. Era uma mulher adulta com suas necessidades, e ali estava o homem com quem sempre sonhara, olhando para ela com o mesmo desejo. Deveria aceitar o que ele estava oferecendo, mesmo colocando em risco o seu coração? Talvez fosse sua única chance. Seamus pigarreou, chamando a atenção de volta para o anfitrião.
— Queria perguntar por que desafiou Flynn O’Bannion.
Aileen viu preocupação no olhar do chefe tribal. Ele sabia tão bem quanto ela que, se Connor erguesse sua espada contra o chefe tribal, seria derrotado.
— Se era uma questão de pagamento... — disse Seamus.
— Não, Ele também me deve a multa. Os brehons exigiram uma troca justa.
— Então por que não a aceita? A expressão do rosto de Connor ficou sombria de ódio.
— Porque estamos falando de minha honra. Não fiz nada para a filha dele. Se aceitar o acordo, estou admitindo uma culpa que não tenho.
O rosto de Seamus ficou vermelho, mas ele deu de ombros.
— Por que insiste em arriscar a vida por causa de um engano?
— Porque quero minha vingança. Ele roubou minha capacidade de lutar, minha condição de sustentar uma família.
Aileen sentiu o coração se apertar. Ali estava a verdadeira razão para ele querer enfrentar Flynn O’Bannion. Ele não se acreditava mais um homem, nem poderia ter a família que queria. Suas mãos não haviam sido esmagadas, e sim seus sonhos.
Subitamente, ela enxergou através do escudo do orgulho. Assim como ela estava disposta a arriscar tudo para voltar a ser curandeira, ele sacrificaria a vida por honra.
Se recuperasse a força, será que ele sé tomaria um chefe tribal, ou um rei? Será que reinaria sobre uma extensão de terra, com filhos para treinar como havia feito com Lorcan e Whelon? Seus olhos se embaçaram, pois ela podia enxergar o sonho com a mesma clareza como se ele fosse dela.
Mas, caso falhasse, pagaria o preço supremo.
— E se você morrer? — sussurrou ela, a voz embargada. O olhar dele tomou-se duro como pedra.
— Já estou morto, Aileen. Mas, deste modo, posso morrer sabendo que enfrentei o inimigo. Não morrerei um covarde.
O tom de finalidade de sua voz a fez compreender que nada o impediria de travar esta batalha.
Connor não tinha a força necessária, não contra um mestre no manejo da espada como Flynn O’Bannion. Mesmo sem as mãos feridas, tal batalha era um convite para a morte. Ela sabia que ele ia falhar.
 — Morrerá um tolo — sussurrou, incapaz de ouvir mais. Ergueu-se da mesa, tentando conter as lágrimas quentes. — Peço desculpas, Seamus, Riona, mas preciso ir.
 Ela recusou-se a olhar novamente para Connor.
Lá fora, passou pelos portões, escutando os sons noturnos do crepitar de fogueiras e de conversas abafadas. Ela aceitou a tocha de um dos soldados e seguiu para a campina. A chama lançava um brilho dourado sobre a grama e, desta vez, ela se entregou aos sentimentos. lágrimas silenciosas desceram por suas faces. Não podia suportar o pensamento da morte de Connor.
Passos ecoaram atrás dela. Ela não se mexeu, sabendo que era Connor seguindo-a.
— Queria saber por que você tem trabalhado para me ajudar a recuperar as forças, quando acredita que vou morrer?
— Porque prometi — respondeu ela. Virando-se, acrescentou: — E cumpro as minhas promessas.
Ele levou a mão ao ombro dela.  — Espere. Por favor.
Ela se deteve, permitindo que ele a encarasse.
— O que mais quer de mim, Connor?
— Quero saber por que minha morte a incomodaria tanto.
O luar bateu sobre ele, iluminando-lhe o rosto. Era tarde demais para proteger seu coração dele. A idéia de O’Bannion desferindo um golpe fatal contra este homem, o pai de sua filha, simplesmente a devastava.
 Estava apaixonada por ele.
— Seria um desperdício de meus esforços de cura — mentiu. — Tive todo esse trabalho para consertar seus ossos, quando, no fundo, sua intenção era ser morto.
—Esse é mesmo o único motivo? — perguntou ele, levando a palma da mão ao rosto dela.
Connor enxugou-lhe as lágrimas, seu toque chegando ao coração de Aileen. Ela queria tanto se atirar nos braços dele, sentindo o seu calor envolvê-la.
Ela se recompôs.
Não, não é o único motivo.
Sem aguardar resposta, ou uma desculpa, afastou-se dele. Apressando o passo, deixou-o postado ali, sozinho. O sangue pulsava em suas veias, seu rosto vermelho de constrangimento. Não quisera admitir seus sentimentos por ele, especialmente quando tudo que ele sentia por ela era luxúria.
Ela piscou os olhos úmidos pelas lágrimas, sabendo que nada que fizesse o desviaria do rumo escolhido.
Nas sombras, escutou o som de movimentos, mas não levantou a cabeça. Já havia se humilhado o suficiente naquela noite. Se Connor quisesse falar mais com ela, poderia fazê-lo na privacidade da cabana das enfermidades.
A mão forte lhe tapou a boca, outra buscava lhe alcançar o seio. Surpresa, Aileen deixou cair a tocha. Outro homem a pegou. Um desconhecido que ela jamais havia visto.
O homem que a segurava rasgou-lhe a léine e Aileen lutou contra ele, libertando sua boca. Ele segurou-lhe os pulsos com força, machucando-a.
— Connor! — gritou ela. — Socorro!
O homem a sacudiu violentamente, até que ela perdesse o equilíbrio e caísse no chão. Ele a imobilizou jogando o pesado corpo sobre o dela. Aileen gritou e viu Connor desembainhar a espada. O outro atacante o bloqueou. O som de metal se chocando com metal ecoou. Segundos mais tarde, o atacante a soltou, pegou a tocha e atacou Connor com ela. Os dois homens circundaram Connor, um enfrentando sua espada e o outro aproximando-se por trás. Cambaleando, Aileen procurou ficar de pé e encontrar uma pedra ou alguma outra coisa que pudesse usar como arma.
Nada. Ela correu na direção de um dos homens, gritando um alerta para Connor. O outro atacante desferiu um golpe selvagem, e a espada caiu das mãos de Connor. Este agachou-se para não ser atingido pela tocha acesa, rolando para longe dos homens. Quando alcançou a espada, a mão direita não conseguiu suportar o seu peso.
— Corra! — gritou ele, colocando-se de pé.
Ela esquivou-se de um dos lutadores, mal evitando a lâmina de sua espada.
Os instantes seguintes se passaram com a velocidade de um borrão. Aileen viu outra figura correndo na direção deles. Metal se chocou com metal e o homem uivou de dor quando a lâmina cortou-lhe a pele.
 Ela viu Riordan arrancando o atacante de cima de Connor. Seu punho se conectou com o rosto do agressor num golpe certeiro, arrancando sangue. O outro homem parecia tonto, mal resistia. Aileen pegou a tocha caída, usando as chamas como arma.
— Saiam daqui — ordenou Riordan aos atacantes, erguendo a espada como se fosse desferir um golpe mortal.
Sob a luz das chamas, suas feições pareciam selvagens. Os homens não discutiram e saíram correndo.
Depois, ele se virou e a crueldade desapareceu.
— Você está bem? — perguntou gentilmente.
Tentando se cobrir, Aileen procurou juntar os pedaços de sua léine rasgada.
— Estou.
Num gesto protetor, ele a puxou de encontro ao corpo pesado.
— Está tudo bem. Nenhum mal foi feito.
Ele lhe acariciou o cabelo, e Aileen estremeceu em seus braços. Queria se afastar, mas os braços fortes não permitiram. Na escuridão, viu Connor ficar de pé. Ele nada disse para o casal, mas continuou caminhando na direção da propriedade de Aileen.
Foi então que Aileen se deu conta de que estavam longe da choupana de Riordan. Como foi que ele escutou o ataque? Já era tarde da noite. O desconforto apossou-se de seus pensamentos.
Sentia-se grata, mas, enfim, conseguiu soltar-se de seus braços.
— Obrigada pela ajuda. O que estava fazendo por estas bandas? Riordan deu de ombros.
— Um dos carneiros escapou do cercado e vim à procura dele. Suponho que tenha sido sorte eu ter ouvido seus gritos de socorro. — Ele inclinou-se, encostando a testa na dela. — Não agüentaria se algo houvesse lhe acontecido, Aileen.
— Perdoe-me, Riordan.
Com a barriga queimando, ela afastou-se alguns passos. Os efeitos do vinho, somados ao medo, estavam lhe embrulhando o estômago. As pernas cederam, mas ela abraçou a própria cintura, mantendo no devido lugar o conteúdo do estômago. Sua cabeça girava de tontura e ela esforçou-se para não vomitar. Riordan a ajudou a se levantar, mas ela não conseguiu se impedir de tremer.
— Eu a acompanho até sua casa — ele se ofereceu.
Atordoada, ela aceitou. Será que Connor estava bem? Ele havia desaparecido sem dizer-lhes uma palavra sequer. Quando tentou recordar se ele havia sido ferido, os acontecimentos começaram a ficar confusos. Riordan falava com ela durante o trajeto até sua casa, mas ela mal estava ciente de suas respostas.
Quando alcançaram a porta, ele tentou tomá-la nos braços. Ela aceitou o abraço, pois suas pernas pareciam incapazes de sustentar-lhe o peso. Ainda tremendo, buscou equilíbrio nele.
— Está com medo. Posso ficar aqui esta noite — ofereceu.
— Não. — Ela sacudiu a cabeça. — Prefiro ficar sozinha. E Connor está aqui, caso...
— Ele fez um trabalho e tanto defendendo-a — zombou Riordan. — Pude ver com meus próprios olhos.
O desprezo na voz dele a deixou fria.
— Por favor, Riordan. Quero apenas dormir. — Com um olhar sugestivo, completou: — Sozinha.
— Se precisar de mim...
Isto não estava dando certo. Ela tomou as mãos dele.
— Sou grata pela sua ajuda esta noite. De verdade. Ela suspirou.
O rosto dele se cobriu de orgulho e, de súbito, Aileen entendeu o que ele buscava. Sua aprovação.
— Quem sabe amanhã de manhã não queira dar um passeio comigo? — ele convidou.
Ela forçou um sorriso amarelo.
— Vamos ver como vou estar me sentindo amanhã de manhã. Por ora, queria apenas ficar sozinha. Precisava ver como estava
Connor, saber que ele estava bem. Mas, se deixasse Riordan saber disso, ele jamais iria embora.
Por fim, ele partiu, fechando a porta atrás de si. Aileen pegou uma jarra e se serviu de um pouco de vinho. Ela bebeu o líquido doce, fortificando o corpo.
Quando teve certeza de que Riordan havia ido embora, deixou a choupana para ir ver Connor. Abriu a porta, mas a lareira não estava acesa, Havia apenas a escuridão fria.
— Não a quero aqui, Aileen.
Sua voz era como granito, áspera e dura.
— Eles o machucaram? Deixe-me ver...
 — Não. — Ele manteve-se longe dela, nas sombras. — Não precisa se preocupar comigo, eles não me machucaram.
Após um silêncio prolongado, ele perguntou:
— E quanto a você?
— Não estou machucada.
— Ainda bem que Riordan estava lá.
E, no entanto, Aileen não conseguia entender como Riordan havia chegado no exato instante.
— É.
— Volte para sua choupana, Aileen.
— Ainda não.
A escuridão lhe deu a coragem que, sob outras circunstâncias, poderia não ter tido. Ela adiantou-se, levando as mãos ao rosto dele. A pele quente de Connor, a aspereza de seu queixo, a atraiu na direção dele. Ela inclinou-se e o beijou.
A boca firme do guerreiro não a beijou de volta, de modo que ela deu mais de si, apossando-se de seus lábios e aprofundando o beijo. Afundou as mãos nos cabelos dele, e subitamente, conseguiu derrubar-lhe as defesas.
Ele retribuiu o beijo, sua boca liberando toda a força de sua paixão. Suas línguas se encontraram, e Aileen se agarrou ao pescoço dele para não perder o equilíbrio. As mãos do homem permaneciam imóveis na cintura, mas sua boca devorava a dela.
O corpo despertou. Precisava estar com ele. Não se importava mais se ele ia deixá-la, se planejava se entregar às mãos da morte. Por aquela noite, ansiava pelo seu toque.
E foi então que Connor interrompeu o beijo.
— Deixe-me, Aileen.
— Não quero.
Ele inclinou-se à frente, roçando um beijo nos lábios de Aileen.
— Tinha razão ao me rejeitar na outra noite. É melhor não trilharmos este caminho.
— Eu estava errada — sussurrou ela. — Mas você me amedronta. Quando estou com você, não consigo evitar me sentir deste jeito.
— Você viu o que aconteceu. — A voz dele estava amarga. — Não pude protegê-la daqueles homens.
— Havia dois deles — argumentou ela. — Você estava em desvantagem numérica.
 Ele soltou um prolongado suspiro.
— Meia estação atrás, os dois estariam estirados na grama, sangrando até a morte. Eu teria precisado apenas de alguns segundos para atravessar seus corações com minha espada. Eles jamais teriam encostado um dedo em você.
— Não acredito nisso.
Ele ergueu as mãos feridas diante do rosto dela.
— Estas mãos jamais ficarão boas, Aileen. Não sou o homem que você merece.
Ele a beijou novamente, mas ela reconheceu o beijo de despedida.
— Vou voltar para casa e terminar o treinamento com meus irmãos. Riordan pode protegê-la como eu não posso. E ele gosta de você.
Ela foi tomada de fúria e mágoa.
— Não vou me casar com Riordan. Ele não é o homem que quero. Ela o envolveu com os braços, mas ele não a abraçou de volta.
— Também não posso ser o homem que você quer, Aileen. — Ele tomou-lhe a mão e a conduziu até a porta. — Agora, vá.
Com o coração despedaçado, ela fechou a porta atrás de si.
— Não precisava ter me cortado — argumentou o desconhecido, chiando enquanto cuidava do ferimento no braço.
— Seus reflexos é que foram lentos — comentou Riordan. — Deveria ter sido mais rápido ao erguer a espada. — Ele jogou uma bolsa de moedas de prata aos pés dos dois homens. — Aqui está o pagamento. Não apareçam mais por estas bandas.
Sorrindo, o homem embolsou o dinheiro.
— Uma ótima recompensa. É uma pena. Eu poderia ter me divertido um pouco mais com a moça. Ela era bonitinha.
Riordan desferiu um murro, mas o homem se esquivou. Pagara um bom dinheiro aos dois homens, mas valera a pena. Connor MacEgan não fora capaz de salvar Aileen. Ela agora sabia que ele era um guerreiro fraco, que MacEgan era indigno de suas afeições.
Aos seus olhos, Riordan havia se tomado o herói. Afinal, ela não o abraçara? Não aceitara acompanhá-lo em um passeio? Sua mente se encheu de imagens de Aileen fazendo amor com ele.
E, o melhor de tudo, imaginou Connor MacEgan tombando sob a espada de O’Bannion. Como ele adoraria estar presente para ver.



Capítulo Quatorze



Na manhã seguinte, Connor havia saído antes do raiar do dia. Aileen viu que seus pertences ainda estavam nos devidos lugares e respirou aliviada. Ele ainda não havia ido embora.
Ela preparou uma cesta de ervas de cura e seguiu na direção do agrupamento de cabanas. Embora Seamus houvesse lhe concedido permissão para visitá-los, ela não sabia como os aldeões reagiriam à sua presença. Sentiu um aperto de apreensão na barriga, o temor de que eles não iriam querer vê-la.
Um barulho de choro a pegou desprevenida. Uma mulher saiu cambaleando de uma das choupanas de telhado de palha, seus longos cabelos negros cobrindo-lhe os ombros. Sua voz gritava de dor.
Aileen reconheceu a mulher como sendo Maive, e rapidamente adiantou-se.
— O que foi? — Assim que encostou em Maive, sentiu os indícios de febre alta. — Entre e venha se deitar.
Ela tentou guiar a mulher de volta, mas Maive resistiu.
— Ele está morto.
Ela apontou para a cama, onde estava deitado o seu filho de criação, Padraig.
Os olhos do menino estavam vidrados, seu corpo largado sobre o catre de palha. Aileen ajoelhou-se ao seu lado e viu inúmeros pontos vermelhos cobrindo o tórax do menino. Um obstáculo invisível bloqueou sua respiração. Seus piores temores haviam se tornado realidade. A varíola havia chegado. Embora houvesse memorizado cada palavra ensinada por Kyna, ela mesma jamais testemunhara a doença. Um medo gelado abalou sua confiança. Será que Seamus a consideraria responsável pela morte de Padraig?
Tentou ignorar o pensamento. Era tarde demais para se preocupar com isso agora. Não podia abandonar Maive quando ela mais precisava. Embora não pudesse salvar o menino, ainda podia ajudar a mãe. Reprimindo os instintos que a mandavam fugir, ela afastou-se do menino.
— Quanto tempo faz que ele morreu?
— Algumas horas. — As mãos de Maive tremiam e ela começou a soluçar. — Ele passou dois dias com febre. Depois se queixou de que a cabeça estava doendo e o mandei para a cama. Esta manhã, estava coberto de manchas e não acordou.
Aileen conduziu a mulher ao próprio catre.
— Deite-se e deixe-me cuidar de você.
— Eu vou morrer — choramingou Maive, permitindo que Aileen a deitasse. — De que adianta?
— Nem todo mundo morre de varíola — Aileen tranquilizou-a. Ela molhou um pedaço de pano e o esfregou na testa de Maive.
— Prepararei algo para aliviar a dor. Tente descansar.
Maive virou o rosto na direção de Padraig. Aileen acompanhou seu olhar e pegou uma brat de lã. Sem nada dizer, cobriu o corpo do menino com a manta.
— Rezarei por ele — disse.
O rosto da mulher se transformou numa máscara de dor.
— Era um bom menino.
— Onde está seu marido? — perguntou Aileen.
— Partiu. Ele nos abandonou quando os demônios trouxeram a doença. — Maive soltou um suspiro de desgosto. — O covarde. Espero que os deuses o presenteiem com a doença.
Aileen pegou a cesta e vasculhou o seu interior até achar o frasco contendo água benta. Despejou um pouquinho nos dedos e untou a testa de Maive.
— Farei o que puder para afugentar os demônios.
Enquanto cuidava de Maive, Aileen lembrou-se do corpo queimado do contador de histórias. Decerto, ele havia trazido os demônios da varíola para a aldeia. De acordo com as instruções de Kyna, ela se recordou que os demônios tendiam a se movimentar entre os corpos daqueles que estavam por perto.
— Padriag brincou com algum outro menino recentemente? — perguntou a curandeira.
Ela encheu d'água um caldeirão de ferro e o pendurou sobre o fogo. A voz de Maive ficou mais suave.
— Brincou com Whelon há alguns dias. Ele queria ir com os outros meninos ver Connor MacEgan, mas não estava se sentindo bem.
Um arrepio percorreu a pele de Aileen à menção do nome de Whelon. Fora Whelon quem havia descoberto o contador de histórias caído. E, se Padraig havia sido vítima da doença após visitar Whelon...
Ela sentiu um aperto no coração. Por todos os santos, que isso não seja verdade. Fechou os olhos. A água fervia na panela, e quando estava bem quente, preparou a bebida. Levou a xícara aos lábios de Maive. A mulher bebeu, mas sentia dificuldade para engolir. Aileen enxugou a testa novamente, e viu sinais das pequenas lesões começando a se formar.
Precisava de ajuda. Se a doença começasse a se espalhar pela tuatha, precisaria de alguém para ajudá-la a cuidar das pessoas. Illona havia partido, após ter sido proibida de ajudá-los.
Connor. O nome apareceu como uma oração em seus lábios, ao garantir a Maive que retomaria. Aileen levantou as saias do vestido e atravessou correndo a campina, na direção do bosque onde sabia que ele treinava. Os carvalhos estendiam-se sobre a campina, como sentinelas guardando a clareira escondida. Mas Connor não estava lá.
Ela correu na direção da cabana das enfermidades, receando descobrir que ele já havia partido. Será que teria ido embora sem se despedir? Na noite passada, a havia forçado a deixá-lo. A idéia de encontrar uma choupana vazia a encheu de desespero.
Com os pulmões já ardendo, acelerou o passo. O sol matinal brilhava forte e ela cobriu os olhos. Quando por fim alcançou a propriedade, teve vontade de chorar de alívio.
Connor estava perto do cercado dos animais, puxando uma égua da cor da neve. Nova e aparentemente mansa, a égua permitia que Connor a puxasse ao redor do cercado.
— Você disse que queria um cavalo — comentou Connor, estendendo as rédeas.


Ela havia se esquecido por completo. Na ocasião, tinha sido um pensamento repentino, um presente que jamais imaginara ganhar. A égua inclinou a cabeça para cheirar a mão de Aileen. Tomada de emoção, ela acariciou o animal. Ele havia se lembrado.
— Não entendo — disse ela, a voz embargada.
Por que ele havia lhe trazido o cavalo agora? Seria um presente de despedida?
Ele colocou as rédeas na mão dela.
— Eu a magoei na noite passada.
Aileen resguardou seus sentimentos, não permitindo que ele enxergasse a angústia que se apossava de seu coração. Ela o fitou com sinceridade.
— Magoou mesmo.
— Nunca foi a minha intenção. — Ele estendeu a mão para lhe acariciar o cabelo, tocando os fios como se fossem feitos de seda.
— Ao longo das últimas luas, eu disse muitas coisas que gostaria de não ter dito. Falei sem pensar e movido pela fúria. — Ele baixou a mão. — Você não merecia ser tratada do modo como a tratei. Quero me redimir por meus erros. Sei que não é o suficiente, mas é tudo que posso oferecer.
— Poderia ter me dado uma lembrança — sussurrou ela.
Ele aproximou-se e a beijou de leve. Nos olhos acinzentados, ela viu arrependimento.
— Ficará melhor sem mim, Aileen.
O silêncio se instalou entre eles. Tomada de angústia, ela engoliu em seco.
— Como conseguiu? Um cavalo custa muito caro.
— Fiz um acordo com Seamus. Minha propriedade em troca do animal. — Ele deu de ombros. — Não que eu tivesse muito a oferecer.
— Não pode fazer isso — argumentou ela. — É tudo que você tem. Ela não conseguia entender por que ele haveria de fazer tamanho sacrifício.
— Não precisarei da propriedade, Aileen. Nós dois sabemos disso.
— Ele levou a mão desfigurada ao rosto dela. — E queria honrar nosso acordo. Como curandeira, precisa de um cavalo para o cumprimento de suas obrigações.
 Sentiu o desespero estrangulá-la. Sabia que, depois daquele dia, Seamus a baniria. Quantas outras mortes aconteceriam? Fechou os olhos, implorando misericórdia.
— O cavalo era para Whelon.
Tentou conter as lágrimas, lembrando-se do sonho que tinha para ele.
Ele a fitou, confuso.
— Whelon? Ela assentiu.
— Ele queria ser um soldado. Mas não pode correr, por isso achei que poderia se tomar um mensageiro, ou uma sentinela. O cavalo era para ele. Para lhe dar pernas, visto que tive de privá-lo de uma.
— Você lhe deu a vida — disse Connor. — Era o suficiente. Vida. Sua mente estremeceu com medo da varíola.
— Temos de encontrá-lo. Um menino já morreu de varíola. Os dois brincaram juntos.
Connor entendeu a urgência da situação.
— Pegue o que precisa, enquanto selo o cavalo.
Aileen havia esquecido sua cesta na casa de Maive, mas usou um saco de pano para reunir mais ervas. Pegou um frasco de óleo de nardo, dentes de alho frescos, e um pouco de erva-de-santiago. Instantes depois, deixou a choupana. Connor a ajudou a subir na égua e montou atrás dela. Ao cavalgarem de volta para as cabanas, ela se recostou nos braços fortes dele.
— Obrigada — sussurrou, embora o vento o impedisse de ouvi-la. Tê-lo ao seu lado significava tudo. Ela retirava forças de sua presença e por um instante fechou os olhos, desejando poder estar sempre com ele. Sentiu um aperto no coração, sabendo que ele partiria.
Quando chegou à choupana de Maive, a mulher estava dormindo. Aileen voltou a enxugar a testa febril de Maive, depois, ergueu o corpo de Padraig nos braços. Carregou o menino imóvel para trás da choupana e Connor desmontou para ajudá-la. Embora Aileen acreditasse que os demônios da doença já haviam deixado Padraig, não queria o seu corpo perto da mãe de criação. Lentamente, voltou a cobrir o menino com a brat. Mais tarde o enterrariam.
 — Precisamos encontrar Whelon — insistiu ela, pegando a cesta e juntando ao seu conteúdo a saca de ervas. Connor a ergueu novamente e, em questão de instantes, estavam cruzando os campos novamente na direção da casa dos pais de criação de Whelon.
Connor inclinou-se à frente, sussurrando no ouvido dela.
— Não tema, Aileen. Você o salvará.
Suas palavras de confiança não a convenceram muito. Embora tivesse confiança em suas habilidades de cura, a varíola era uma doença mais poderosa do que qualquer outra que já havia enfrentado. Ela se concentrou nas palavras da antiga curandeira, Kyna: Nem iodo mundo morre.
Tinha de se agarrar a tal esperança, acreditar que poderia curar Whelon. Talvez não fosse tarde demais.
Uma coluna de fumaça saía da chaminé, oferecendo a frágil esperança de que alguém estava cuidando do menino. Aileen bateu à porta, mal esperando uma resposta antes de abri-la.
Com exceção de Whelon, a choupana estava vazia. Não havia nenhum sinal de seus pais de criação, Brenda e Laegaire, nem de seus irmãos de criação. Embora o fogo ardesse na lareira, eles o haviam abandonado.
Se Seamus descobrisse que o filho fora deixado sozinho, sua ira não teria limites.
Aileen descobriu Whelon. Suas faces estavam vermelhas devido à febre. Pequenas lesões começavam a se formar nelas. Aileen lembrou-se da visão do corpo sem vida de Padraig, seus olhos fitando a morte.
Precisava contar a Seamus. Ele tinha de saber. Mas seus temores retomaram. E se Seamus descobrisse a respeito de Padraig? Talvez não a deixasse tratar de Whelon. E Riona... Sentiu um aperto no coração ao pensar na dor da mãe.
Custasse o que custasse, não poderia permitir que ele morresse.
— Aileen? — A voz de Connor a despertou de seus temores e ele apontou para a cesta de ervas. — Quer que eu ferva água para você?
A pergunta a trouxe de volta à realidade. Whelon precisava dela. B ela precisava fazer de tudo para lutar pela vida dele.
— Quero. Precisarei de água para preparar um chá de casca de salgueiro para ele.
Aileen abriu a túnica do menino e disse para Connor:
— Esfregue água fria no corpo dele para baixar a febre. Vou tratar as lesões.
Aileen selecionou o frasco contendo óleo de nardo. O intenso aroma da raiz espalhou-se pelo ar, quando ela despejou uma pequena quantidade sobre os dedos.
Ela esfregou o óleo na pele do menino, na esperança de curar as lesões. Baixinho, murmurou um cântico de cura, tentando espantar os demônios da doença. Massageou-lhe o óleo na pele, descendo pelo tronco, passando até pelo cotoco da perna. Ele estremeceu, como se atacado por inimigos invisíveis.
Quando a casca de salgueiro terminou de macerar, Connor segurou a cabeça de Whelon, enquanto Aileen lhe dava a bebida.
As horas foram se passando e ela continuou a lhe administrar a bebida e a passar o óleo nas lesões. A febre continuava a subir. Aileen olhou para a porta, depois para Connor.
— Não consigo acreditar que possam tê-lo deixado aqui, sozinho.
Embora jamais houvesse considerado Brenda e Laegaire seus amigos, o ato insensível de abandonar uma criança a encheu de raiva. O medo da doença foi mais forte do que qualquer sentimento que pudessem ter tido por Whelon.
— Talvez tenham ido buscar ajuda. Ou o padre — sugeriu Connor. Mas ambos sabiam a verdade. O casal pensara apenas era salvar sua pele.
— Temos de contar para Seamus — disse Connor.
— Eu sei. — Ela despejou mais óleo na mão. — Mas é melhor fazermos isso após eu ter feito tudo que posso por ele.
Connor a ajudou a preparar mais chá de casca de salgueiro, silenciosamente oferecendo seu apoio. Apenas uma hora atrás, atendendo ao pedido dela, fora ver como estava Maive. A mulher ainda se agarrava à vida, e ele lhe levara mais chá, além de um pouco de óleo de nardo. Também havia encontrado outra mulher para cuidar de Maive.
Nem todo mundo morre, Aileen remoía na cabeça. A sobrevivência de Maive lhe oferecia um grão de esperança. Ainda assim, a febre de Whelon não cedia. E, apesar do que ela fizesse, mais e mais lesões apareciam em sua pele.
Quando a noite tomou conta do horizonte, e apenas a luz do fogo os iluminava, Connor pousou a mão sobre o ombro dela.
— Não tem medo de pegar a doença?
— Não mais do que você tem de enfrentar a espada de um inimigo. É o que faço.
Mas ela era uma guerreira de outra natureza, do tipo que não podia enfrentar seu inimigo cara a cara.
— Tive varíola quando criança — disse ele. — Embora não me lembre de muito, lembro-me das lágrimas de minha mãe.
— Você não carrega marcas — comentou Aileen. Ele sorriu ligeiramente.
— Não em lugares que possa ver. A não ser que tenha uma memória melhor do que a minha.
A menção da ocasião em que o viu nu a fez estremecer. Havia se oferecido a ele na noite anterior. Ele a rejeitara, dissera que não deveriam dormir juntos.
Ela mordeu o lábio, perguntando-se se deveria ter admitido a verdade. Que já o havia seduzido em outra ocasião.
— Já é tarde — disse Connor. — Quer descansar um pouco? Posso ficar de olho nele.
Ela sacudiu a cabeça.
— Não vou conseguir dormir. Não numa situação como esta. — Render-se ao sono seria como abrir a porta para a morte. Não se permitiria ser distraída um instante que fosse. — Mas, se está cansado, talvez queira dormir.
— Não. Se vai ficar acordada, estarei aqui para ajudá-la.
Ela olhou na direção de Whelon, que dormia. Depois, aproximou-se, tomando o rosto de Connor entre as mãos.
— Poucos homens teriam feito o que fez por mim hoje.
— Tenho pouco a perder — admitiu o guerreiro.
Ele a puxou para perto de si, acariciando-lhe o cabelo. O gesto carinhoso fez Aileen ter vontade de chorar. Por que tinha de amar este homem? Ficava arrasada ao saber que ele dava mais valor à honra do que à própria vida.
Do que a ela.
Interrompendo o abraço, a curandeira caminhou até o fogo. Ela encheu a panela com mais água, desejando saber o que dizer. No final, nada disse. Tudo que podia fazer era saborear os poucos instantes que tinham juntos. Ele partiria em breve.
Poucas horas antes da alvorada, Whelon começou a se mexer. Seus olhos se iluminaram ao avistá-los. Aileen sentou-se de um dos lados dele e Connor do outro.
— Vocês estão aqui — sussurrou ele, e um ligeiro brilho de alegria apareceu nos seus olhos. — Tinha esperança de que fossem vir.
Aileen acariciou-lhe a testa, alisando o cabelo.
— Quer um pouco de sopa ou de água?
Whelon sacudiu a cabeça. Ele fitou Connor com seriedade.
— Eu agradeço pelo meu treinamento.
Connor sacudiu a cabeça e tomou a mão do menino na sua. Os dedos distorcidos fecharam-se ao redor da mãozinha de Whelon.
— Você ainda tem muito a aprender.
O brilho no rosto de Whelon intensificou-se.
— Já aprendi tudo que podia.
— Traga-me a água benta, Aileen — ordenou Connor. A intensidade do comando a fez hesitar.
— Não. Ele não vai morrer. — Ela se recusava a abrir mão da vida do menino. — Eu não permitirei.
— Está tudo bem, Aileen — disse Whelon. Seus lábios partidos curvaram-se para cima. — Vou ser um verdadeiro guerreiro agora.
Lágrimas desenhavam trilhas pelo rosto dela.
— Pode ser um guerreiro aqui.
— Não um guerreiro completo. — Os olhos de Whelon fitaram o teto. — Deixe-me ir, Aileen.
Connor o marcou com a água benta, murmurando as palavras da extrema unção. Aileen se uniu a ele, sentindo o gosto salgado das próprias lágrimas.
Os olhos do menino brilhavam de pura alegria. A paz apossou-se de seu rosto e ele segurou as mãos de Connor e Aileen. Com esforço, juntou as duas. Os dedos de Aileen se entrelaçaram aos de Connor.
E, com isso, o menino deu o seu último suspiro.




Capítulo Quinze



No interior da choupana de Aileen, os vidros se espatifavam e Connor recuou em silêncio, enquanto ela derrubava frascos de argila e couro contendo ervas e remédios. Com lágrimas escorrendo-lhe pela face, ela cerrou o punho e esmurrou a parede sólida da choupana, praguejando ao descarregar sua fúria sobre a madeira.
— Aileen. — Ele usou sua força para imobilizá-la, segurando-lhe os braços. — Não.
— Ele não deveria ter morrido.
A fúria brilhava em seus olhos. Com os ombros caídos, largou-se de joelhos no chão. Nas sombras, tremeu de exaustão e sofrimento.
— Olhe para mim. — Ele sentou-se ao lado dela, tomando-lhe a mão. A pele da mulher estava gelada. — Não foi culpa sua.
De algum modo, ele queria aliviar o sofrimento dela, levar embora a sua dor. Mas as palavras não eram o bastante.
Com o rosto de uma mulher destroçada, ela o fitou:
— Fico pensando que, se tivesse aprendido mais com Kyna, ou talvez se tivesse tentado uma outra combinação de ervas, talvez...
— Não, Você fez tudo que podia.
Ele a ajudou a se levantar, oferecendo o conforto de seus braços.
— Connor? — sussurrou ela. Ele inclinou-lhe o queixo, as suas bocas próximas uma da outra. Belanus, como queria beijá-la. Mas, caso se entregasse à necessidade voraz, não seria capaz de parar. — Será que pode me ajudar a esquecer tudo isso?
Aileen deu um passo para trás, seu cabelo escuro cobrindo-lhe os ombros. Imagens pecaminosas lhe vieram à mente, mas Connor não conseguiu desviar o olhar. Afastou os cabelos para um dos lados, depois levantou o vestido pela cabeça dela. Vestindo apenas a léine branca, a silhueta de Aileen o tentava a se entregar aos desejos mais sombrios.
Agarrou-se à honra por apenas um fio de razão. — Vou embora de Banslieve. — Eu também. Seamus me forçará a partir. — Não me aproveitarei de você desse jeito. Ela expôs um dos ombros, depois o outro, até a léine deslizar para o chão. Nua, ela parecia uma deusa etérea, convocando-o a idolatrá-la. Seus mamilos eram de uma tonalidade vermelho-escura de uma mulher que já havia dado à luz, mas sua cintura era tão fina quanto a de uma virgem. Uma teia sedosa de cabelos escuros escondia sua feminilidade.
— Certa vez, disse me desejar. Isso ainda é verdade?
A virilidade dele se endureceu em resposta. Ansiava por tomá-la nos braços, por provar-lhe a doçura da pele.
— O que está fazendo, Aileen?
Ele não gostava do modo como ela estava se comportando, como se não tivesse nada a perder. Sob a fachada de coragem estava uma mulher que havia sido profundamente magoada.
— Sabe muito bem o que estou fazendo, Connor. Qual é sua resposta?
Ele queria lhe dizer não. Queria fazer a escolha honrada e deixá-la intocada, Não havia futuro para eles.
Em vez disso, esmagou-lhe a boca com a sua. Suas mãos percorreram-lhe a linda pele e ele exultou com a capacidade de enfim tocar uma mulher. Esta mulher.
A língua dela estendeu-se em direção a dele, tocando-o lenta e sedutoramente. Ela se entregou, seus seios fartos intumescendo-se com a mesma necessidade que ele sentia.
Sabia que era errado fazer amor com ela, quando isto apenas tomaria mais difícil deixá-la para trás. Ele afastou-se outra vez, oferecendo mais uma chance para Aileen dar um basta nesta sedução.
— Por que, Aileen? Por que quer algo de que nós dois nos arrependeremos?
— Porque preciso me sentir viva. Apenas esta noite com você, e o deixarei ir embora. — Ela desfez as amarras da túnica dele e retirou a vestimenta cor de musgo. — Deixe-me uma lembrança. Pois ambos sabemos que está será a última noite em que nos veremos.
As mãos dela passaram sobre os músculos, tracejando as cicatrizes de batalha. Connor prendeu a respiração quando ela baixou os lábios até seu peito.
Uma estranha sensação de familiaridade o dominou. O toque dela. O seu corpo. Havia algo a respeito dela, uma lembrança que insistia em permanecer além do seu alcance.
Com as mãos, baixou-lhe as calças, expondo sua nudez. A virilidade se libertou, dura e enorme.
— Preciso tocá-la — disse ele. — Não se mova.
Ela postou-se diante dele, que espalmou-lhe as nádegas, trazendo-a para perto de si, até os seios tocaram seu peito. Tomou o mamilo na boca. provando a ponta intumescida. Um suspiro escapou dos lábios dela, seu pescoço curvando-se de prazer.
Seu próprio corpo ansiava por preenchê-la, por mergulhar na doce profundeza com toda a sua extensão. Ele abriu-lhe as coxas, inserindo um dedo, sentindo a umidade que o cercava.
— Connor — gemeu ela.
Ele estava perdendo o juízo. Talvez fosse o lugar, as sombras escuras despertando lembranças de outra ocasião, no passado. Mas, podia jurar já ter feito amor com Aileen antes.
Ele percorreu com beijos sua barriga, fazendo-a baixar até o chão.
— Esperei tanto por isto — ela disse. — Há tanto tempo que quero isto.
Pelos deuses, embora soubesse ser errado possuí-la deste jeito, sua resistência havia desaparecido. Com a língua provou a doce feminilidade. Espasmos de selvagem desejo fizeram o corpo de Aileen estremecer. Ele olhava o corpo dela contorcer-se, enquanto a provava e mordiscava, até que as ondas de prazer de seu clímax a deixaram sem fôlego.
— Chega — implorou ela, deitando-o de costas no chão.
Seu cabelo espalhou-se pelo peito dele, macio e sensual. A ereção de Connor estava dolorosamente dura, mas ele queria tomar este momento especial para ela.
Quando Aileen desceu sobre ele, Connor fechou os olhos para resistir à tentação de se aliviar. Ela movia-se lentamente, afundando cada centímetro dele dentro de si. A abertura apertada o espremeu, e ele ergueu a mão na direção do seio dela.
Passado e presente se misturaram, e ele se recordou de cada instante de Bealtaine. Pelos deuses, mas a última vez em que sentiu tamanho prazer mal havia se tomado um homem.
Ele segurou-lhe a cintura, aumentando o ritmo até que o corpo dela desabou sobre o dele. O desejo percorria suas veias e ele rolou para cima, erguendo-lhe as pernas de modo a poder ir mais fundo.
Com cada arremetida, ele se apossava dela. A respiração de Aileen estava ficando mais forte agora, seu corpo estremecendo e apertando-se de alívio. Ainda não era o bastante para ele. Mais rápido. Mais fundo. Mais forte.
Aileen se deitara nos braços dele naquela noite. Tinha certeza. — Bealtaine — gritou ele. — Era você, não era? Era isso que queria me contar.
Ela ergueu os quadris, abrindo os olhos para fitar os dele.
— Tomei o lugar de Lianna.
A confissão provocou um aperto no coração dele. Devia estar se sentindo aliviado por Lianna não tê-lo traído. Mas, de algum modo, saber disso abalava sua confiança em Aileen.
Aumentou a velocidade, até ela soluçar de prazer. Por fim, aliviou-se no fundo de seu ventre.
Com as pernas envolvendo-lhe os quadris, ele permaneceu lá dentro. Enterrando o rosto no pescoço dela, lutou para fazer sentido da conflitante sensação de ter sido traído.
— Connor? — sussurrou ela, beijando-lhe a face. Ainda abalado pela confissão, ele saiu de dentro dela.
Não tendo mais o desejo para cegá-lo, vestiu as calças. Embora o corpo estivesse saciado, perguntas ainda lhe enchiam a cabeça. Por que ela havia mentido para ele? Será que não passara de uma noite de amor roubado?
— Quero saber exatamente o que aconteceu naquela noite.
Subitamente constrangida com sua nudez, Aileen vestiu a léine. No interior da choupana, o fogo havia se apagado, e restavam apenas carvões em brasa.
— Lianna não era virgem. — Ela fechou os olhos, revivendo aquela noite distante. — Ela me pediu para me deitar com você e concordei. Na escuridão, pensamos que você não notaria nada.
— Vocês me fizeram de tolo.
A rispidez de sua voz a cortou como uma faca. Aileen tentou esconder seus sentimentos. Não haviam tido a intenção de fazê-lo de tolo. Mas como ele poderia entender os anseios de uma menina de apenas 16 anos de idade? Ela estava com tanto medo, mas fizera apenas o que pensara ser certo.
— Achei que se ela cumprisse o seu papel, a colheita sofreria. Ela...
— Você fez o seu papel porque queria deitar-se comigo. Ela não tinha como negar.
— Eu queria.
Sob o olhar acusatório, Aileen se esforçou para manter a compostura. Esta noite ela se desfizera de todas as inibições, qualquer coisa para evitar o sofrimento que ameaçava sufocá-la. Ela precisara tanto dele.
Mas agora ele a fitava como se ela o houvesse traído. O olhar furioso do guerreiro, de um homem que não gostava de ser usado, se enterrava nela.
— Diga-me uma coisa, Aileen. — Ele lhe segurou o pulso. — O que mais queria me revelar no tocante a Bealtaine?
O brilho no seu olhar a deixou sem fôlego.
— N-nada.
— Rhiannon é minha filha, não é?
Aileen não conseguiu responder. Não importava o que ela dissesse, pois ele já sabia a verdade. Sua pele ficou dormente de tanto medo que sentia. Uma lágrima lhe rolou pela face, dando a Connor a resposta que buscava.
— Malditas sejam — ele disse, levantando-se. Sua voz ecoou como o trovão. — Divertiram-se bastante rindo pelas minhas costas? Dê qualquer mulher a Connor que ele não vai saber mesmo a diferença. Não foi isso que disseram?
Ele vestiu bruscamente o resto da roupa, E Aileen cobriu a boca com as mãos.
— Não. Nunca falamos sobre isso.
 — Eu vi Lianna na manhã seguinte, nua nos braços de Tomás. Pensei que ela havia me traído. Mas não havia sido ela. Não tinha motivos para estar zangado com ela.
Seus olhos estavam cheio de ódio, e Aileen desejou poder voltar atrás na confissão. Mas era tarde demais. Ele não ia perdoá-la.
Seu rosto ficou vermelho e não conseguia parar de tremer. Naquele instante, queria fugir correndo, buscar o consolo da noite e chorar por tudo que havia perdido. Mas traçara seu próprio destino. Era chegada a hora de encarar as conseqüências daquela noite roubada.
— Não me arrependo do que fiz — disse.
Como poderia? Rhiannon era o seu tesouro, sua própria vida.
— Tenho uma filha — disse ele. — Uma filha que cresceu acreditando que outro homem fosse o seu pai. E não vê nada de errado nisso? — Tentei lhe contar. Duas vezes. — Ela avançou na direção dele, as Connor se recusava a olhar para ela. — Você não quis me dar ouvidos.
— E agora? O que espera que eu faça? Que vá contar para ela quem sou?
Ela ficou pálida.
— Não. Apenas serviria para assustá-la.
Ela jamais havia visto Connor tão zangado, mas seu instinto de proteger Rhiannon lhe deu coragem.
— Quer que eu finja que ela não existe?
— Seria melhor para ela.
Agora estava mais claro do que nunca que ela não podia ter Connor de volta em sua vida. As palavras dele magoavam seu coração, e ela se recusava a despedaçar o mundo seguro de Rhiannon com a verdade.
— Não permitirei que minha filha pense que o pai a abandonou. Olhos frios como o aço a fitaram.
Era estranho como uma revelação podia transformar de tal jeito um homem. Há poucos instantes, estivera deitada em seus braços, ambos saciados após fazer amor. Agora, enxergava ódio em seu rosto.
— Você me abandonou — sussurrou Aileen. — Naquele dia na chuva, quando tentei lhe contar pela primeira vez. Não queria saber de mim. — A raiva fervilhava no seu íntimo, necessitando extravasar os sentimentos que reprimira durante os últimos sete anos. — A pobre e comum Aileen, apaixonada por Connor MacEgan — zombou. — Sabia que teria ficado horrorizado ao descobrir que havia partilhado a cama comigo. Deixou isso bem claro desde o início. Não ia permitir que magoasse Rhiannon.
— Eu teria ajudado a tomar conta dela.
— Não, não teria. — Ela fechou os olhos. — Não teria acreditado em mim. Tudo que eu tinha era Eachan para cuidar de nós.
— Ela merece saber a verdade.
Ele cruzou os braços, tentando intimidá-la.
Ela não permitiu. Seu instinto materno falou mais forte.
— Vai desistir de sua luta contra O’Bannion?
— Não.
— Neste caso, não há por que contar para Rhiannon sobre você. Não estará por perto mesmo para vê-la crescer.
Por Danu, por que era incapaz de conter as lágrimas dentro de si? Precisava ser forte para defender os interesses da filha.
— Não acredita que eu vá derrotá-lo.
— Não, não acredito.
Não chore. Não permita que ele a veja dar sinais de fraqueza.
Ela cerrou os punhos, fincando as unhas nas palmas das mãos.
—Neste caso, não há mais nada a ser dito, há? — Ele seguiu para a porta e a abriu, bruscamente. Olhando para trás, acrescentou: — Após o Samhain, quero Rhiannon estudando em minha casa, em Laochre. Recuse, e sofrerá as conseqüências.
Connor esmurrou a parede externa da cabana das enfermidades. Por quase dez anos não retomara a estas terras. Isolara-se dos amigos e da família de criação. Mas Lianna não fizera nada de errado. Aileen era a culpada.
Ele poderia tê-la perdoado por apenas uma noite de amor roubada. Mas ela havia tido a filha dele.
Pensou em Rhiannon, seu cabelo rebelde escuro como o da mãe. Como jovens pôneis com as extremidades compridas, ela um dia também seria uma dama alta. Sua pele clara se comparava a de Aileen, mas os olhos eram dele. Connor deveria tê-los reconhecido.
Além da aparência, nada sabia a respeito da menina. Ter uma filha de quase seis verões de idade e não saber de sua existência o incomodava. Como Aileen pôde lhe esconder um segredo desses? Ele não era o tipo de homem que deixava para trás uma criança bastarda.
Juntou seus pertences em uma mochila, colocando a espada do irmão sobre ela. Ergueu a pesada arma com a mão esquerda e depois a passou para a direita. Seu pulso ardia, mas ele deu um golpe para praticar.
Outrora, podia manejar a espada sem hesitação, sem pensar. Agora, sua total concentração era necessária para mover a espada como queria.
Ficara tempo demais ali. Deveria ter partido há uma semana. Só treinando com os irmãos seria capaz de derrotar Flynn O’Bannion.
Depois de colocar os pertences perto da entrada, abriu a porta e deixou entrar o ar frio da noite. A luz fraca das estrelas atravessou o vão da porta e Connor inspirou o aroma da noite.
E, junto com ele, o perfume das ervas de cura. Ele fechou os olhos, tentando bloquear a imagem de Aileen. Seu corpo lembrava-se do toque sedutor do corpo dela sob o seu.
Maldita seja ela por suas mentiras. Talvez houvesse homens capazes de ter um filho e abandoná-lo, mas ele jamais poderia virar as costas a uma criança. Era um ato de desonra.
Não sabia o que fazer quanto a Rhiannon, exceto trazê-la para Laochre. Pelo menos lá, seria capaz de fazer algo para compensar sua negligência. Poderia lhe mostrar que não a abandonara.
Seu olhar pousou sobre as talas e as bandagens rasgadas. Ergueu a mão para a luz. Suas mãos estavam nas melhores condições em que Aileen era capaz de deixá-las. Ela havia mantido a promessa e o curara.
Mas ainda não podia perdoá-la pelo segredo que ela escondera dele.




Capítulo Dezesseis



Com a chegada da alvorada, o som de vozes distantes acordou Aileen. Ela levantou-se, o corpo cansado pela falta de sono. Ela abriu a porta, apertando os olhos diante da luz do sol matinal. Avistou Seamus, acompanhado de seu irmão, Cillian, e o pai. O chefe tribal parecia ter envelhecido anos da noite para o dia. Rugas profundas ao redor da boca revelavam o sofrimento contido.
Ele sabia a respeito de Whelon, podia ver nos olhos dele. Medo e tristeza ameaçaram se apossar dela diante da lembrança da morte do menino. Whelon havia colocado a mão dela na de Connor, como se quisesse uni-los. Mas agora isso jamais aconteceria.
Aileen enrolou a brat bem apertada ao redor dos ombros, a manta acinzentada oferecendo ligeira proteção contra o frio matinal. Era como enfrentar a própria execução, pois já sabia qual seria o veredito de Seamus. Estava ali para bani-la, nada mais.
Seu pai, Graemme, adiantou-se, como se para intervir, mas Cillian o conteve. A porta da cabana das enfermidades abriu-se, e Connor apoiou-se no batente.
Usara roupas de viagem, com a espada do irmão dependurada ao seu lado. Como havia prometido, estava de partida. Seus olhos não encontraram os dela.
Era doloroso vê-lo, saber que nada sentia em relação a ela. Por que ela havia pensado que seria diferente? E, por que não deixara aquela casa de marimbondos em paz? Tomá-lo nos braços na noite anterior havia sido o prazer mais maravilhoso que experimentara nos últimos sete anos. Havia sido um ato de desespero, a necessidade de abraçar alguém em um instante de intenso sofrimento. Mas pagara um preço terrível por fazer amor com ele. Havia destruído a amizade deles.
O rosto do chefe tribal não demonstrava nenhuma misericórdia, quando ele se adiantou, até se postar diante dela.
— Sabe por que estou aqui, Aileen — disse.
— Sei. — Ela não se encolheu e nem chorou. Havia aceitado o trato e agora ele a forçaria a ir embora. Ergueu os olhos para Seamus. — Lamento muito. Quem dera eu pudesse mudar o destino.
— O povo não confia mais em você como curandeira. Os aldeões acham que você trouxe a varíola para suas casas.
— Estão enganados. Fiz tudo que podia para ajudá-los.
— Não pode ficar aqui. Acreditam que demônios a amaldiçoaram. Se permanecer aqui, exigirão que eu a queime na fogueira.
Receando que Seamus tivesse razão, ela apertou a brat ao redor dos ombros. Embora a maioria dos aldeões a conhecesse, a desconfiança imperava. O povo poderia facilmente acreditar que os demônios da doença trabalhavam através das mãos dela.
— Quando devo partir? — perguntou.
— Em três dias — respondeu Seamus, baixinho. — Reúna seus pertences e deixe Banslieve. Não apareça por aqui novamente.
— E quanto a minha família?
O olhar dela pousou sobre o pai e o irmão.
— Eles têm permissão para visitá-la longe daqui.
Tendo dado o seu veredicto, Seamus virou-se e afastou-se. Graeme adiantou-se e abraçou Aileen, consolando-a.
— Tentei fazê-lo mudar de idéia, a iníon. Mas Seamus tem razão. Se ficar, podem tentar machucá-la.
— Eu sei. — Sua voz mal passava de um sussurro, mas ela conseguiu manter as emoções sob controle. — Ficarei bem.
— Pode ir morar com sua tia Noreen — sugeriu Graeme. — Ela mora logo além da fronteira.
Ela conseguiu assentir, apertando-se de encontro ao pai. Abraçando-o, Aileen se deu conta de que teria de deixar para trás tudo e todos que amava, e percebeu que Rhiannon também não estaria segura ali. Se a culpassem pelos demônios da doença, talvez também culpassem a filha. Teria de tirar Rhiannon de Banslieve.
Connor ordenara que ela levasse Rhiannon até Laochre após o Samhain, para ser tutelada. A princípio, não gostara da idéia, mas agora a estava considerando. Não haveria lugar mais seguro para a filha ficar do que com uma das famílias mais poderosas da Irlanda.
Instantes depois, Connor aproximou-se para cumprimentar o pai e o irmão de Aileen. Graeme o fitou com desconfiança.
— Você está partindo hoje?
— Estou.
— Por que não a leva com você? — disse Graeme, com um sorriso caloroso. — Poderia escoltá-la até a casa de tia Noreen.
— Pai, pare de se intrometer.
O rosto de Aileen ruborizou-se diante das óbvias intenções casamenteiras do pai. Como ele podia pensar numa coisa daquelas naquele momento?
Connor não retribuiu o sorriso.
— Aileen fez muito por mim, mas nossos caminhos agora se separam. Desejo boa sorte a ela e sua filha.
Olheiras profundas davam a impressão de que ele também não havia dormido muito. Seu cabelo dourado estava preso para trás com uma tira de couro e a túnica azul enfatizava a cor prateada de seus olhos. Estava usando protetores de couro nos antebraços. Havia se tomado novamente o guerreiro, determinado a destruir qualquer um que o ameaçasse.
E ela havia se tomado uma ameaça.
Seu irmão trouxe o cavalo de Connor do cercado dos animais. Ele já estava selado com os pertences de Connor amarrados à montaria. Connor devia ter preparado o animal para a partida logo de manhã cedo.
— Quer tomar o café da manhã antes de partir? — perguntou ela.
— Aqui não. Seamus pediu que me juntasse a ele e a Riona. Depois, irei embora.
Com o rosto sério, ele montou no cavalo.
Havia tanta coisa que ela queria dizer a ele. Queria poder reparar os sentimentos feridos, queria ter a coragem para dizer o que realmente sentia.
— Coloque as talas todas as noites — disse. — Elas ajudarão. O constrangimento a dominou, deixando-a corada.
 Olhos impassíveis a fitaram. Depois, ele virou o cavalo e foi embora.
O que ela esperava? Um beijo de adeus? Que tola havia sido, em acreditar que ele poderia vir a amá-la. Ele jamais a perdoaria. O orgulho era mais importante para ele do que qualquer outra coisa.
— Você está bem? — perguntou Cillian. Ele passou o braço ao redor dos ombros dela. — Quer que eu dê uma surra nele? Posso ver que o canalha a magoou.
Ela conteve uma risada, pois o irmão era bem capaz de fazer isso mesmo.
— Não.
A oferta a ajudou a colocar os pensamentos em ordem. Não ia chorar por causa de Connor MacEgan.
Mas não permitiria que ele colocasse a culpa nela. Fizera o que tinha de ser feito para proteger Rhiannon. Agora que ele sabia sobre ela, o perigo havia apenas aumentado. Aileen não permitiria que ele controlasse o destino da filha, não sem que ela tivesse algo a dizer a respeito.
A única maneira disso acontecer era ficar com Rhiannon.
— Está apaixonada por ele, a stór? — perguntou o pai.
— Não. Não sou uma menina tola com a cabeça cheia de sonhos.
— Você nunca foi. Mas nem todos os sonhos são tolos. Ele demonstra ter sentimentos por você.
— E se ele resolver fazer algo a respeito deles, dou-lhe uma surra — murmurou Cillian.
Tarde demais, pensou Aileen.
— Da — disse. Se acha que Connor sente algo por mim, além de gratidão por ter lhe curado as mãos, você não está enxergando muito bem.
— Não sou eu quem não enxerga direito — disse Graeme, acariciando-lhe a mão. — Mas, se gosta de Connor, precisará ir atrás dele. Por que não agora? Laochre fica a poucos dias de viagem. Cillian pode levá-la.
— Não vou me atirar aos pés dele. Tenho orgulho demais para isso.
— Eu não criei uma covarde, criei?
Ela teve vontade de jogar as mãos para o alto de tanta irritação.
— Isto nada tem a ver com covardia.
— Tem sim. — Graeme ergueu o queixo da filha, de modo que Aileen o fitasse. — Você tem medo de correr atrás do que quer. Com você, sempre foi o que os outros queriam que importava, Aileen. Você deu demais para muitas pessoas. Pegue um pouco para si mesma.
— Sua boca curvou-se num meio-sorriso e ele piscou. — Um homem como Connor não conseguirá ficar zangado com você durante muito tempo. — Baixou a voz para que Cillian não pudesse escutá-lo.
— Ainda mais se levar a filha para ele.
Ele sabia. O rosto de Aileen ficou vermelho, mas ela se forçou a assentir.
— Vou pensar no assunto.
— Ótimo, vou lhe dar alguns instantes para arrumar suas coisas e depois quero que venha para casa. Sua mãe vai querer se despedir e enchê-la de conselhos. — Ele a abraçou. — Sei que não vai estar mais morando em Banslieve. Mas vamos visitá-la com bastante freqüência. Tudo ficará bem.
Encostando a cabeça nos ombros dele, ela enfim deu vazão às lágrimas que se acumulavam.
— Vou sentir saudades.
Ele enxugou os próprios olhos e pigarreou.
— Bem, é melhor começar a arrumar suas coisas.
De algum modo, o pai tomara a coisa toda suportável. Com o coração ferido e magoado, ela olhou para o horizonte vazio e perguntou-se se teria coragem de ir atrás de Connor MacEgan.
Ou até mesmo se queria fazê-lo.
Gastou menos tempo do que pensara para empacotar os pertences e os remédios. Levara consigo algumas vasilhas de madeira, uma tenda e alguma comida defumada. Nada além do que poderia colocar sobre a égua que Connor lhe dera. Ela passou a mão pelo animal, olhando para trás, para a sua pequena propriedade.
Danu, não queria ir embora. Toda a sua vida e lembranças estavam ali. Havia subido no telhado para substituir a palha, rindo quando Eachan atirou os feixes do material para ela. Havia sido um bom casamento e Aileen ainda sentia a falta dele. Rhiannon tinha atravessado o vão da porta cambaleando, buscando apoio no caixilho de madeira, quando estava aprendendo a andar.
Secando os olhos, engoliu em seco e forçou-se a desviar o olhar. Foi então que viu Riordan O’Duinne vindo em sua direção do topo da colina.
— Bom dia, Aileen — cumprimentou.
— Para você também.
Ela se forçou a sorrir, receando o motivo da vinda dele. Com certeza, Riordan soubera de seu banimento.
— Quer caminhar comigo por alguns instantes?
Ele olhou para o cavalo e portou-se como se não houvesse visto os pertences dela empacotados.
Aileen supôs que não faria diferença caminhar um pouco com ele. Ainda tinha tempo antes de ir para a casa dos pais.
Ela se juntou a ele, e Riordan se posicionou bem perto dela, com os dedos tocando-lhe a palma da mão.
— Achei que gostaria de saber que Maive sobreviveu. Apenas Whelon e Padraig morreram.
— Mais alguém ficou doente?
— Não. — Desta vez, ele tomou a sua mão na dele. —Aileen, não quero ficar longe de você. Quero que seja minha mulher.
Sua mão sentia-se fria na dele. Seu toque em nada lembrava o de Connor. Mais uma vez, um homem estável lhe oferecia proteção. Em vez de encontrar consolo nisso, sentia-se desconfortável.
O pai tinha razão. Sempre deixara a cabeça reger o coração, jamais perseguindo o que realmente queria. Nas duas vezes abrira mão de Connor. Não abrira o seu coração, não lutara por ele. Não queria repetir o mesmo erro. Se ele a rejeitasse, tudo bem. Pelo menos, teria tentado.
— Sempre foi importante para mim, Riordan. É um verdadeiro amigo — disse gentilmente.
As faces do homem se ruborizaram, como se soubesse o que ela estava prestes a dizer.
— Não vou me casar com você — disse ela, retraindo a mão. Riordan inspirou fundo.
— Sempre disse que era cedo demais para se casar com qualquer um. Ainda há tempo, Aileen. Posso levá-la comigo para a casa de minha família, no norte. Dê-me a chance de me tomar o homem que quer.
Ela empertigou os ombros.
— Connor MacEgan é o homem que quero.
As palavras saíram sem aviso. Mas, eram verdadeiras. A expressão de Riordan ficou sombria.
Por que quer se casar com um homem que não pode protegê-la? Viu o que aconteceu na noite em que foi atacada. Ele a mandou correr. Será que pretende correr pelo resto de sua vida? Pense no que poderia ter acontecido se eles a houvessem alcançado, Aileen. — Ele pousou a mão no ombro dela. — Não teria sido agradável.
Aileen afastou-se e ele rogou:
— Posso tomar conta de você, Aileen. Pelo menos, deixe-me tentar.
— Lamento, Riordan, mas não posso.
E, com essas palavras, a compaixão dele se transformou em ira brutal.
— Você foi para a cama com ele, não foi? Como uma meretriz qualquer.
Ela o esbofeteou, e o golpe só fez enfurecê-lo ainda mais. Riordan a empurrou de encontro à cerca, agarrando-a pelo pescoço.
— Paguei àqueles dois homens para atacá-la, para lhe mostrar o covarde que MacEgan era — admitiu ele, deliciando-se com a surpresa no olhar dela. — Ao que parece, foi dinheiro mal gasto.
— Afaste-se de mim. Por fim, ele a soltou.
— Então, vá. Mas ele jamais irá querê-la. Você não é nobre o bastante para um homem das origens dele.
As palavras abalaram sua confiança. Esfregando a garganta, fitou-o. A súbita violência de Riordan apenas serviu para convencê-la ainda mais de que precisava deixar Banslieve. Ele apenas a via como um objeto a ser possuído, não como uma mulher com sentimentos.
Quando por fim ele foi embora, ela ergueu o rosto para os céus, rezando para que tivesse a coragem para confrontar Connor. E, desta vez, traria Rhiannon consigo.




Capítulo Dezessete



A chuva caía sobre as estradas lamacentas, mas Connor não estava prestando atenção.
As muralhas de pedra da fortaleza do irmão Patrick estavam bem à frente. Ao longo dos últimos dias, sua mente focalizou-se em um único propósito: preparar-se para derrotar Flynn O’Bannion. Custasse o que custasse, recuperaria a força que precisava,
Connor reduziu o galope do cavalo para estudar Laochre. A imponente fortaleza de pedra havia se tomado quase um castelo. Não havia se dado conta de que estavam tão adiantados com a construção. Assim como os outros, ele havia erguido a sua cota de pedras. Mas só ao ver Laochre de longe, é que pôde notar o quadro geral das mudanças. A utilização de pedra, em vez de madeira, impediria a entrada dos invasores. Foi tomado de inveja, mas reprimiu o pensamento. Seu irmão havia conquistado o direito de ser rei.
Prosseguiu com o cavalo no mesmo passo, observando a paisagem rica em tons de verde. Embora devesse estar se sentindo alegre de voltar para casa, sentia-se vazio.
Nas últimas noites havia pensado em Aileen. O que seria dela? Não que se importasse, não após o que ela fizera. Mas não conseguia esquecer o belo rosto, e nem os olhos brilhando com lágrimas contidas.
Ela o tinha feito se sentir como um bruto insensível. Ele sequer dissera uma palavra de adeus, pois realmente não soubera o que dizer. Ela havia roubado sua filha, parte dele. Maldição, precisava tirá-la da cabeça.
Quando alcançou os portões, cumprimentou os guardas e desmontou. Um cavalariço levou embora o cavalo e ele aceitou os abraços de boas-vindas de amigos e parentes. A mulher de Patrick, Isabel, foi a primeira a avistá-lo no pátio. Ela correu até ele, não dando atenção à lama, e o abraçou bem apertado.
— Sentimos sua falta, Connor.
Isabel era linda, vestida como uma rainha, com sua léine vermelha e o vestido branco. Connor não pôde deixar de lhe notar a protuberância na barriga.
— Parabéns para você e para meu irmão. Para quando é o novo bebê?
As faces de Isabel coraram com o brilho especial de mãe.
— Para o meio do inverno, acho. Liam terá um novo irmãozinho ou irmãzinha para atormentar, em vez do tio Ewan.
Enquanto ela falava, conduzindo-o até o Grande Salão, a mente de Connor voltou-se para Aileen. Será que ela estava tão bonita quando carregava Rhiannon no ventre? Será que seus dedos acariciaram o pequeno volume na barriga, tentando acalmar a criança ainda por nascer?
Ele tivera a chance de ver rapidamente a filha antes de deixar Banslieve. Ela nada fazia, além de alimentar os animais do lado de fora da casa de Lianna e Tomás, mas o coração de Connor quase parou.
Nada havia dito, apenas a observara de longe, deliciando-se com a visão. Embora quisesse muito conhecê-la e criar um vínculo com a filha, sabia ser impossível.
O destino tinha um modo cruel de zombar dele. Sonhos de uma mulher e filhos estavam além de seu alcance. Embora as mãos estivessem curadas, não sabia se teria a força para derrotar e matar Flynn O’Bannion. E, caso o fizesse, será que algum dia realizaria seu sonho de reinar sobre uma tribo só sua?
— Connor? — chamou Isabel, trazendo-o de volta ao presente. — Ouviu o que eu disse?
Ele ficou ruborizado.
— Não, acho que estava com a cabeça longe. Isabel o fitou com um olhar penetrante.
— Vamos lá para dentro.
Ele podia notar no rosto dela os pensamentos que giravam em sua cabeça. Depois, ela olhou para a outra extremidade do Grande Salão.
 — Vejo que as criadas estão satisfeitas com seu retomo. Connor virou-se, e quatro mulheres riram. Mulheres que, outrora, ele admirara. De cabelos claros e escuros, altas e baixas, magras e cheias, todas prontas para lhe dispensar atenção. Houve um dia em que as havia apreciado, mas, agora, as via como uma fonte de irritação. Sequer lembrava de seus nomes.
— Eu as vejo — disse. — Mas não tenho tempo para isso. Preciso falar com Patrick.
— Minha Nossa Senhora — murmurou Isabel. — De fato aconteceu.
— O que aconteceu?
— Trahern disse que havia uma mulher. Você gosta dela, não gosta? — Ele nada respondeu, mas Isabel podia enxergar através dele. — Fale-me dela.
— Está enganada — disse ele. — É melhor deixar isso no passado. Isabel tomou-lhe as mãos e viu os ossos desalinhados, os dedos retorcidos. Embora não houvesse aversão em seu olhar, ele notou preocupação.
— Ela gosta de você?
— Deixe para lá, Isabel.
Embora ela não deixasse transparecer, ele pôde ver a pena nos seus olhos. Connor procurou controlar a raiva que ameaçava dominá-lo. Não precisava e nem pedira a interferência de Isabel.
Naquele instante, o irmão Patrick apareceu. Usava armadura de treinamento de couro e seu cabelo escuro estava molhado da chuva.
— Soube que havia retomado. Seamus O’Duinne me mandou uma mensagem dizendo que você lhe tinha dado a sua propriedade,
Connor pediu licença a Isabel e seguiu o irmão escada acima até a sala de estar. Patrick dispensou as criadas e aguardou até que estivessem sozinhos.
— Por que deu sua única propriedade em troca de um cavalo?
— Tinha de pagar uma divida.
— Eu lhe empresto o dinheiro que precisar. Sabe bem disso, irmão.
— Após o festival de Samhain, não terei mais utilidade para a propriedade.
— Isso diz respeito a Flynn O’Bannion, não é? Trahern me contou o que ele fez com suas mãos.
Connor inclinou a cabeça.
— Ele alega que deflorei a filha dele, e os brehons acreditaram nela.
— Que provas foram apresentadas?
— Falsos testemunhos. As multas se cancelaram.
— Mas você não está satisfeito — adivinhou Patrick.
— Quero vingança pelo que os homens de O’Bannion fizeram comigo. Pretendo enfrentá-lo em combate.
Patrick sacudiu a cabeça e suspirou.
— Os brehons concordaram com isso?
— Concordaram.
— Devia ter aceitado o primeiro veredicto deles.
— Não vou pagar pelas mentiras de uma mulher, irmão.
— Eu sei. Mas também sei que não vai deixar Flynn O’Bannion sobreviver.
A pele de Connor ficou fria, mas ele enfrentou o olhar de Patrick.
— Ele merece a morte.
— Você é um tolo — disse Patrick. — Embora imagine que, se fosse eu, faria o mesmo.
Os dois trocaram um olhar de compreensão.
Connor sentou-se numa das cadeiras, distraidamente esfregando os dedos da mão direita. Precisaria imobilizá-los esta noite. Aileen o alertara que a chuva poderia, ocasionalmente, fazer com que doessem, e tinha razão.
Pare de pensar nela. Você fez a coisa certa, deixando-a para trás. No entanto, a fúria lhe apertava o peito.
Precisava derrotar O’Bannion e recomeçar sua vida. Poderia comprar mais terras e competir para se tomar chefe tribal, ou rei. Talvez se casar com a filha de um chefe tribal.
O pensamento trouxe à cabeça de Connor imagens de Aileen em sua cama, seu calor se aninhando perto do seu corpo. Ele esforçou-se para tirar a imagem da cabeça.
— Desembainhe a espada — ordenou Patrick, sacando a própria espada da bainha. — Quero avaliar sua habilidade.
Connor segurou a arma com a mão direita. Sua força havia retomado, mas ele sabia que os reflexos ainda estavam debilitados.
Patrick girou a espada na direção da cabeça de Connor. Com ambas as mãos, Connor bloqueou o ataque. O irmão não mostrou piedade ao estocar e golpear, buscando fraquezas. Connor defendeu cada um dos ataques, mas seus pulsos doíam. Cada golpe lhe abalava os braços, até que apenas seu treinamento o impediu de deixar cair a espada.
Patrick girou a espada na direção do meio do corpo de Connor, mas este deu um salto para longe.
— Será que perdeu toda a sua habilidade? — zombou o irmão. — Ou apenas não se lembra de nada do seu treinamento? A espada de Connor golpeou a de Patrick.
— Lembro que você nunca foi tão rápido quanto eu. Ele se tomou o agressor, girando a espada por sobre a cabeça para melhor atacar Patrick. Golpe após golpe, circulando e se esquivando, eles treinaram.
Patrick atingiu Connor de surpresa e a espada de Connor caiu no chão de madeira. Ele não havia previsto o golpe, e o simples desarmamento o encheu de vergonha.
— Ainda não está pronto para enfrentar Flynn O’Bannion.
— Ainda não — admitiu Connor. — Mas vou estar. O irmão lhe avaliou o olhar e preferiu não discutir.
— Temos muito a fazer. Pegue sua espada e começaremos de novo.
— Não vou com você — protestou Rhiannon quando Aileen reduziu o trote do cavalo. — Quero ficar com Lianna e Tomás.
Ela não previra a reação de Rhiannon. Pensara que a filha se animaria diante da perspectiva de uma jornada, em especial para um lugar tão longe.
Haviam ficado com o irmão dela, Cillian, por alguns dias, e ele as havia acompanhado na viagem até os limites das terras dos MacEgan. Embora Aileen houvesse insistido que ficariam bem, ela duvidava de que Cillian houvesse de fato ido embora. Provavelmente as estava observando até ter certeza de que haviam passado pelos portões. Rhiannon se amuara e se lamentara durante todos os dias por ter que deixar a família de criação. Mais de uma vez, ameaçara fugir.
— Connor MacEgan é o seu pai — disse Aileen. Havia contado a verdade à filha antes de chegarem a Laochre, pois sabia que Rhiannon precisaria de algum tempo para aceitar o fato. — E estamos indo para que possa conhecê-lo melhor.
Mais de uma semana se passara desde a partida de Connor. Seu coração bateu mais rápido diante da perspectiva de revê-lo. Cada noite sem ele havia sido solitária. Mas será que ele a queria ali? Ou a mandaria embora?
— Eachan era o meu pai de verdade — argumentou Rhiannon.
— Eachan era meu marido, não seu pai.
Uma expressão emburrada transformou a boca de Rhiannon em uma linha fina.
— Não pode me forçar a ficar aqui.
Foi então que a fortaleza de Laochre apareceu no horizonte, e o medo de Aileen se transformou em pânico. Ela não havia avisado que viria. Não sabia ler e nem escrever, e mandar um mensageiro custaria mais do que poderia pagar. Não, não teve outra escolha senão vir e rezar para que o rei Patrick lhe oferecesse hospitalidade.
A língua falante de Rhiannon se calou diante da visão da imensa fortaleza. Mesmo de longe, Aileen podia ver os numerosos soldados patrulhando a muralha. Sentiu um frio no estômago.
Por fim, alcançaram os portões. Ela ajudou Rhiannon a descer do cavalo e caminharam até a entrada.
— Quero ver Connor MacEgan — disse ela, com falsa coragem, para um dos guardas. — Avise que Aileen O’Duinne e a filha dele, Rhiannon, estão aqui para vê-lo.
O soldado pediu que ela aguardasse, enquanto mandava um serviçal avisar Connor. A cada minuto que passava, Aileen ficava mais e mais nervosa. Será que perdera o juízo ao cruzar com a filha o interior do país, atrás de um homem que poderia rejeitá-las? E se o rei não as deixasse entrar? Sua mente repassou todos os problemas enquanto aguardava.
Um rosto conhecido apareceu, o do jovem chamado Ewan MacEgan. Alto e magro, ele caminhou na direção delas com a arrogância de um menino que se achava um homem.
— Connor está treinando — informou Ewan. Seu olhar recaiu sobre Rhiannon e a surpresa lhe corou as faces. — Isabel me pediu para lhe dar as boas-vindas. Ela está providenciando algo para vocês comerem e beberem.
— Connor sabe que estou aqui? Ewan sacudiu a cabeça.
— Eu lhe contarei assim que ele e Patrick tiverem terminado. Isabel está aguardando.
Ele as conduziu por uma escadaria de pedra até chegarem ao Grande Salão. Tapeçarias coloridas revestiam as paredes e juncos macios cobriam o chão. Aileen desejou estar usando uma léine limpa, ou que houvesse escolhido um vestido de uma cor mais alegre do que o verde-claro. Ela avistou algumas damas usando elegantes vestidos de seda e adornos dourados nos cabelos. Pulseiras de ouro e prata brilhavam em seus pulsos.
Engoliu em seco, quando uma mulher linda, de compridos cabelos dourados, adentrou o recinto. Com um vestido e léine violeta, a barriga deixando bem clara sua gravidez, ela estendeu as mãos para cumprimentá-las.
— Fico feliz que tenha vindo, Aileen O’Duinne. Sou Isabel MacEgan. Patrick é meu marido.
Aileen notou o cumprimento informal da rainha e sentiu-se constrangida diante do beijo de boas vindas da mulher.
— Peço perdão por não ter avisado de minha vinda. Não consegui...
— Não se preocupe. — Isabel fez um gesto de pouco caso com a mão. — Trahern e Ewan nos falaram de você. Tinha esperanças de que viesse. — Ela pediu aos serviçais que trouxessem duas bacias de água. — Por favor, sentem-se que eles lhes banharão os pés. — Ela virou-se para Rhiannon. — E esta é a sua filha?
— É. — inspirando profundamente, em busca de coragem, ela acrescentou: — E também é filha de Connor.
Lágrimas indesejadas brotaram em seus olhos. Tentou conter a súbita onda de emoção, mas a exaustão da viagem e seus receios tomaram isso impossível.
— Ele sabe? — perguntou Isabel, sua voz endurecendo um pouco. Aileen assentiu.
— Mas ele não deve estar esperando nos ver. Eu queria que ele e Rhiannon se conhecessem melhor.
A expressão do rosto da rainha ficou mais suave.
— Querem tomar um banho e comer alguma coisa antes que ele as veja?
— Eu agradeceria muito.
Aileen virou-se para Rhiannon, cuja cara estava amarrada de rebeldia.
Baixinho, Rhiannon murmurou:
— Não vou ficar aqui. Quero ir para casa.
— Faça o que estou mandando, a iníon — avisou Aileen. — Espero que mostre que tem boas maneiras.
— E quanto a ele? — Rhiannon olhou na direção de Ewan. — Ele não está demonstrando boas maneiras. Não deixa de olhar para mim.
— Talvez seja porque você tem um rosto bonito.
— Mas ele é um menino, mamãe! A reação horrorizada de Rhiannon fez Aileen querer rir.
— Ele também é seu tio — acrescentou Aileen. Rhiannon não pareceu mais tranqüilizada. Ela fez uma careta.
— Ele não vai mandar em mim.
Aileen preferiu não dizer nada. Depois que os serviçais levaram embora as bacias e elas calçaram sandálias, ela seguiu Isabel escada acima. Rhiannon as seguiu, estudando a fortaleza de pedra com interesse.
Ao passarem por um dos aposentos, ela ouviu o barulho de espadas se chocando. Aileen olhou inquisitivamente para Isabel, que assentiu.
— Meu marido e Connor estão aí dentro. Quer esperar por eles? Aileen sacudiu a cabeça.
— Se não se importar, pode levar Rhiannon na frente. Eu as alcançarei em um instante.
O ruído do violento choque de espadas vinha de lá de dentro. Connor não podia suportar abuso tão brutal contra suas mãos. Aileen abriu silenciosamente a porta, sua cabeça fervilhando de alternativas para cuidar da dor e do inchaço.
O combate de espadas estava sendo travado com intensidade mortal. Connor bloqueava cada um dos golpes da espada do irmão, mas Aileen apertou as próprias mãos, como se fosse ela quem estivesse lutando. Isso não era um simples treino.
Patrick MacEgan movia-se com velocidade incomum. Seus pés deslizavam, espadas chocando-se uma com a outra, até que chegaram perto dela, A atenção de Connor foi desviada por um breve segundo, e seu irmão explodiu de fúria.
— Eu poderia ter matado você! Mantenha a mente focada e longe de distrações.
Aileen recuou até a parede, ambos os homens a fitando com fúria.
— Sinto muito. Não deveria ter interrompido.
— O que está fazendo aqui? — exigiu saber Connor.
O suor lhe escorria pelo rosto e o cabelo claro estava preso para trás. Seus olhos acinzentados a fitaram de alto a baixo, e as faces dela se incendiaram.
A raiva selvagem no seu olhar lhe deu vontade de ir embora. Seu interior se contorcia de dor só de revê-lo.
— Eu trouxe Rhiannon — disse ela. Sua língua se enrolava com as palavras. — Pensei que...
— É melhor continuarmos esta conversa em particular — disse Connor, abrindo a porta e lançando um olhar para o irmão que dizia: "vá embora." — Eu falo com você mais tarde, Patrick.
— Quem é ela? — exigiu saber o rei.
Ele embainhou a espada, mas não escondeu seu descontentamento.
— Sou Aileen O’Duinne — respondeu ela. — A mulher que curou seu irmão.
Ela fez uma mesura, esforçando-se para manter a postura correta. Ainda assim, sua mente era uma confusão de sentimentos conflitantes.
— Você fez com que ele perdesse a concentração — acusou Patrick. — Ele não precisa de nada que o distraía do seu treinamento.
Aileen cerrou os punhos, sua garganta se fechando com lágrimas não derramadas. Ele tinha razão. Embora a filha merecesse estar ali, ela não.
Connor fez um gesto para que o irmão os deixasse a sós.
— Eu lidarei com Aileen, Patrick.
Quando a porta se fechou, Connor a trancou com o pesado ferrolho de madeira.
— Por que veio aqui?
Aileen postou-se diante dele, tremendo de medo. Ela ergueu os olhos para poder fitá-lo nos olhos. Sob aquele exterior severo estava o homem que havia feito amor com ela, e pai de sua filha. Embora entendesse os motivos dele para desprezá-la, ela queria o seu perdão.
— Certas coisas não foram ditas.
Ela deu um passo à frente, o corpo totalmente ciente do poder dele. Connor não se mexeu, mas Aileen pôde ver o brilho de interesse no olhar sombrio. Ele não tinha esquecido como as coisas haviam sido entre eles.
Antes de perder a coragem, ela levou as palmas das mãos ao peito dele, Sua intenção era fazer um apelo, mas o coração dele disparou sob seu toque. Pelo modo como ele cerrou os lábios, ela o viu lutar contra seus desejos. Parecia pronto para empurrá-la para longe a qualquer momento.
— O que não foi dito?
Anos pareceram passar naquele único instante. Tudo que ela queria lhe dizer morreu nos seus lábios quando as mãos dele cobriram as suas. O homem a sua frente estava consumido pela vingança. Ele não a queria ali.
Mas, sem aviso, a boca de Connor desceu sobre a dela, ardente e insistente. Seu cheiro másculo a dominou, seus braços fortes puxando-a para perto de si. O beijo enviou ondas de desejo por todo o seu corpo, o toque dele despertando-a. Seus seios se intumesceram, seu ventre implorando para tê-lo dentro de si.
Ela retribuiu o beijo, as mãos envolvendo-lhe o pescoço. Com os olhos fechados, Aileen podia quase imaginar que ele gostava dela.
Foi então que Connor interrompeu o beijo, como se ela o houvesse queimado.
— Devia saber que não devemos insistir nisso, Aileen. Nosso destino não é ficarmos juntos.
A determinação na voz dele foi como uma lâmina atravessando-lhe o coração. Ela baixou as mãos.
— E quanto a sua filha? Também a rejeitará?
— Você falou de mim para ela?
— Ela merecia saber a verdade.
— Então, por que não lhe contou a verdade anos atrás? Ela suspirou,
— Tive medo. E Eachan a amava demais.
— Tinha razão ao permitiu que ela acreditasse na ilusão.
Ela foi tomada de desespero. Desde quando ele havia mudado de idéia?
— Você não a quer?
Não podia acreditar que Connor rejeitaria a própria filha. O olhar do guerreiro permanecia firme.
— Não lhe dê falsas esperanças, Aileen. Até o Samhain, é melhor que vocês duas fiquem longe.
Ela duvidava que fosse verdade. Mesmo que Connor sobrevivesse à batalha com Flynn O’Bannion, algo havia mudado entre eles. Agora que não estava mais isolado do resto do mundo, aqui na fortaleza do irmão, Connor havia se transformado no guerreiro irlandês que ela idolatrara quando menina. Impassível e selvagem, ela não enxergava o perdão nele.
Este homem era tão inatingível quanto as estrelas.
— Quer que eu me vá — sussurrou.
— É melhor assim.
Ele abriu a porta e, ao passar por ela, Aileen se amaldiçoou por abrir o coração para Connor.




Capítulo Dezoito



Na sua cabeça, Connor gemeu, Jamais deveria tê-la beijado. Assim que tocou em Aileen, seu corpo se lembrou da sensação de fazer amor com ela. Ele a queria em sua cama, a desejava com uma voracidade insaciável.
Se ela não fosse embora, tal desejo acabaria com ele. Mentira ao dizer que não a queria ali. Por todos os deuses, como ele a queria!
Ela havia trazido Rhiannon até ele. Não sabia o que pensar de tal gesto. Ele queria conhecer a filha, mas não deste jeito. Embora os treinos diários com o irmão o houvessem ajudado imensamente, a curandeira de Laochre imobilizava as mãos dele todas as noites. Ele costumava beber chás para aliviar a dor, levando o seu corpo até o limite.
Recusava-se a se aceitar como menos do que um homem inteiro. E jamais poderia assumir o papel de pai ou marido antes de recuperar sua força.
Abriu a porta de seus aposentos e surpreendeu-se ao encontrar Rhiannon sentada diante dela. A menina levou um dos dedos aos lábios.
— Estão me procurando.
— Você não deveria estar aqui.
Ela cruzou os braços e lançou-lhe um olhar ressentido.
— Você não é meu pai. Não importa o que ela diga, não é verdade. Eachan O’Duinne era o meu pai.
— Era mesmo — concordou Connor. — De todas as maneiras que não pude ser.
Por detrás das palavras zangadas da menina, ele pôde enxergar sua dor. Seu mundo havia sido destroçado pela confissão de Aileen.
— Não vou ser sua filha. — Ela ergueu o queixo com teimosia.
— Não pode me forçar.
Era como ver a mãe ralhar com ele novamente. Sua postura, o modo como olhava para ele. Cada centímetro dela era uma MacEgan.
— Sua mãe deve estar preocupada com você — avisou ele. — Talvez deva ir encontrá-la.
Rhiannon parecia aliviada por ele não discutir com ela.
— Amanhã de manhã voltaremos para casa.
— Se é o que querem.
Ele nada falou sobre o banimento de Aileen, mas despejou um pouco de água na bacia e enxugou o suor da testa. Rhiannon ficou esperando e lhe entregou uma toalha.
— Suas mãos ainda estão retorcidas.
— É, estão sim.
Antes que pudesse detê-la, ela lhe pegou a mão e começou a estudar os dedos. Algo apertou seu coração dentro do peito. Com a mãozinha dela na dele, Connor se perguntou como seria se ela viesse a aceitá-lo como pai.
O rostinho dela sorriu.
— Minha mãe fez um ótimo trabalho. Outras curandeiras teriam lhe amputado a mão.
— Fico feliz que não o tenha feito.
— Você está bebendo casca de salgueiro? — perguntou Rhiannon.
— Dizem que ajuda com a dor.
Connor procurou disfarçar o sorriso. Como um passarinho, Rhiannon declamava conselhos medicinais.
— Você vai ser curandeira, como sua mãe? A cabeça escura assentiu.
— Mamãe está me ensinando.
Rhiannon olhou para as talas de madeira e as bandagens sobre a mesa.
— Quer que eu enfaixe suas mãos?
— Seria de grande ajuda.
Ela reuniu os materiais e ele se sentou. Os dedinhos trabalharam com grande habilidade, endireitando cada um dos dedos dele e enfaixando-os. Embora, mais tarde ele tivesse de apertar mais as faixas, Connor permitiu que ela trabalhasse nas mãos dele.
— Você é muito boa, cailín — elogiou. — Sua mãe vai ficar muito orgulhosa.
Um sorriso brincou nos lábios dela.
— Use-as todas as noites — ela avisou. — Vão ajudar a endireitar suas mãos novamente.
Instantes mais tarde, ela foi embora, e Connor ficou admirando o trabalho da filha. Embora as faixas não estivessem apertadas o bastante, ela havia feito o melhor que podia.
Connor afrouxou as amarras da túnica e tirou a roupa. Esticou os músculos, cansados do exercício da luta. Mais um ou dois dias, pensou. Elas poderiam ficar mais um pouco. Ele iria conversar com Isabel e pedir para a cunhada arrumar uma desculpa.
— E onde você acha que vai? — Aileen perguntou a uma Rhiannon com cara de culpada.
A menina havia se enfiado atrás de um dos muros de pedra, olhando para os portões, como se quisesse fugir.
— A lugar nenhum.
— Espero mesmo que não. Não estaria pensando em fugir, estaria? Rhiannon sacudiu a cabeça, mas se recusou a enfrentar o olhar da mãe. Aileen viu um dos guardas sorrir de modo tranqüilizador, mas não se deixou demover. A filha era bem capaz de fugir.
— Por que não vai até os estábulos? Ewan poderia lhe mostrar os cavalos — sugeriu Aileen.
Rhiannon sacudiu a cabeça.
— Quero voltar para casa. Não gosto daqui.
— Alguém foi descortês com você?
— Não. Mas ninguém fala comigo, e nada tenho para fazer. Aileen pegou a mão de Rhiannon.
— Vamos falar com Isabel. Talvez ela tenha alguma ideia. Talvez você possa ajudar a curandeira deles a colher ervas e coisa do gênero.
Rhiannon sorriu.
— Será que há algum homem ferido?
— Em uma fortaleza deste tamanho, com certeza há homens feridos.
Ao seguirem para o Grande Salão, passaram por um grupo de homens treinando no pátio. Aileen deteve-se para assistir. Os homens estavam usando armadura de couro, vários grupos treinando com leves espadas colc. Sob o sol da tarde, seus corpos brilhavam de suor. Será que Connor já havia treinado daquele jeito, seu corpo fazendo os mesmos exercícios que aqueles soldados? Ela imaginou os músculos dele se flexionando, sua intensa concentração sobre o oponente.
— Quer aprender a lutar? — um dos soldados perguntou.
Com um sorriso simpático e cabelos negros, seus olhos azuis a fitaram com humor.
Aileen sacudiu a cabeça.
— Não. Estava procurando a rainha Isabel e parei para olhar.
— Poderá encontrá-la no jardim — aconselhou o soldado. — Mas, caso queira lutar, o meu nome é Senan.
Os olhos dele mostravam interesse, mas Aileen não deu atenção. Seu olhar fixou-se no rastro de sangue que lhe descia pelo braço.
— Você está ferido — disse ela, aproximando-se para examinar o corte.
— Apenas um arranhão. Não me movi rápido o bastante e a lâmina me atingiu.
— Minha mãe é curandeira — explicou Rhiannon.
— É mesmo? — Senan estendeu o braço. — Acha que corro o risco de perdê-lo? — brincou.
Aileen sacudiu a cabeça.
— Basta enfaixá-lo, e estará bom amanhã de manhã. Tem razão, é apenas um pequeno corte.
— Poderia cuidar dele para mim — sugeriu Senan, com a voz oferecendo promessas sedutoras.
Aileen teve vontade de rir, mas a verdade é que era bom ser notada por um homem.
— Ela tem coisas melhores para fazer — interrompeu uma voz masculina.
O olhar fulminante de Connor não diminuiu em muito o entusiasmo de Senan. O soldado apenas piscou para Aileen e se juntou novamente à luta.
— E que coisas melhores tenho para fazer? — perguntou Aileen, erguendo a sobrancelha.
— Venha comigo, que eu lhe digo.
Ela olhou para Rhiannon que chegava cada vez mais perto da luta.
— Quer vir conosco?
A filha sacudiu a cabeça.
— Não gosto dele.
— Rhiannon O’Duinne! Como pode dizer algo tão terrível assim? Connor não pareceu se surpreender cora o comentário de Rhiannon.
— Ela não precisa vir. Pode ficar olhando os homens treinarem, se quiser. — Ele olhou para a menina. — Ou, se entrar na choupana do tecelão, vai encontrar Brianna, a filha do meu irmão. Ela chegou hoje de manhã e tem a mesma idade.
Rhiannon sorriu diante da perspectiva de encontrar outra menina.
— Eu posso? Por favor?
Aileen hesitou, dividida entre o comentário insensível de Rhiannon e a curiosidade sobre o que Connor queria falar com ela.
— Conversaremos mais tarde — avisou à menina.
Connor a conduziu para fora da fortaleza. As colinas verdes estendiam-se diante deles, estendendo-se até o brilhante oceano cor de safira. Ele seguiu em frente, até chegar a um pequeno bosque. O aroma forte de terra e folhas os envolveu.
O sol lhes aquecia os rostos, e Aileen deveria ter se sentido feliz de caminhar ao lado de Connor. No entanto, estava ficando preocupada. Ele não a queria ali, assim como não queria Rhiannon.
— O que queria me dizer?
— Estava olhando para Senan. Não faça isso.
Ele segurou o queixo dela, como se estivesse repreendendo uma criancinha.
Ela o empurrou para trás com vontade.
— Você não sabe o que quer, não é? Uma hora me diz que eu não deveria ter vindo, na outra se porta como um amante ciumento. Eu não sou sua. Suas ações deixaram isso bem claro.
— Você não vai ficar aqui, Aileen.
Ela não negou, não quando ele a tratava deste modo. Já pensava que isso tudo havia sido um grande erro. Mas não podia partir antes de acertarem a tutela de Rhiannon.
— E quanto a sua filha? Quer que eu a leve embora comigo?
— Rhiannon pode ficar. — Sua expressão se suavizou e ele fitou as mãos. — Ela me contou que quer ser curandeira, como você.
— Desde que aprendeu a falar, ela diz que quer ajudar os outros. Connor sentou-se sobre uma pedra coberta de limo, recostando-se em uma das árvores.
— Fale-me dela.
Seu tom de voz permanecia neutro, mas ela pôde sentir que ele escondia uma grande necessidade.
Sentou-se longe dele, encolhendo as pernas.
— Rhiannon nasceu numa manhã nervosa, após o Festival de Santa Ágata. Não foi um nascimento tranqüilo. Fiquei em trabalho de parto durante dois dias e quase morri. Receei que jamais a seguraria nos braços.
O silêncio de Connor a fez sentir-se desconfortável. Será que ela estava falando de coisas que não o interessavam?
— Você deixou Eachan acreditar que era o pai dela? Seus olhos estavam frios. Seu olhar, distante.
— Não. — Ela pegou uma pequena pedra, traçando-lhe o contorno com o polegar. — Eachan se ofereceu para casar comigo. Ele sabia que eu estava grávida. E ele sempre soube que você era o pai.
"Eu a queria", ela prosseguiu baixinho. "Mesmo sabendo que você não voltaria, todas os dias agradeci a Deus por aquele milagre."
Connor levantou-se e ajoelhou-se ao lado dela. Embora ela esperasse ver perdão, tudo que enxergou foi raiva.
— Deveria ter dado um jeito de me avisar.
— Eu tinha apenas 16 anos de idade, Connor. Não posso desfazer o passado. Tudo que posso fazer é me esforçar para curar as feridas dele.
— Certas feridas não podem ser curadas.
O olhar dela se voltou para as mãos deformadas do guerreiro.
— Não. Nem todas as feridas.
Ele segurou-lhe os pulsos, imobilizando-os.
— Diga-me uma coisa, Aileen. Por que tomou o lugar de Lianna? E não diga que foi para salvar a colheita. Nenhuma jovem sacrificaria a virgindade a um desconhecido por causa disso.
— Você nunca foi um desconhecido para mim — sussurrou ela. — Você era o meu sonho. O sonho que eu não podia ter.
Ela ajoelhou-se, acariciando-lhe o rosto com a palma da mão. Mas ele não a beijou. A pele quente poderia muito bem ter sido feita de aço, de tão distante que ele estava.
— Por que esta luta é tão importante para você? — Ela baixou as mãos, zangada consigo mesma por tê-lo tocado. — Flynn vai machucá-lo. Pior do que ele o fez da última vez.
— Preciso ser o homem que eu era antes.
— E se eu quiser o homem que você é agora?
Mesmo sabendo que seria magoada, ela abriu o coração para ele,
— Você quer um homem sem honra? — perguntou ele. — Não me peça para desistir de tudo como um covarde.
Ela baixou a cabeça, percebendo que ele jamais se deixaria convencer.
— Quero que você viva — sussurrou ela. — Por mim e por nossa filha. E se insiste em se sacrificar por honra, então nada mais resta.
O rosto dele escondia milhares de arrependimentos. Levando a mão destorcida à face de Aileen, ele inclinou-se à frente. Seus lábios encontraram os dela num beijo suave e inesperado.
— É melhor assim, a chroí.





Capítulo Dezenove



Quando o céu cinzento da alvorada irrompeu, Connor e os quatro irmãos cavalgaram através dos campos de Laochre. Ele extraía força da presença dos irmãos, embora já os houvesse alertado para não invadir o território de Flynn O’Bannion. Esta era a sua batalha, não deles.
Faltavam três dias para o Festival do Samhain. Connor forçou a mão direta ao redor do punho da espada do irmão. O metal frio aqueceu-se sob a palma de sua mão, uma mistura de aço incrustado com marfim. Durante toda a cavalgada, concentrou-se na batalha que estava por vir. Ainda assim, seus pensamentos se voltavam para Aileen.
Ela havia pedido que ele desistisse da luta, como um covarde. Será que não podia ver que a honra era tudo que tinha? Nos últimos dias, ela o havia evitado. Por mais que não quisesse admiti-lo, tinha notado. Havia se acostumado a conversar com ela.
E o gosto dela perdurava na sua lembrança, a doçura que ela lhe oferecera.
E se eu quiser o homem que é agora?, Aileen havia perguntado. Ele não acreditava nela. Nenhuma mulher queria um homem deformado que não conseguia proteger a própria família. Até ter provado sua força, não tinha o direito de se apresentar como o verdadeiro pai de Rhiannon.
No passado, havia levado a vida de espada de aluguel, viajando de uma tribo para a outra. Sua única esperança de ter um lar e uma família permanentes era conquistar a posição de chefe tribal.
Ele olhou para o irmão, Patrick. Ele havia lutado pelo direito de ser rei, após o mais velho dos irmãos, Liam, ter tombado em combate. Era seu direito liderar a tribo; ele havia feito por merecê-lo. Até mesmo o irmão Bevan conquistara sua própria propriedade ao se casar com uma dama normanda.
Connor procurou reprimir a inveja. Por que não podia se dar por satisfeito? Trahern e Ewan não possuíam a mesma ambição. Ele gostaria de poder silenciar tais desejos.
— Está pronto para esta luta? — perguntou o irmão Ewan, quando pararam no final da tarde para acampar. A testa do jovem estava franzida de preocupação. — Não o vi treinar entre os homens.
— Supervisionei o treinamento dele — respondeu Patrick. — Ele está pronto.
Connor o fitou nos olhos, agradecendo silenciosamente pela confiança de Patrick. Bevan, por outro lado, parecia ter suas dúvidas.
— Flynn O’Bannion não será um guerreiro fácil de derrotar. Ele conhece as suas fraquezas.
— E eu conheço as dele.
A resposta brusca pôs fim à discussão. Connor treinou o máximo que pôde. Agora, restava apenas esperar a sua chance.
Eles prenderam os cavalos, escolhendo um local perto de um rio. Uma cachoeira cascateava para formar uma pequena piscina. Não muito longe, encontraram uma vala no chão revestida de madeira. O lugar para cozinhar significava que outros caçadores já haviam acampado ali antes. Havia água da chuva na vala, e Ewan esvaziou a bolsa de água no poço de cozinhar. Ele foi e voltou com mais água do rio até que este estivesse cheio.
Quando acenderam a fogueira, Trahern jogou várias pedras no fogo, para aquecê-las para cozinhar. Com malícia nos olhos, passou a Connor o chifre cheio de cerveja.
— Gostaria de saber mais sobre a sua mulher, Aileen. E sobre a menina que lembra a nossa mãe.
— Ela é minha filha — admitiu Connor. — Só soube de Rhiannon recentemente.
Rhiannon. O nome da filha o enchia de apreensão e humildade. Queria conhecê-la melhor, para aliviar o ressentimento que a menina sentia dele.
Patrick estreitou os olhos.
— Aileen deveria ter lhe contado sobre ela muito antes.
— A culpa foi tão minha quanto dela — afirmou Connor. Após tomar um gole, ele passou o chifre para Bevan. — Pretende se casar com Aileen? — perguntou Trahern. A pergunta o pegou de surpresa.
— Não sei.
Ele não havia se permitido imaginar o futuro. Sua atenção estava totalmente voltada para o resultado desta luta. Estava cego para todo o resto. Não ousava pensar em suas perspectivas após o combate.
Patrick e Bevan entreolharam-se em silêncio. Connor os ignorou. Não precisava das especulações dos irmãos. Não era da conta deles.
Connor retirou as pedras quentes de dentro do fogo e usou um pano grosso para jogá-las na vala cheia de água. Soltando vapor, com o tempo, a água ferveu. Patrick passou uma perna de veado para Trahern, que a envolveu em palha e a amarrou, colocando depois a carne dentro da água fervente para cozinhar. Mais tarde, ele entreteve os irmãos com suas histórias, enquanto relaxavam diante da fogueira.
 À medida que a tarde ia se transformando em noite, Connor estudava o rosto de cada um dos irmãos. Estes haviam vindo lhe oferecer o seu apoio, recusando-se a deixar que ele fizesse a viagem sozinho. Ele lhes era muito grato. E rezava para que esta não fosse a última vez em que os veria. Não queria morrer, mas parte de si estava a par de suas limitações. Esta batalha exigiria cada fibra de sua força, pondo-o à prova até que não tivesse mais nada a oferecer.
Um ruído fez todos os homens desembainharem as espadas. Um único cavaleiro emergiu das sombras, e ele viu Aileen desmontar.
Seu cabelo escuro havia se soltado da trança, as mechas compridas emoldurando-lhe o rosto. Ela havia cavalgado em ritmo acelerado, e estava ofegante.
Connor segurou as rédeas da égua e a ajudou a descer.
— O que foi? Há algo errado?
Sombras de exaustão dançavam pelo rosto de Aileen quando se postou diante dele.
— Sim, há algo errado. Você nos deixou para trás sem sequer se despedir.
Ela pousou as mãos nos ombros dele. Em seus olhos, Connor viu apreensão e dor. Ela baixou a voz até sussurrar:
— Se quiser que eu vá, partirei. Mas queria vê-lo antes da luta.
A mão de Aileen alisou o cabelo de Connor, e um desejo primordial firmou-se em seu âmago, destruindo toda e qualquer razão para rejeitá-la.
— Não vá — disse.
Seu polegar acariciou a têmpora de Aileen e ele a puxou para si. O aroma de salva triturada preencheu-lhe os sentidos. Embora não acreditasse haver futuro para os dois, era bom vê-la ali.
Aileen olhou na direção dos irmãos de Connor.
— Será que há algum lugar onde possamos conversar em particular? Connor segurou-lhe a mão e a conduziu até a mata. Samambaias macias se espalhavam pelo chão, a luz do sol poente atravessando as árvores. Quando alcançaram um pequeno trecho rochoso, foram recebidos pelos sons de uma pequena queda d'água.
Aileen sentou-se, soltando a mão dele. Seu coração batia furiosamente, sua mente parecia incapaz de pensar com clareza. Quando soubera da partida dele, foi como se alguém a houvesse apertado, até tirar todo o ar de seus pulmões. Não podia permitir que ele partisse, não sem lhe dizer o que sentia.
Mas agora a língua parecia incapaz de formar as palavras que queria. Não podia permitir que ele enfrentasse Flynn O’Bannion sem estar com ele. Mesmo que tivesse de vê-lo morrer, não podia permanecer em casa. A espera era o pior dos tormentos.
— Por que veio?
Apoiando-se numa das pernas, ajoelhou-se ao lado dela. Sob a luz fraca do crepúsculo, seu cabelo dourado brilhava. Ela estendeu a mão, trazendo o rosto dele para perto do seu.
—Porque cometi um erro, sete anos atrás. — Ela inclinou-se, de modo que sua testa encostasse na dele. — E agora preciso do seu perdão.
Connor endireitou-se. Seu polegar acariciava a curva do queixo dela. Aileen estremeceu diante da expressão sombria do seu olhar.
— Por favor.
Com a boca voraz cobrindo a dela, ele a deitou sobre a grama. Ela sentiu o gosto de desejo e desespero, misturados com uma necessidade tão intensa capaz de sobrecarregar seus sentidos.
Quando ele interrompeu o beijo, ela desfez os laços de sua túnica e a tirou pela cabeça do guerreiro. Ficou sem fôlego ao ver aquela extensão de pele e músculos. Ele, de fato, havia treinado. Não havia sequer um vestígio de gordura naquelas superfícies planas. Ela traçou com o dedo cada uma das elevações, possuindo-as com o loque.
— Eu o amo, Connor E preciso estar com você. Mesmo se você morrer.
— Ainda acredita que vou perder.
Sob o tom de voz severo, ela pressentiu o seu próprio medo.
— Não sei — respondeu com sinceridade. — Mas, embora não entenda o seu desejo de lutar, ficarei ao seu lado.
Ela foi incapaz de interpretar a resposta. Ele não fez nenhuma menção de lhe acariciar a pele, de amá-la como ela queria que ele o fizesse. Através dó tecido macio das calças de algodão, podia sentir que ele estava profundamente excitado. No entanto, Connor se continha.
— E depois? — perguntou ele. — O que vai querer de mim, Aileen? — Ele rolou para o lado dela, para fitá-la. — Acha que vou me tornar um fazendeiro?
— Não sei. Mas você poderia tentar...
— Não é o que quero. Quero o que meus irmãos têm. Quero ser um líder, com meu próprio povo para proteger.
Ele afastou um fio de cabelo da face dela, o gesto sutil ardendo de desejo.
Ele sonhava com o impossível. Como poderia querer tanto?
— Há algo errado em uma vida simples?
— Não é o bastante para mim.
A seriedade da voz dele fez o coração de Aileen se apertar. Ele estava falando sério. Se, de algum modo, conseguisse derrotar Flynn O’Bannion, não se satisfaria em viver com ela. Com esmagadora clareza, ela compreendeu que as diferenças entre os dois eram maiores do que havia imaginado. Mais uma vez, sentiu-se como a jovem virgem desejando o guerreiro fora de seu alcance.
— O que fará? — conseguiu perguntar, embora temesse a resposta.
— Dependerá do resultado da batalha. Se eu vencer, vou competir para me tomar chefe de uma tribo. Tenho parentes no oeste que podem me ajudar.
Aileen sentiu-se sufocada pela sensação de perda, pois sabia que este era o fim para eles.
— Há um outro meio — ela ofereceu. — Poderia se casar.
A mão dele alisou-lhe o corpo, detendo-se na curva da cintura.
— Poderia — admitiu. — Mas bem poucos nobres permitiriam que a filha se cassasse com um filho mais novo.
Aileen disfarçou o frio que sentiu na barriga. Ele não havia rejeitado a possibilidade de se casar com outra mulher. Ela já sabia que ele jamais abriria mão de seu sonho de derrotar O’Bannion.
Só lhe restava aquela noite para passar com ele. Ela cobriu a mão dele com a sua, entrelaçando os dedos aos dele.
— Não pretendo me casar — disse. — Se não conseguir o que quero com minha própria força, não usarei uma mulher para consegui-lo.
Com um movimento surpreendente, ela rolou para cima dele, montando-o sobre os quadris, prendendo-o de costas no chão. Fitando-a com incredulidade, ele permitiu que Aileen o fizesse prisioneiro.
— Parece que conquistei o que quero com minha própria força. — Ela passou os braços ao redor do pescoço dele. — Fique comigo esta noite. Preciso de você.
Connor estendeu as mãos e baixou o vestido dos ombros dela, expondo-lhe a pele ao ar frio da noite. Em seguida, suas mãos tocaram os seios de Aileen. Os mamilos se intumesceram devido à aspereza da pele dele de encontro à sua. Mantendo-a montada sobre ele, Connor sentou-se. A sensação excitante de sua ereção esfregando-se na feminilidade dela provocou um jorro de umidade.
Sua boca provou a curva do pescoço, suas mãos retirando o restante do vestido. Ela ficou ali deitada, nua, exposta ao céu escuro e ao homem que amava. Pelos deuses, teve vontade de se encolher e de chorar. Mas esta talvez fosse a última noite em que o veria. Amanhã, chegariam à fortaleza de Flynn O’Bannion, e os preparativos para o combate começariam.
— Estou com sede — disse Connor, subitamente.
Aileen o empurrou de encontro ao chão e se levantou. Sua pele nua se arrepiou ao seguir para o rio.
Não, ela não era a mulher com quem ele se casaria. Mas, pelo menos por esta noite, o tomaria nos braços como fizera antes. Ela também estava sedenta de tomá-lo dentro de si, e sentir a onda de prazer lhe queimar o ventre.
Formando uma concha com as palmas das mãos, pegou um pouco de água e a trouxe até ele. Connor bebeu da ponta dos seus dedos, um pouco da água espirrando sobre o corpo dela. Ele retirou o resto das próprias roupas e a deitou perto do riacho. Pegando mais um pouco de água, deixou que esta pingasse sobre a pele da moça.
— Está gelada! — gritou Aileen, mas ficou sem palavras quando ele começou a beber dela.
Sua boca quente provava a trilha até os seios. Ele tomou um dos mamilos na boca, atiçando a ponta intumescida com a língua. O calor ardia no interior de Aileen, e os beijos começaram a trilhar mais para baixo, bebendo a água de seu umbigo.
Mais baixo ainda, até os quadris. Ele afastou-lhe as pernas, e a respiração de Aileen ficou presa na garganta.
— Não tem água nenhuma aí — disse ela.
— Não? — Ele a fitou com malícia. — Terei que conferir isso por mim mesmo.
Ele curvou-se entre as pernas dela, a língua movendo-se na direção da feminilidade de Aileen, que arquejou quando ele a provou profundamente, levando sua língua à parte mais sensível dela. Connor sugou com vontade, e um prazer selvagem sacudiu o corpo de Aileen. Com o corpo contorcendo-se de desejo, ela agarrou os cabelos dele. Espirais de prazer foram se intensificando cada vez mais, à medida que ele a atormentava.
Depois, subitamente, ele se posicionou sobre ela. Ela gritou de surpresa e de êxtase quando ele a preencheu, repetidamente.
— Amo você — sussurrou Aileen. Mesmo que não vá ficar.
Ele lhe cobriu a boca com a sua própria, levando-a ao limite, até que ela estremeceu de alívio. Jamais seria novamente deste jeito, não com outro homem.
Abraçando-o de encontro ao corpo, ela fechou os olhos. Ele pegou a ponta da brat dela e puxou a manta comprida para cobri-los. Seus corpos se aninharam um ao outro, e Aileen fechou os olhos.
Quando teve certeza de que ele estava dormindo, ela sussurrou;
— Que Deus o acompanhe, Connor.
Os irmãos de Connor tiveram a decência de nada comentar sobre a ausência deles na noite anterior. O rosto de Ewan ficou vermelho quando Aileen o cumprimentou. Ela esforçou-se para se portar como se não houvesse nada de errado, mas a expressão saciada de Connor deixava bem claro o que os dois haviam feito.
Após outro dia cavalgando, o grupo alcançou a fortaleza de Flynn O’Bannion. Torres altas de madeira erguiam-se sobre uma enorme rath. Embora não fosse tão grande quanto Laochre, a fortaleza havia posto em prática várias técnicas de construção normandas. A muralha externa tinha mais de quatro metros de altura, e Aileen teve de esticar o pescoço para ver o restante da habitação.
Ameaçadora e íngreme, a fortaleza lembrava muito o seu dono. Flynn O’Bannion não era conhecido por sua misericórdia com os inimigos. Um mau pressentimento se apossou de Aileen.
Com um puxão das rédeas, Connor deteve sua montaria.
— Você não vai entrar — disse para a curandeira. — Trahern me acompanhará. — Para Patrick, Ewan e Beavan, acrescentou: — O mesmo vale para vocês.
Patrick riu.
— Acredita mesmo que vamos deixá-lo entrar sozinho?
— Ele já me traiu uma vez — disse Connor, baixinho. — Não me surpreenderia se tentasse ferir aqueles que me são mais queridos.
Seu olhar deteve-se sobre Aileen e ela se sentiu comovida.
— Mais alguns dias e estarei em casa — prometeu ele. Abraçou Aileen. Ela pousou a face no peito dele, inalando o seu cheiro másculo. Ele acariciou-lhe o cabelo.
— Quero ficar com você — sussurrou ela.
— Espere por mim — ele pediu. — Fique com meus irmãos.
Ela recuou, deleitando-se com a visão dele. Na próxima manhã, o combate começaria e ela poderia perdê-lo.
A mão fria do medo apertou o seu coração. Jamais poderia ficar para trás, não quando a vida de Connor estava em risco. Mas fingiu aceitar, beijando-lhe a boca uma última vez.
Após ele ter se despedido dos irmãos, Aileen ficou olhando quando ele e Trahern começaram a cavalgada solitária em direção da fortaleza. Ela virou-se para Patrick.
— Não posso ficar aqui. Não posso ficar sem fazer nada enquanto ele enfrenta o inimigo.
Patrick a deteve, erguendo a mão. — Todos nós estaremos lá para ele. Nós MacEgans sempre apoiamos uns aos outros nos momentos difíceis.
— Como?
— Existem meios. Deixe comigo. — A expressão de seu rosto ficou quase gentil. — Ele a ama.
Ela sacudiu a cabeça.
— Se amasse mesmo, abandonaria esta luta.
— Connor pode ser muitas coisas, mas não é covarde.
— Estava falando a verdade quando disse que ele pode vencer? O olhar de Patrick ficou sombrio e ela enxergou dúvida neles.
— Um homem pode fazer milagres, quando tem algo por que lutar — ele disse.
Ou alguém, pensou Aileen. Tomada de inspiração, virou-se para Bevan.
— Preciso lhe pedir um favor. Será que pode me ajudar? Ao escutar o pedido de Aileen, Bevan franziu a testa.
— Não sei se esta é uma boa idéia.
— Confie em mim — insistiu Aileen.
Bevan olhou em silêncio para Patrick, que assentiu.
— Faça o que ela pede.
Instantes depois, Bevan montou o seu cavalo e saiu cavalgando a toda velocidade na direção de Loachre. Quando ele desapareceu de vista, Aileen perguntou:
— Será que há algo mais que possamos fazer por Connor? Patrick apertou-lhe o ombro.
— Rezar.
Flynn O’Bannion estendeu um cálice de vinho para Connor. Este o aceitou, mantendo os olhos fixos no homem que pretendia matar.
— As circunstâncias mudaram desde a última vez que se juntou a nós para uma refeição — Flynn começou a dizer, com ironia no olhar.
— Estou ansioso pela luta de amanhã.
— Eu também.
A comida em sua boca parecia seca, e o aposento que o cercava parecia zombar dele. Outrora considerara este grande salão seu lar. Os soldados haviam sido como irmãos para ele. Desde que chegara, Niall fora o único a cumprimentá-lo. O silêncio dos antigos companheiros o condenava, pois estes haviam jurado sua lealdade a O’Bannion.
Ele já havia derramado sangue ao lado deles, lutando contra os exércitos normandos, mas isso nada significava. A palavra do senhor deles valia mais do que a de Connor.
— Você era como um filho para mim — comentou Flynn, distraidamente. — O melhor de todos os lutadores. E eu quis matá-lo naquele dia.
— Você acreditou nas mentiras dela. O rosto de Flynn ficou sombrio.
— Minha filha jamais mentiu. Não a viu na manhã em que ela me procurou, chorando, Você roubou a virtude dela, e nada pode substituir isso. Nenhum homem vai querer uma mulher que perdeu a pureza.
Connor duvidava que Deirdre fosse virgem. A caílin manipuladora só queria uma coisa: ele para marido. Mas Connor a havia rejeitado.
— Fiquei satisfeito quando pediu esta luta. — Os olhos de Flynn brilharam de ódio. — Uma simples multa não é o suficiente para me recompensar pela perda dela. Sua vida é um preço mais adequado.
— Ou a sua — retrucou Connor.
Vindo da outra extremidade do Grande Salão, uma mulher se aproximou. Usando um vestido verde-esmeralda e uma léine amarela, Deirdre O’Bannion caminhava graciosamente na direção da mesa deles, passando pelas fileiras de soldados e escudos. Com os cabelos louros e os olhos verdes combinando com a roupa, ela parecia um ser surreal, uma das sibh. E Connor jamais havia conhecido uma mulher mais traiçoeira.
— Papai. — Ela cumprimentou Flynn com um beijo na face. Seu rosto corou ao olhar para Connor. — Então, ainda pretendem lutar um contra o outro?
Ela sentou-se ao lado do pai, seus olhos brilhando com falsa inocência. Connor desviou o olhar, Não suportava olhar para ela.
— Amanhã — respondeu Flynn. — Ao crepúsculo.
Deirdre levou a mão ao coração. Implorando, ela segurou a mão de Flynn.
— Papai, não faça isso. O assunto está encerrado.
— O assunto está longe de estar encerrado — disse Connor. Ignorando a falta de cortesia, ele ficou de pé. — Até amanhã.
Ele deu as costas ao chefe tribal e passou pela fila de soldados.
— Espere! — chamou a voz de Deirdre. Connor se deteve, mas não se virou para encará-la. — Temos uma câmara preparada para você. Um serviçal o levará até ela.
Um criado inclinou a cabeça e Connor o seguiu. A cortesia exigia que lhes agradecesse pela hospitalidade, mas ele não conseguia se forçar a fazê-lo. O serviçal o conduziu escada acima até uma pequena câmara.
Ele recusou a oferta de um banho, e afundou em uma cadeira diante da lareira. Ao ver Deirdre, toda a sua fúria voltou sem avisar. Se ela fosse um homem, já a teria matado por suas mentiras.
Em vez disso, seu pai morreria no seu lugar. Tentou encontrar consolo nisso, mas a vingança jamais preencheria o vazio que se acumulava em seu peito. Pensou em Aileen, em fazer amor com ela ao lado do rio, na noite anterior Na resistência dela em abandoná-lo.
Belenus, havia se apaixonado por ela! Queria acordar ao seu lado e lhe dar mais filhos. Queria ver Rhiannon se transformar em uma mulher e escolher um marido forte para si.
Seu coração parecia vazio. Tudo dependia da luta de amanhã.




Capítulo Vinte



— Avise Flynn O’Bannion que o rei Patrick de Laochre veio testemunhar o combate de hoje — disse Patrick para os guardas postados no portão da fortaleza. — Somos irmãos de Connor MacEgan. Não nos recuse a entrada.
Os guardas não pareciam surpresos em vê-los.
— Tenho ordens para acompanhá-los até o Grande Salão — disse um deles, baixando o machado de batalha. — Nosso chefe os está aguardando.
Ele pediu que eles entrassem e Aileen seguiu os irmãos, seus olhos estudando o pátio da fortaleza. Não era tão limpo como o de Laochre. Odores espalhavam-se pelo pátio, o cheiro de podridão misturado com o de corpos sem banho. Ela pressentiu enfermidade, e seu olhar se voltou para um homem tossindo.
Adentraram o Grande Salão, onde mesas de armar haviam sido afastadas para revelar o circulo de luta. Bancos cercavam a área e serviçais tiravam as esteiras do chão de terra. Ainda faltavam algumas horas para o pôr do sol. O mau pressentimento provocou um frio na barriga de Aileen.
Com o rosto impassível, Flynn O’Bannion entrou por um corredor lateral.
— Rei Patrick. — Ele ajoelhou-se ligeiramente, em respeito ao título de Patrick. — Fico honrado que nos dê o prazer de sua presença.
Patrick fitou Flynn O’Bannion com um olhar ameaçador.
— Estou aqui para garantir que será uma luta justa.
— A luta foi a pedido de seu irmão.
— De fato, foi — admitiu Patrick. — E não interferiremos. O olhar de Flynn voltou-se para Aileen.
— E por que a curandeira de Banslieve está aqui? Um homem morto não precisa de alguém para cuidar de seus ferimentos.
— Por que alguém precisa morrer? — perguntou Aileen. Embora sua voz permanecesse calma, ela deixou bem claro para o chefe tribal o seu descontentamento. — Sangue já satisfaria a honra.
Flynn O’Bannion riu.
— Falou como uma mulher. — Fitando os MacEgan, ele acrescentou: — Connor não vai parar até que um de nós esteja morto. E não pretendo que seja eu.
Aileen notou uma mulher observando-a. Usando um vestido de seda azul-safira, a dama de cabelos dourados lhe lançou um olhar malévolo. Era a mulher que havia beijado Connor na aenach. Deirdre O’Bannion, ela supôs.
Quando Deirdre caminhou na direção de Aileen, os homens a fitaram com avidez. Aileen sacudiu a cabeça com revolta. Será que eram incapazes de enxergar essa mulher pelo que realmente era? Ou será que a viam como a filha do chefe tribal, uma mulher capaz de ajudá-los a adquirir melhor posição social?
Quando Deirdre chegou até eles, sorriu docemente para o pai.
— Papai, eu não sabia que tínhamos mais visitantes.
— Os MacEgan vieram testemunhar a luta desta noite. Deirdre estendeu as mãos para Patrick.
— Sejam bem-vindos à nossa casa. — Fazendo sinal para um serviçal, acrescentou: — Querem uma taça de vinho ou algo para comerem?
Patrick olhou para os irmãos, como se tomando uma decisão silenciosa. Depois, disse:
— Aceitamos sua oferta de hospitalidade.
O sorriso brilhante no rosto de Deirdre era sincero.
— Por favor, sentem-se enquanto providencio tudo. — Ela virou-se para Aileen. — Minhas damas de companhia estão lá em cima. Se quiser, pode descansar um pouco e se juntar a nós após a refeição.
Aileen ficou desconfiada. Por outro lado, talvez pudesse descobrir mais sobre Deirdre deste jeito do que permanecendo com os homens.
 — Obrigada.
Os serviçais trouxeram uma refeição leve consistindo de carneiro assado, pão, queijo e salmão. Ewan se empanturrou, atacando a comida como se não comesse há duas semanas.
— Vá com calma, rapaz — aconselhou Trahern. — A comida não vai fugir.
— Eu me lembro de quando podia comer como ele — comentou Patrick. — Deixe ele em paz, Trahern. Ele precisa criar músculos, se vai se tomar um de nossos guerreiros.
Diante do elogio, as orelhas de Ewan ficaram vermelhas, e Aileen pôde notar que o jovem se encheu de orgulho.
Embora não houvesse nada de errado com a comida ou a bebida, Aileen apenas beliscou o pão. Estava tomada de medo, e era doloroso saber que não poderia ver Connor. De qualquer maneira, ele havia pedido que ela não viesse. Sua presença era uma distração ao qual ele não podia se dar ao luxo de ter.
— Venha — insistiu Deirdre, guiando-a na direção de uma escadaria estreita.
Aileen procurou se portar como se não houvesse nada de errado, mas era difícil esquecer que estava cercada por inimigos. Se não fosse por Deirdre, nada disso teria acontecido. Ficou ainda mais zangada, indignada até, que as mentiras de uma mulher pudessem causar a morte de um homem.
Quando chegaram à câmara, Deirdre dispensou as damas de companhia. Aileen cruzou os braços, em dúvida quanto ao propósito de Deirdre.
— Por favor, sente-se. Eu a vi antes, mas não fomos apresentadas.
— Sou Aileen O’Duinne, e já fui a curandeira de minha tribo.
— E eu sou Deirdre O’Bannion, filha de Flynn O’Bannion. Embora as palavras não passassem de um mero cumprimento,
Aileen sentiu como se ambas houvessem desembainhado as espadas verbais.
Com todos os sentidos em estado de alerta, ela escolheu cuidadosamente a sua cadeira. O que Deirdre queria com ela?
Deirdre juntou as mãos e sentou-se diante de Aileen. Destituído de qualquer pretensa hospitalidade, seu rosto pálido revelava um bocado de sofrimento.
— Não quero que ele morra — ela disse, baixinho. — Essa nunca foi a minha intenção.
— Suas mentiras fizeram com que ele sofresse. — Aileen se recusava a demonstrar misericórdia ou pena. — Se confessar a verdade, podemos dar um fim a este combate.
— Sabe muito bem que nenhuma de nós duas seria capaz de fazer isso. Ambos são orgulhosos demais.
— Se não há nada que nenhuma de nós duas possa fazer, por que quis falar comigo?
Deirdre alisou as saias, seu olhar se detendo no vestido marcado pela viagem de Aileen, que se deu conta de sua própria aparência descuidada. Ela deveria, ao menos, ter trazido outra léine, mas, na ocasião, estava pensando apenas em Connor.
— Você é a mulher dele, não é?
— Sou.
Diante da confirmação, o olhar de Deirdre endureceu.
— Noto que está apaixonada por ele. O que quero saber é: se pudesse salvá-lo ao desistir dele, você o faria?
— O que quer dizer?
— Meu pai me ouve. Posso negociar com ele para poupar Connor.
— Disse que nenhuma de nós seria capaz de impedir a luta.
— É verdade. Mas quando Connor perder, posso implorar pela vida dele. Meu pai não me negará isso.
— Parece estar muito confiante na vitória de Flynn O’Bannion. — Irritada, Aileen inclinou-se à frente. — O que quer de Connor?
— Quero que ele seja o meu marido. Caso se case comigo, um dia ele poderá suceder meu pai como chefe tribal.
Ela sentiu um frio na barriga, pois era exatamente com isso que Connor sonhara. Sua própria fortaleza. Seu próprio povo. Será que, dada a oportunidade, ele não a aproveitaria?
Por outro lado, sabia que ele odiava Deirdre. Aileen sacudiu a cabeça.
— Isso jamais acontecerá. Se seu pai o derrotar, os homens não o respeitarão.
Deidre deu de ombros.
— Vão achar apenas que os ferimentos dele ainda não sararam. Ele lutou ao lado deles, e conhecem a habilidade de Connor em combate.
— Um sorriso repleto de desejo apareceu no rosto de Deirdre. — Ele dará um bom líder.
— Dará. Mas não para a sua tribo, Deirdre deu de ombros.
— Pedirei ao meu pai e veremos se Connor escolhe se casar comigo.
Com a cabeça erguida, Deirdre deixou a câmara.
Sentindo-se deprimida, Aileen sentou-se em uma cadeira. Naquele instante, desejou ter a filha por perto para abraçar, para lhe sentir os bracinhos ao redor da própria cintura. Sentia saudades de Rhiannon, e lamentava não haver lhe contado sobre Connor antes. Hoje à noite, o pai dela poderia morrer, antes que Rhiannon tivesse a chance de realmente conhecê-lo.
Depois que a serviçal foi embora, ela enterrou o rosto nas mãos. A sugestão de Deirdre queimava em sua mente. Será que poderia abrir mão de Connor, se isso significasse salvar a vida dele?
Não. Deirdre havia plantado estas sementes de dúvida, esperando conquistar Connor para si. Mas ela jamais teria o coração de Connor. Aileen inspirou profundamente e juntou as mãos. Não sabia se Connor a amava, mas estava certa de que ele não queria se casar com Deirdre.
A única maneira de impedir a luta e salvar Connor era forçar Deirdre a admitir a verdade.
— Vocês não deveriam ter vindo — Connor avisou os irmãos.
— E quando foi que demos atenção às suas vontades? — retrucou Patrick. A expressão de seu rosto se transformou em uma de apoio fraterno. — Não vamos abandoná-lo quando mais precisa de nós.
— Esta batalha é minha.
— É mesmo. Mas O’Bannion não é um homem que luta limpo. Estamos aqui para garantir que tudo corra bem.
— E se ele me matar?
Ele não mediu as palavras, sabendo que a morte era uma possibilidade real.
— Isso nós não permitiremos. Se quer manter sua honra, irmão, é melhor vencer. Caso contrário, interferiremos.
— Não. É por isso que eu não os queria aqui. — Ele se viu tomado de uma súbita apreensão. — Onde está Aileen?
— Está com Deirdre, entre as mulheres. Sua fúria explodiu.
— Vocês perderam o juízo? Não se pode confiar naquela mulher, e vocês deixam Aileen ir com ela?
— Se eu fosse você, estaria mais preocupado com Deirdre — disse Patrick. — Aileen pode tomar conta de si mesma. — Seus olhos enxergaram a alma do irmão. — Você sente algo por ela.
Connor assentiu de leve. De que adiantava isso? Nada tinha a oferecer para Aileen, nem mesmo a força do nome da família. Não merecia ser feliz com ela, não sem derrotar o seu inimigo.
— O que vai fazer? — perguntou Trahern.
— Tenho de vencer esta luta. — Connor reprimiu as próprias dúvidas quanto ao resultado. — Ela merece um homem que possa protegê-la. Se eu conseguir provar meu valor hoje, serei digno dela.
Um pedacinho dele acreditava que havia a chance disso acontecer Conhecia Flynn, conhecia o modo como o guerreiro se movimentava e lutava. Mentalmente, imaginou o homem tombando sob sua espada.
— Está na hora de se armar — Trahern lembrou.
Connor estendeu as mãos e os irmãos o ajudaram a vestir o corselete de couro. A armadura leve o protegeria de cortes de pouca importância, mas não de ferimentos fatais. Ao redor das canelas, amarrou grevas de couro para proteger a parte inferior das pernas.
Trahern lhe entregou o escudo de madeira redondo e Patrick desembainhou a espada. Connor a reconheceu como sua própria arma, a espada que lhe fora roubada pelos O’Bannion.
— Onde conseguiu isso?
— Ordenei a Flynn que a devolvesse. Um homem deve ter sua própria espada em um combate como este. — Patrick arrancou um fio de cabelo da própria cabeça e a espada o cortou em dois. — Está afiada o bastante para você?
A boca de Connor quase esboçou um sorriso, porém emoções mais profundas se apossaram dele. Ele derramaria o próprio sangue por estes homens, seus irmãos. Embainhando a espada, agarrou o braço do mais velho dos irmãos.
— Obrigado.
Patrick o abraçou, dando-lhe um tapa nas costas.
Trahern e Ewean também o abraçaram. Lágrimas brilharam nos olhos de Ewan, mas ele, valentemente, as conteve.
— Onde está Bevan?
Connor não havia visto o outro irmão mais velho desde que haviam levantado acampamento.
— Ele foi buscar algo que você deixou para trás — comentou Patrick, porém não disse mais nada.
Quando, por fim, ele estava pronto para a luta, os irmãos o deixaram a sós com seus pensamentos. Ele se concentrou, forçando-se a imaginar modos de derrubar Flynn O’Bannion. Sua honra, seus sonhos repousavam nesta luta.
E tinha toda a intenção de vencê-la.
A porta se abriu, e a mão de Connor voou para o punho da espada. Deirdre O’Bannion entrou.
— Fique longe de mim, Deirdre — avisou Connor.
— Vim me desculpar — disse ela. — Por tudo.
Ela tremia, e os olhos estavam lindamente embaçados. Ele pensou como ela lembrava uma víbora, se arrastando na direção dele.
— Não quero escutar mais mentiras de seus lábios.
— Costumava gostar de meus lábios.
Ele esforçou-se para não perder o controle.
— Se eu já a beijei, nada significou.
— Não foi essa a impressão que tive.
Ela colocou as palmas das mãos sobre o corselete, alisando o couro.
— Perdoe-me, Connor.
As mãos delas desceram até as dele, e Deirdre ergueu a mão direita de Connor, fitando os dedos deformados.
— Tentei impedi-lo.
— Você ficou parada, olhando, enquanto esmagavam minhas mãos.
— Não! Eu implorei para que ele não o fizesse. Mas meu pai se recusou a dar ouvidos á razão.
Connor retirou bruscamente as mãos.
— Não quero nada com você, Deirdre. Afaste-se de mim. O rosto dela ficou vermelho.
— Você não sabe o que está fazendo, Connor. — Com os olhos faiscando, ela sorriu. — Mesmo que vença, já perdeu. Nossos homens o matarão na mesma hora. E matarão seus irmãos também.
Ele cruzou o aposento e agarrou o braço dela.
— Está me machucando.
Abrindo a porta, ele a empurrou para o corredor. — Você nunca soube escutar direito. Ela esfregou o braço.
— E você nunca entendeu o quanto tenho a oferecer. Esta terra e esta tribo poderiam ser suas. — O brilho de raiva lhe enfeou o rosto. — Não seria uma pena se um acidente acontecesse durante a luta?
— Não me ameace.
Ele fez menção de fechar a porta, mas suas próximas palavras o detiveram.
— Eu jamais o ameaçaria — disse ela. — Mas, se concordar em se casar comigo, podemos dar um fim a esta batalha. E nada precisaria acontecer a Aileen O’Duinne.
— O que fez com ela? — ele exigiu saber, empurrando-a de encontro à parede. — Se encostou um só dedo nela, eu...
— Você me matará? Faça isso e meu pai a massacrará, assim como a seus irmãos. Talvez ele até o deixe assistir, antes de matá-lo. — Ela soltou uma gargalhada estridente que deixou Connor ainda mais furioso. — Solte-me.
Ele o fez, e ela esfregou o ombro.
— Admiro a sua força, Connor Mas é melhor não me tocar novamente. Pelo menos, não até que eu peça.
— Não toque em Aileen — avisou ele. Cada fibra de seu ser revoltava-se diante da idéia de algo de mal acontecer à moça. — E talvez deva ir se despedir de seu pai. Hoje é o último dia em que o verá com vida.




Capítulo Vinte e Um



Tochas bruxuleavam, desenhando sombras de morte sobre as paredes do Grande Salão. A câmara estava lotada com todos os membros da tribo O’Bannion, soldados que outrora ele chamara de amigos. Connor suspeitava que a maioria dos homens sabia da traição de Deirdre, mas como o pai não enxergava suas mentiras, tudo que podiam fazer era assistir à luta.
O suor brotava na testa de Connor, seu corpo sentindo-se excessivamente quente. Ele desembainhou a espada com a mão esquerda, circulando Flynn. O guerreiro mais velho não havia sofrido com a idade. Podia-se dizer até que parecia ter ficado mais forte com o passar dos anos, Embora o cabelo fosse quase todo branco, Flynn movia-se como um homem muito mais jovem.
Com uma postura relaxada, Connor agarrou firme a espada. Aguardava a investida de Flynn, sabendo que o inimigo preferia atacar imediatamente.
O aço brilhou e ele bloqueou o primeiro golpe por puro instinto. Investiu todos os seus anos de treinamento, cada vestígio de conhecimento que possuía, no combate. Flynn atacou violentamente com a mão firme. Connor defendeu-se.
— Sabe que eu jamais toquei nela — disse.
Queria que Flynn soubesse da verdade, para minar a sua autoconfiança.
— Você tocou em quase todas as mulheres de rainha fortaleza — retrucou Flynn.
Sua espada movimentou-se de novo, tentando cortar a barriga de Connor.
Connor esquivou-se e deu a volta para o lado oposto.
— Pude apreciar a companhia de uma ou outra dama, mas não as desonrei.
Por um tempo, parecia que Flynn estava brincando com ele, como se pretendesse estender bastante o combate. Depois, sem aviso, sua espada desferiu um golpe esmagador. Os pulsos de Connor latejaram de dor, mas ele não cedeu. Flynn notou-lhe a reação e grunhiu de satisfação.
Embora Connor tentasse assumir a ofensiva, seus esforços se concentravam em se defender da força de Flynn. Cada golpe aniquilador intensificava a dor.
— Você sempre foi um bom lutador — disse Flynn, lançando-lhe um olhar penetrante.
— Fui treinado pelos melhores.
Connor girou a espada, e o metal se chocou com metal.
— Sarou melhor do que pensei que sararia.
Connor circundou o oponente, avaliando Flynn. Estavam bem equiparados. Connor considerava isso um ponto positivo. Quando derrubasse o seu inimigo, todos saberiam que havia recuperado plenamente a força.
A luta prosseguiu, cada um buscando uma fraqueza no outro. Foi então que, abruptamente, Flynn girou a espada e, com a parte chata da lâmina, desferiu um golpe selvagem nos pulsos de Connor. O impacto provocou uma dor lancinante. Com a mão direita latejando, Connor mal foi capaz de segurar o punho da própria espada para se defender de outro ataque brutal da arma de Flynn. O chefe tribal aproveitou-se da vantagem. Flynn avançou e com outro golpe violento desarmou o adversário.
Connor mergulhou na direção da arma caída no chão. Flynn golpeou para baixo, conseguindo fazer um corte na parte superior do braço de Connor. Mas a mão deste encontrou o punho da espada e ele a ergueu para bloquear outro ataque.
— Você não tem como ganhar disse Flynn, baixinho. — Mas minha filha implorou por sua vida. Talvez eu lhe atenda o pedido, para que você possa ser humilhado diante do nosso povo.
O sangue escorria pelo braço de Connor, mas ele não sentia dor. Atrás de Flynn, à frente dos outros espectadores, avistou Aileen. Usando vestido e léine verdes, ela trazia uma simples fita verde nos cabelos. Connor lembrou-se da noite em que a tinha dado para ela.
Viu o medo no rosto dela. Como todo mundo, Aileen também duvidava de suas habilidades, e acreditava que ele fosse morrer. Sua falta de confiança o feria com a mesma violência de qualquer espada.
Planejara lutar para provar seu valor para ela. Mas Aileen via, assim como todo mundo, que ele estava perdendo. Embora ainda estivesse de pé, os contínuos movimentos estavam forçando seus pulsos. Sentia cada vez maior dificuldade para continuar segurando a espada.
Ver-lhe a tristeza o deixou sem forças. Com os músculos ardendo, girou para bloquear outro golpe.
Foi então que viu Aileen lhe dar as costas e ir embora.
Custasse o que custasse, estava determinada a interromper este combate. Aileen forçou a passagem por entre a multidão, até encontrar Patrick. Estendendo a mão na direção de sua cintura, agarrou o punhal do rei.
Este lhe segurou o pulso.
— Para que quer isso?
— Eu preciso. Esta luta já foi longe demais.
— E o que pretende fazer? Lutar você mesma com O’Bannion? — Patrick lhe lançou um olhar de aviso. — Não seja tola.
— Com O’Bannion, não. Com a filha dele.
Com uma expressão intrigada nos olhos, Patrick a soltou. Com a fúria brilhando nos olhos e correndo nas veias, Aileen seguiu para o palanque. Se não agisse agora, Connor morreria.
Escutando as zombarias da multidão, moveu-se na direção de Deirdre. Pelo canto do olho, viu Connor cair no chão e Flynn avançar
Aileen se esgueirou até se posicionar atrás de Deirdre. Ninguém pareceu notá-la, pois todos os olhares estavam voltados para o combate entre Flynn e Connor
Com um movimento rápido, agarrou os cabelos dourados de Deirdre e cortou fora um dos cachos. Depois, posicionou a lâmina sobre o pescoço de Deirdre.
— Acho que está na hora de confessar a verdade para o seu pai, não concorda?
Deirdre gritou, mas Aileen manteve a lâmina encostada na garganta da mulher fingida.
— Como ousa tocar em mim? Papai! — gritou.
A espada de Flynn deteve-se e Aileen subitamente se deu conta de que havia dezenas de soldados prontos para subjugá-la. O silêncio dominou a câmara.
— Deirdre tem algo que gostaria de confessar — afirmou Aileen. Um soldado avançou, mas Aileen pressionou a lâmina até um fio
de sangue escorrer do pescoço de Deirdre.
— Não se mexa.
Um arqueiro preparou o seu arco, a flecha apontada para ela. Por Danu, isso não parecia mais ser uma boa idéia. Tivera a intenção de forçar Deirdre a confessar suas mentiras. Só que, ao ameaçar a filha do chefe tribal, pusera a si mesma em perigo.
Um homem lhe agarrou o braço por trás e o punhal caiu no chão de madeira. Aileen inspirou profundamente diante da dor, mas o soldado a puxou para longe de Deirdre.
Para a sua surpresa, ela viu que era Trahern.
— Juramos que esta seria uma luta justa, e nós MacEgans cumprimos a nossa palavra — disse ele.
Antes que Aileen pudesse retrucar, Trahern a arrastou para longe do palanque.
— Não diga nada, ou eles a prenderão. Quer acabar a noite com grilhões nos pulsos?
Ela sacudiu a cabeça, percebendo que Trahern provavelmente lhe salvara a vida.
No círculo da luta, Connor agarrou o pulso esquerdo. Tochas bruxuleavam nas paredes de madeira, os membros da tribo circundando os combatentes.
Sangue escorria pelo seu braço, e ele se esforçava para ficar de pé. Aileen apertou as mãos uma na outra com tanta força, que fincou as unhas na pele. Era como se estivesse assistindo a própria morte. Não conseguia suportar.
Quando Flynn avançava com a espada, os movimentos de Connor eram lentos. Sua mão esquerda escorregou, mas ele conseguiu corrigir a pegada.
O chefe tribal deu um passo para o lado, e todos puderam ver que a derrota de Connor era iminente. As mãos de Trahern apertaram-se ao redor dos ombros de Aileen, alertando-a para não interferir.
Mas como podiam simplesmente ficar ali parados, vendo-o ser morto? Ela jamais havia se sentido tão indefesa. Flynn olhou para ela, seu olhar era impiedoso.
Depois, ergueu a espada e desferiu o golpe final.
Connor sabia o que estava vindo, mas permaneceu imóvel quando o aço começou a descer. Era como se o tempo houvesse parado, a lâmina caindo com infinita lentidão. Seu irmão Patrick levou a mão ao punho da espada e Aileen enterrou o rosto nas próprias mãos.
Ele compreendia o que ela havia tentado fazer ao ameaçar Deirdre. Graças aos deuses o irmão a havia impedido. Não queria nem pensar na punição de Flynn, caso Aileen houvesse ferido Deirdre.
Seu olhar voltou-se para a multidão anônima. Para sua surpresa, viu a assombrosa visão de um menininho. O rosto etéreo de Whelon o fitava, os olhos do menino estudando-o. Uma fração de segundos depois, o menino ficou de pé, com ambas as pernas.
Connor fechou os olhos, tentando dissipar a visão. Whelon estava morto. Connor o vira morrer com os próprios olhos.
Será que isso significava que ele mesmo estava morto?
Whelon sacudiu a cabeça, como em resposta à pergunta silenciosa. A mão de Connor subitamente ergueu-se, como se impulsionada por força invisível. A espada de Flynn o atingiu e sua mão esquerda soltou a espada. Um estranho calor aqueceu a mão direita.
Mal notou a espada penetrando na pele e nos músculos, pois sua atenção permanecia concentrada em Whelon. O menino atravessou a multidão até parar ao lado de uma menininha.
Uma menina com os olhos dele. Rhiannon.
A visão da filha o encheu de desespero e amor Não queria que ela o visse daquele jeito. Ela merecia um pai capaz de presenteá-la com um generoso dote. Ele ameaçaria qualquer rapaz que olhasse para ela com algo menos do que respeito.
Foi então que seus olhos encontraram os de Flynn. Será que o chefe tribal era tão diferente dele? Se algum homem ousasse tocar sua filha, ele o mataria.
— Espere... — exclamou uma voz feminina. Com lágrimas descendo pela face, Aileen adiantou-se em meio à multidão. — Por favor, pare, Deirdre quer se casar com ele.
Os olhos de Flynn se estreitaram em sinal de incredulidade, até que outra voz se fez ouvir.
— Ela fala a verdade, papai.
Deirdre ergueu-se de sua cadeira sobre o palanque.
— Acho que todos nós já vimos o bastante. Connor já foi devidamente punido por sua desonra. Mas eu ainda o quero.
A arrogância na voz de Deirdre enfureceu Connor. Como ela podia achar que ele sequer pensaria em casar com ela?
Mas as palavras de Aileen tocaram seu âmago, e espinhos pressionaram-lhe o coração.
— Dê um fim a esta batalha e permita que eles se casem. — Para Deirdre, ela acrescentou: — Não ficarei no seu caminho.
— É isso o que quer? — perguntou Connor com incredulidade. Ela estava tão convencida de sua derrota que preferia abrir mão dele?
— Quero que você viva — ela sussurrou. — Isso será o bastante. Ele queria correr até ela, enxugar-lhe as lágrimas das faces. Em vez disso, a mão direita se apertou ao redor do punho da espada. Embora a mão esquerda estivesse inutilizada, era como se ele estivesse tomado de uma estranha força.
— Não é o bastante para mim — disse e girou a espada na direção de Flynn.
Por Deus, mesmo que usasse os últimos vestígios de sua força, venceria esta batalha. A filha e Aileen estavam vendo, e ele as honraria.
Do fundo de si, extraiu as últimas forças. Ignorou os cortes que Flynn infligia e se concentrou em desarmar o homem que um dia havia sido seu mestre no manejo da espada.
Seus pés avançaram, nunca recuando, investindo na direção da vitória cujo gosto podia quase sentir Com um golpe esmagador, arremeteu contra o adversário e fez com que a espada de Flynn saísse voando. A arma cravou-se no chão de terra com um ruído surdo.
Ela estava fora do alcance de Flynn. Connor baixou a ponta da sua espada na direção da garganta de Flynn.
— Não gritou Deirdre. Ela tentou correr na direção deles, mas Trahern a segurou. — Solte-me, filho de uma cadela!
A resignação estampou-se no rosto de Flynn. Ele fitou Connor, que tinha a promessa de morte nos olhos.
— Seja rápido.
Connor havia sonhado com aquele momento, de enterrar a espada no coração de Flynn. Mas o grito horrorizado de Rhiannon desviou a atenção de sua vingança. O rosto da menininha estava petrificado de medo.
Ele voltou a olhar para o inimigo. Flynn merecia morrer, por virar seus homens contra ele, por traí-lo. Por acreditar nas palavras da filha.
Connor ergueu seu olhar para Deirdre. Horrorizada, ela sacudiu a cabeça.
— Não.
— Quer que ele morra sem saber a verdade? — perguntou, pressionando a ponta da espada de encontro à garganta de Flynn.
Uma fúria violenta transformou as feições de Deirdre.
— Não, não quero que ele morra — retrucou ela. — Você não passa de um bárbaro ignorante. Não sei por que pensei que queria me casar com você.
— Que assim seja.
Connor ergueu a espada, como se fosse desferir o golpe mortal.
— Pare! — implorou Deirdre. Sabendo que Connor tinha o poder de dar um fim à vida do pai, ela fechou os olhos. Com voz trêmula, admitiu; — Connor jamais me tocou. Eu queria que ele o fizesse, mas ele se ateve ao estúpido código de honra.
Arrependimento e tristeza se apossaram do rosto de Flynn. Ele voltou o olhar para Connor.
— Parece que lhe devo desculpas.
A vergonha pela confissão da filha debilitava a sua voz.
Connor baixou a espada e abriu os braços para Rhiannon. Ela adiantou-se, hesitante, e foi para o lado dele. Com uma prece de agradecimento, ele passou o braço bom ao redor dos ombros da menina.
— Um homem faria qualquer coisa pela filha. —- O cansaço ameaçava dominá-lo, e seu corpo doía. Ele limpou a espada e a embainhou. — Gostaria que houvesse paz entre nós.
Connor ofereceu a mão para Flynn. Agarrando-lhe o braço em busca de apoio, o chefe tribal ficou de pé. O movimento fez com que outra onda de dor lhe percorresse o corpo, e Connor percebeu que Aillen precisava cuidar de seus ferimentos.
— Tenho outra proposta para você, MacEgan — disse Flynn.
— Que proposta?
— Eu lhe devo a plena eraic, um preço pelos ferimentos que sofreu. Mas, em vez de prata, será que não prefere uma rath só sua?
A oferta o encheu de tanta esperança que ele teve dúvidas se havia escutado corretamente Flynn.
— Ah, prefiro, sim.
Sentindo a visão embaçar, ele mal ouviu os termos de O’Bannion. Os sons se misturaram e a dor de seus ferimentos se intensificou. E depois Connor não enxergou mais nada.







Capítulo Vinte e Dois



Aileen correu até Connor. O sangue pingava de seus braços, porém o que mais a preocupou foi o calor brutal de sua pele. Uma camada de suor lhe cobria a testa, e ela subitamente se deu conta de que ele estava travando outra batalha com os invisíveis demônios da enfermidade. Ela colocou a cabeça dele no colo.
— Preciso cuidar dos ferimentos dele. Ajudem-me a levá-lo até uma câmara.
— Vou mandar chamar nossa curandeira, Illona — ofereceu Flynn.
Ele deu a ordem e Aileen lutou contra os temores que ameaçavam tomar conta dela. Ela não sabia se havia trazido as ervas adequadas.
Quando os homens carregaram o corpo de Connor, ela os seguiu. Para Rhiannon, disse:
— Preciso de sua ajuda, a iníon. Será que pode me trazer flores de sabugueiro, raízes de tagetes e alguns panos limpos?
— É a varíola? — perguntou Rhiannon, seu rosto espelhando os temores de Aileen.
Por todos os santos, não pensara nisso. Mentalmente, contou os dias. Um pavor negro lhe invadiu os sentidos. Doce Belisama, era possível. A febre alta era idêntica à de Whelon.
— Vá buscar o que eu preciso — Aileen ordenou para a filha. — Rápido!
Suas mãos tremiam. Ela se censurou por não ter notado o rubor da pele dele, o modo como se movia, como se estivesse em torpor
A lembrança da morte minou sua autoconfiança. Não havia conseguido salvar Whelon ou Padraig. Suas mortes a enchiam de culpa. E se não conseguisse salvar Connor? O pensamento em si já ameaçava destroçá-la. Precisava dele. Ele era a parte que estava faltando nela, o homem com quem sempre sonhara.
Não podia deixar que morresse. Ele havia travado sua batalha contra obstáculos inimagináveis e vencera. Agora, tinha de fazer o mesmo.
Quando o deitaram no catre, Aileen desfez as amarras da túnica e a retirou pela cabeça. Suas mãos percorreram a pele febril, buscando ferimentos. Pequenos cortes, machucados, uma costela que podia estar quebrada. Ela memorizou cada ferimento, examinando a pele atrás de qualquer sinal de varíola.
Por ora, não havia sinal de lesões. Mas não respiraria aliviada até que ele estivesse bem. A varíola, às vezes, não aparecia por vários dias. Podia apenas observar e rezar.
Foi então que notou o abscesso sobre o pulso direito. Como antes, a pele tinha uma coloração arroxeada. A dor que ele deve ter sentido. Ela precisaria de talas para o pulso quebrado.
Como ele havia conseguido terminar o combate? Nenhum homem poderia ter vencido esta luta de espadas, não com a mão direita prejudicada. Mas, de algum modo, ele o havia feito.
Aileen inclinou-se a frente.
Sei que não pode me ouvir — sussurrou. — Mas não vou deixá-lo morrer. Não agora, após tudo que passamos. E, quando acordar, trataremos do seu pulso, como fizemos antes.
Ela alisou-lhe o cabelo, buscando algum sinal de que ele a escutara. Mas não houve nada.
Quando Rhiannon chegou com os panos, Aileen lavou a pele de Connor, tratando dos cortes que lhe cobriam os ombros e os braços. Um dos talhos foi mais profundo do que ela pensava, e Aileen mandou a filha ir buscar linha e agulha, assim como talas.
Embora seus dedos se mexessem sobre a pele com o distanciamento da experiência, Aileen podia sentir cada perfuração que a agulha fazia. Com o corpo imóvel, ele ainda não havia recuperado a consciência. O suor lhe cobria a testa e os músculos estavam rígidos.
Ela sabia que estava sendo observada por muitas pessoas, talvez até pela curandeira, Illona. Mas não importava o que pensavam de seus talentos. Tudo que importava era Connor. Ela levou a mão à face dele.
Durante a batalha, havia se oferecido para desistir dele, se isso significava que ele viveria. Só o pensamento de Deirdre tocando nele já a deixava de cabelo em pé.
Mas Connor havia se recusado. Com o olhar fixo em Aileen, rejeitara Deirdre. Naquele frágil instante, ela pressentira que significava algo para ele. Embora Connor jamais houvesse dito as palavras, queria acreditar que ele a amava.
Por todos os deuses, não desistiria dele.
— Quer as talas agora? — perguntou Rhiannon. Ela assentiu e começou a lhe enfaixar os pulsos.
— Posso ajudar — ofereceu Rhiannon. — Já fiz isso antes. Diante do apelo ardente da filha, Aileen resistiu à tentação de recusar.
— Vá em frente. Ficarei observando.
Embora ainda sentisse o desejo de fazer tudo sozinha, Aileen forçou as mãos a permanecerem ao lado do corpo.
Rhiannon posicionou as talas e as prendeu firmemente com as faixas. Observá-la com o pai trouxe lágrimas aos olhos de Aileen. Ela conteve a emoção.
— Bom trabalho.
O sorriso de Rhiannon ao elogio as uniu ainda mais. Lutariam juntas contra os demônios da enfermidade. De repente, Aileen ficou de pé e virou para a multidão que as observava.
— Onde está sua curandeira, Illona?
— Estou aqui. — A mulher mais velha se adiantou. Elas se fitaram nos olhos, cada uma avaliando a outra. Aileen inspirou fundo.
— Pode me ajudar?
Um sorriso caloroso esboçou-se no rosto da curandeira. Illona lhe estendeu um ramo de flores de sabugueiro ressecadas.
— Pode precisar disso.
Era como se o fardo da responsabilidade houvesse sido tirado de suas costas, para ser partilhado com outra pessoa. No passado, havia tentado cuidar de todas as doenças sozinhas. O orgulho a impedira de buscar ajuda.
Mas agora observava enquanto Illona preparava o chá, grata por outro par de mãos. Depois de amarrar os pontos, enfaixou o último dos cortes nos antebraços de Connor
Illona lhe passou uma xícara do chá de flor de sabugueiro. Aileen ergueu a cabeça de Connor O líquido escorreu pelo canto da boca, e ela se esforçou para fazê-lo engolir
Quando seu segundo esforço provou-se inútil, tentou outra tática. Colocou o liquido na boca e a levou à de Connor. Lentamente, do modo mais intimo possível, ela o fez beber
O toque dos lábios de Connor sob os seus a fez lembrar da noite em que passou nos braços dele. Como um homem que não queria ser beijado, a boca do guerreiro não reagiu a sua. Embora continuasse a ajudá-lo a beber, seus temores intensificaram-se.
— Agora, só nos resta aguardar — aconselhou a curandeira. — Já fez tudo que podia.
Esta era a parte que Aileen mais receava, a entrega do controle ao destino. Ela não deixou que ele ficasse deitado sozinho no catre, mas, em vez disso, apoiou as costas na parede e descansou a cabeça dele no colo.
Do lado de fora da janela o céu havia enegrecido. Nenhuma estrela salpicava o céu da meia-noite, e Aileen se perguntou há quanto tempo estava ali com ele. Parecia apenas alguns instantes, mas podia ver que as pálpebras de Rhiannon estavam pesadas.
— Vá dormir, a iníon. Ficarei acordada com ele. — Diante do olhar indagador da curandeira, Aileen acrescentou: — Gostaria de ficar um pouco sozinha com ele.
— Estarei do outro lado da porta — respondeu Illona, deixando a câmara.
— Ele lutou com tanta bravura — disse Rhiannon. — Mesmo com as mãos quebradas.
— Lutou mesmo. Deveria se orgulhar de tê-lo como pai. Uma expressão preocupada enrugou a boca de Rhiannon.
— Ainda penso em Eachan como meu pai.
— E ele era, minha querida. De todas as maneiras que contam, com exceção do sangue. — Ela sorriu carinhosamente. — Nem toda menina é abençoada com dois pais.
Rhiannon sentou-se ao lado dela e tomou na sua a mão deformada de Connor.
— Ele não passa de um desconhecido para mim.
— Mas você lhe deu forças. Viu o quanto o ajudou? Fez bem a ele vê-la aqui.
Aileen devia muita gratidão a Bevan por ter ido buscá-la, embora houvesse se preocupado com a segurança de Rhiannon.
Aileen cobriu a mão de Rhiannon com a sua, as duas sentadas, Connor no meio. Uma sensação de que tudo estava certo se apossou do coração dela, sentada ali com as pessoas que mais amava.
As horas se passaram e sua garganta ficou seca. Rhiannon se encolheu ao lado de Connor e adormeceu, Aileen abraçou Connor, suas costas e os membros doloridos devido à posição. Mas não podia permitir que ele enfrentasse sozinho esta provação.
Suor banhava sua testa, dor lhe marcava as feições. Aileen ficou enxugando a testa dele, sussurrando-lhe, bem baixinho.
Quando a escuridão se transformou no cinza-escuro da manhã, Connor começou a tremer. Com grande esforço, seus olhos se abriram.
— Estou aqui — sussurrou para ele.
Embora tentasse lhe resfriar a pele ardente com as mãos, no fundo sabia que nada podia fazer por ele.
— Estou morto? — perguntou o guerreiro. Quando ela sacudiu a cabeça, sua boca se curvou para cima. — Não era bem isso que eu havia imaginado quando pensei em acordar em seus braços.
Ela o ajudou a se levantar até que estivesse cara a cara com ela. Seus olhos ainda tinham o brilho da febre, o corpo ainda batalhava para recuperar o controle.
— Meus braços doem.
Aileen levantou a bandagem. Não havia sinal de inchaço. O ferimento estava limpo e os pontos intactos. Mas se ele estava sentindo dor, talvez ela devesse tratá-lo novamente.
— Vou preparar algumas compressas — disse, ajudando-o a se deitar no catre.
As raízes de tagetes, ou talvez íris. Todas as curas que conhecia passaram por sua cabeça. Talvez Illona O’Bannion conhecesse mais algumas. Perguntaria a ela.
— Não vá — disse ele, estendendo a mão na direção dela. — Se vou morrer, aqui é onde quero ficar. — Ele inclinou a cabeça. — É claro que a melhor morte seria com você nua sob o meu corpo.
As faces de Aileen coraram e ela olhou para a filha adormecia.
— Você não vai morrer.
— Eu posso — afirmou ele. — Talvez deva me levar a algum lugar onde possa ter meu último desejo atendido. Receio que vá ter que ficar por cima, visto o estado delicado em que me encontro.
Sua voz era uma mistura do brincalhão malicioso que ela conhecia tão bem e um ligeiro vestígio de seriedade.
— Não está em condições de nada disso — retrucou ela, embora houvesse sentido o corpo ferver diante da imagem de Connor agarrando-lhe os quadris, preenchendo-a.
— Não temos certeza. Acho que deve pedir a Rhiannon para nos deixar. Se cuidar de mim sem as roupas, talvez eu melhore.
O ardor nos olhos dele a encheu de esperança. Ele não estava tão mal quanto ela havia pensado. Se fosse varíola, jamais estaria brincando daquele jeito. Alivio e exaustão se apossaram dela.
Aileen se inclinou na direção dele, até que o nariz encostou no dele.
— Prometo não usar nada assim que você estiver plenamente recuperado. De modo que é melhor pôr mãos à obra.
A mão dele lhe acariciou a face e Connor ficou sério.
— Amo você, Aileen.
Ela não conseguiu conter as lágrimas, a alegria de que ele enfim era dela. Ele acariciou seu cabelo, e ela o beijou delicadamente.
— Também amo você.
A fortaleza em anel não era tão grande quanto ela esperava, mas Connor parecia satisfeito com a sua localização. Situada no topo de uma colina, a propriedade se estendia até o rio que limitava as terras. Uma muralha de pedra cercava a rath, com quatro pequenas choupanas em seu interior.
— Não é a fortaleza com a qual você sonhava — disse Aileen, receando a decepção dele. Flynn O’Bannion havia mantido a palavra, concedendo-lhes a propriedade como pagamento pelos ferimentos de Connor. — Não é grande o suficiente para uma tribo só sua.
— Não preciso da minha própria tribo — ele disse, tomando-lhe a mão. — Flynn me pediu para treinar seus novos soldados. Moraremos aqui, e os rapazes aprenderão a manejar a espada sob minha supervisão. Você poderá cuidar de seus ferimentos e haverá muitos deles. — Ele ergueu a mão deformada, sorrindo, embora Aileen não pudesse deixar de perceber o brilho de tristeza no seu olhar. — Posso não ser o guerreiro que um dia fui, mas ainda tenho o meu conhecimento. E, para mim, é o suficiente poder passá-lo adiante.
Ele a puxou para perto de si, acariciando-lhe a face. Aileen encostou a testa na dele, mal podendo acreditar que, enfim, ele a amava.
— E, um dia, ensinarei aos nossos filhos — disse ele. Ela queria tanto acreditar nisso!
— E se eu não puder lhe dar os filhos que deseja? Ele a beijou amorosamente.
— Mesmo que Rhiannon venha a ser a nossa única filha, eu me considero abençoado. Mas pretendo tentar lhe dar mais filhos com grande freqüência.
A malícia brilhou nos olhos de Connor, arrancando um sorriso dos lábios dela.
— Lamento não ter lhe contado sobre nossa filha antes — disse Aileen.
Ele assentiu, e ela enxergou o perdão nos olhos dele.
— Um dia, ela me verá como seu pai.
Aileen apertou a mão dele, admirando os campos verdes que se estendiam até o horizonte.
— Verá, sim.
Como se pressentindo uma tristeza nela, Connor perguntou:
— Sente saudades de Banslieve?
— Sinto. — Ela sorriu corajosamente. — Mas meu lugar agora é com você, ao seu lado. Ao lado de Illona, serei outra curandeira para o povo.
Embora ainda fosse doloroso pensar no seu exílio, era uma oportunidade para os dois recomeçarem.
Connor a conduziu até o interior da fortaleza em anel, surpreendendo-a ao deter-se diante de uma rocha vertical de granito. O monólito era da altura de Connor, com uma abertura do tamanho do punho perfurada no centro. O coração de Aileen bateu mais forte, pois sabia o que ele pretendia fazer.
Ele colocou a mão na abertura, segurando a mão dela como mandava o antigo ritual de casamento.
— Gráim tú — murmurou, acariciando-lhe os dedos com os dele.
A pedra gasta envolveu as mãos deles, e Aileen pôde quase imaginar os milhares de homens e mulheres que haviam unido suas vidas ao longo dos séculos daquele modo.
Uma lágrima de alegria lhe desceu pela face. — Assim como eu amo você — respondeu.
— Pode aceitar um homem alquebrado como seu marido? — perguntou ele.
Aileen sorriu através das lágrimas.
— Aos meus olhos, você é perfeito — sussurrou. — E é o único homem que já quis.

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